Centenas de jovens cubanos gritaram "Hoje sou Fidel" para invocar, este sábado, o exemplo do histórico líder num tributo na Universidade de Havana, um ano após a morte de 'El Comandante', enquanto o país encara uma mudança geracional no poder.
Os estudantes concentraram-se na escadaria daquela universidade, onde Fidel Castro se formou como revolucionário e marxista quando frequentava o curso de Direito, recordando com poemas, canções e discursos o antigo chefe de Estado, que morreu aos 90 anos em 25 de novembro de 2016, após uma década afastado do poder.
"Este é o povo de Fidel, a sua pátria e com as ideias continuaremos a defender a bandeira do socialismo", afirmou o presidente da Federação de Estudantes Universitários (FEU), Raúl Alejandro Palmero, durante o discurso central da iniciativa.
Nas palavras do dirigente estudantil, Fidel Castro foi, "sem dúvida", o "líder histórico" de Cuba, mas ainda é hoje "um pai, um professor, um conselheiro sem tamanho, um amigo próximo, uma voz de confiança".
A iniciativa foi encabeçada pelo primeiro vice-presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, de 57 anos, herdeiro designado pelo 'castrismo' para suceder, em fevereiro próximo, na presidência a Raúl Castro, no poder desde 2008, o qual não foi visto publicamente em nenhuma das iniciativas de homenagens ao seu irmão que tiveram lugar em diferentes lugares da ilha.
Hoje realizam-se eleições municipais em todo o país, que marcam precisamente o tiro de partida do processo eleitoral que vai culminar numa nova Assembleia Nacional, o parlamento unicameral cubano, que deverá ratificar o futuro Presidente de Cuba.
"A juventude cubana vai invadir as urnas e demonstrar ao mundo que aqui, sim, há continuidade, que aqui, sim, há Revolução", referiu Raúl Alejandro Palmero sobre as eleições que vão marcar uma mudança geracional no poder, depois de quase 60 anos da era Castro, citado pela agência de notícias espanhola Efe.
Apesar da ausência de Raúl Castro, o seu filho, o coronel Alejandro Castro Espín, que pertence ao círculo de confiança do Presidente e dirige o departamento do Ministério do Interior que controla o serviço de informação e contrainformação do país, marcou presença na homenagem.
Muitos analistas consideram que Alejandro Castro Espín será uma figura influente na sombra quando o seu pai deixar a presidência do país, sendo que já liderou as conversações secretas mantidas com os Estados Unidos antes do anúncio do 'degelo' diplomático entre Havana e Washington.
Além dos discursos em que foi exaltada a figura de Fidel, a homenagem, que também incluiu atuações musicais, teve o seu momento mais emotivo quando o trovador Raúl Torres interpretou, com Sosa e Annie Garcés, o seu tema "Cavalgando com Fidel", que se transformou já num hino, tendo soado incessantemente nos nove dias de luto nacional pela morte do histórico líder tanto na televisão estatal como em cerimónias oficiais de despedida.
Por ocasião da efeméride, a imprensa oficial cubana, na qual não se fala de morte, mas antes do "desaparecimento físico", dedicou no sábado amplo espaço à figura e legado de Fidel Castro.
O diário Granma, órgão oficial do Partido Comunista de Cuba, fez capa com uma fotografia de corpo inteiro de Fidel vestido de verde-oliva com o título "No coração de Cuba", com o jornal a oferecer, no seu interior, uma série de artigos, nomeadamente de Katisuka Blanco, a sua biógrafa oficial, ou do escritor Miguel Barnet.
Outro jornal nacional, o Juventud Rebelde, 'porta-voz' da União de Jovens Comunistas, também trazia na primeira página uma fotografia a preto e branco do rosto de Fidel nos primeiros anos da Revolução.
Em Cuba, continua a respeitar-se o desejo de Fidel de que o seu nome não figurasse em ruas, praças ou edifícios nem que fossem erigidos monumentos em sua honra e memória. No entanto, nas ruas de Cuba, os últimos dias trouxeram um colorido diferente, com bandeiras e inscrições murais que assinalam a efeméride.
Se Raúl Castro concretizar então o anúncio feito em 2013 de deixar a presidência de Cuba, uma nova realidade abrir-se-á na ilha caribenha depois de um período de quase seis décadas de governação dos irmãos Castro, incluindo meio século de Fidel.
O país, mergulhado numa economia que demora a melhorar e sem multipartidarismo, continua à espera de reformas, que uma nova geração de líderes cubanos, caso Raúl Castro deixe o poder, poderá acelerar, numa nação em que se cultiva ainda a apologia de Fidel Castro.
