Incêndios em Portugal: sete mortos, 62 deslocados, dezenas de estradas cortadas e 25 concelhos afetados

Entre as vítimas destacam-se ainda vários feridos graves, cujo número está ainda a ser apurado
Os incêndios que lavram desde domingo em Portugal continental, com especial incidência nas regiões Centro e Norte, já causaram sete mortes, dezenas de feridos e 62 deslocados, afetando 25 municípios, 15 dos quais na região Norte.
As mais recentes vítimas são três bombeiros da corporação de Vila Nova de Oliveirinha, em Tábua, que morreram quando se deslocavam para um incêndio naquele concelho do distrito de Coimbra.
O município de Tábua decretou três dias de luto municipal pela morte dos três bombeiros.
A primeira morte foi um bombeiro vítima de doença súbita, no domingo, quando combatia as chamas em Oliveira de Azeméis, no distrito de Aveiro.
Na segunda-feira, as autoridades anunciaram mais duas mortes no distrito de Aveiro, a de uma pessoa encontrada carbonizada e um óbito por ataque cardíaco.
Na mesma noite, uma idosa que tinha a casa numa zona de fogo em Almeidinha, Mangualde, morreu de doença súbita, segundo fonte do Comando Sub-Regional Viseu Dão Lafões.
Entre as vítimas destacam-se ainda vários feridos graves, cujo número está ainda a ser apurado, segundo o balanço feito às 20:00 de hoje pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC).
Os incêndios afetaram hoje 25 concelhos, 15 dos quais na região Norte do país e 10 na região Centro.
Aveiro foi um dos distritos mais fustigados, com as chamas a lavrar com intensidade nos concelhos de Oliveira de Azeméis, Albergaria-a-Velha, Sever do Vouga e Águeda, mantendo-se este último, às 19:30, como o mais complicado, segundo divulgou o comandante da ANEPC, Mário Silvestre.
Coimbra, com especial incidência no concelho de Tábua, e Viseu, com focos maiores em Nelas e Castro Daire, são outros dos distritos mais afetados pelos fogo.
No distrito do Porto, o incêndio em Oliveira de Azeméis era aquele que às 20:00 mobilizava mais meios, com 518 operacionais e 188 viaturas empenhados no combate às chamas.
No balanço feito às 20:00, o comandante nacional da Proteção Civil, André Fernandes, contabilizou 177 ocorrências ativas nas quais estavam empenhados 6.041 operacionais apoiados por 1.837 veículos. Destas, 30 são consideradas ocorrências significativas que estão a ser combatidas por 3.888 operacionais e 1.208 meios terrestres.
O combate às chamas foi hoje reforçado por seis meios aéreos de França, Espanha e Itália, disponibilizados através do mecanismo de proteção civil europeu.
Os fogos já obrigaram a realojar 62 pessoas, em Águeda foram evacuados dois lares de idosos, em Oliveira de Azeméis um hotel foi evacuado e as reservas canceladas até quinta-feira e, em Oliveira do Hospital, foram evacuadas oito quintas situadas na encosta do rio Mondego devido ao aproximar das chamas do incêndio que teve início em Nelas, no distrito de Viseu, e que alastrou para o distrito de Coimbra.
A sessão de receção aos novos estudantes da Universidade do Porto, prevista para quarta-feira, foi cancelada por respeito às vítimas dos incêndios e também por razões de saúde, anunciou hoje a reitoria, considerando que “a cidade está cheia de fumo e de fagulhas que são um perigo para a saúde pública”.
Devido a esta situação, foi hoje ativado o Plano Distrital de Emergência de Proteção Civil do Porto, juntando-se ao de Aveiro, e encontram-se ativos 10 planos municipais, adiantou no ‘briefing’ o comandante nacional André Fernandes.
Os incêndios, que hoje não afetaram as vias ferroviárias, obrigaram ao corte de várias estradas.
De acordo com a última atualização feita pela GNR, às 22:00 registava-se no distrito de Aveiro o corte total da Autoestrada 25 (A25) entre Albergaria e Reigoso (Viseu), a Estrada Nacional 16 (EN16) entre Cacia e Sever do Vouga e a EN333 entre Talhadas e Águeda.
No distrito de Viseu os cortes incidiam na A25 entre Mangualde e Chãs de Tavares; na A24 entre o nó de Castro Daire Leste e o nó da EN16; na EN228 em Figueira Alva – Fermentel e na EN222 entre Oliveira do Douro e Freigil (Cinfães).
No distrito do Porto, a A43 estava cortada entre Gondomar e a A41 entre Medas e Aguiar de Sousa.
Em Baião registava-se o corte da A11, no sentido Norte /Sul do Marco de Canaveses até à A42; EN221 entre Eiriz e Campelo e EN101 entre Cavalinho e Mesão Frio.
No distrito de Vila Real, o incêndio de Vila Pouca de Aguiar determinou o corte da A24 entre o Nó Fortunho e Nó Vidago; da EN2 entre Carriça e Samardã e da EN103 entre Faiões e Assureiras.
Em Braga foi fechada ao trânsito a EN207-4 entre Gonça e Garfe e a EN210 entre Celorico de Basto e Amarante.
Finalmente, no distrito de Coimbra, foi cortada a EN342, entre Secarias/Côja, no concelho de Arganil.
Durante o dia de hoje chegaram também a estar fechadas as autoestradas A1 e A28, ambas reabertas ao início da noite.
A Polícia Judiciária (PJ) deteve cinco pessoas - três homens e duas mulheres - suspeitos da autoria de incêndios florestais em Cacia (Aveiro); em Refojos de Riba de Ave (Santo Tirso); nos concelhos de Pombal e Alvaiázere (no distrito de Leiria) e em Condeixa-a-Nova (Coimbra).
A PJ também identificou e constituiu arguidos quatro funcionários da Junta de Freguesia da União de Freguesias de Campo e Sobrado, no concelho de Valongo, pela presumível autoria de um incêndio florestal na localidade de Campo, que consumiu cerca de um hectare de mancha florestal.
Em comunicado, a GNR informou ter detido sete homens, entre sábado e a madrugada de hoje, suspeitos do crime de incêndio florestal nas regiões de Leiria, Castelo Branco, Porto e Braga.
Várias personalidades já manifestaram o seu pesar e solidariedade pelas vítimas dos incêndios, entre eles o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente do Parlamento da Madeira, José Manuel Rodrigues, o patriarca de Lisboa, Rui Valério e o presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco.
O Governo declarou situação de calamidade em todos os municípios afetados pelos incêndios nos últimos dias, anunciou o primeiro-ministro, Luís Montenegro, no final de um Conselho de Ministros extraordinário convocado para analisar a situação dos incêndios, numa reunião presidida pelo Presidente da República.
A área ardida em Portugal continental desde domingo ultrapassa os 62 mil hectares, segundo o sistema europeu Copernicus, que indica que nas regiões Norte e Centro, desde o fim de semana, já arderam 47.376 hectares.
Situação mais calma em Nelas, Carregal do Sal e Tábua ainda preocupam
O incêndio que deflagrou na segunda-feira em Nelas, no distrito de Viseu, estava, ao início da noite, mais controlado, com os bombeiros esperançosos que possa ser resolvido durante a noite.
Em declarações à agência Lusa, Guilherme Almeida, comandante dos bombeiros voluntários de Nelas, disse que a situação está “bastante mais calma”.
“Houve algumas reativações quando o vento estava mais evidente, mas agora está tudo mais calmo. Só nos preocupa uma frente do lado de Mangualde, quando o vento rodou. [O fogo] foi daqui para Mangualde, de Mangualde está a voltar para cá, e pode entrar aqui em Nelas numa área que ainda não ardeu e que tem habitações”, explicou.
“Mas até pode vir bater numa zona que já ardeu”, acrescentou.
Segundo Guilherme Almeida, o incêndio de Nelas, que se estendeu a Carregal do Sal, contava às 21:10 de hoje com um total de 315 operacionais apoiados por 88 viaturas, tendo as equipas de combate “exaustas”, após mais de 32 horas de trabalho no terreno.
“Os meios já são escassos, dada a dimensão dos incêndios, e não os conseguimos render como gostaríamos. E depois há mais probabilidade de ocorrerem acidentes e situações mais críticas”, argumentou o comandante.
No entanto, não existindo praticamente vento no município de Nelas e com a temperatura mais baixa, o comandante dos bombeiros disse existir, à partida, na noite de hoje, “uma situação mais favorável para o combate”, manifestando-se “esperançoso” que seja possível dominar as chamas.
Por outro lado, os bombeiros vão tentar consolidar os trabalhos de rescaldo e de vigilância a eventuais reacendimentos, na área atingida pelo incêndio que, segundo dados do sistema europeu Copernicus, consultados pela Lusa, já queimou mais de 5.000 hectares de mato e de floresta em Nelas e Carregal do Sal.
“O combate foi uma estratégia reativa, com prioridade a habitações, bens e pessoas e reativações, ainda assim têm-se conseguido controlar”, vincou Guilherme Almeida.
Já sobre a evacuação de habituações em Nelas, o comandante dos bombeiros disse que a estratégia passou por manter as pessoas seguras nas suas casas, frisando ainda que uma unidade hoteleira de alguma dimensão em Caldas de Felgueiras não chegou a ser evacuada.
Em Carregal do Sal o combate às chamas mantém-se em redor de povoações como Pardieiros, Sobral ou Cabanas de Viriato, entre outras e em toda a orla do rio Mondego virada a Tábua e Oliveira do Hospital, no distrito de Coimbra.
“A situação está longe de estar resolvida, ainda estamos a combater. Não há a lamentar vítimas, não há casas ardidas, mas vamos ter muito trabalho nos próximos dias”, disse à Lusa Filipe Lopes, comandante dos bombeiros voluntários de Carregal do Sal.
Segundo o comandante, nos últimos dois dias o fogo “bem o que bem entendeu e andou por onde quis”, levando os bombeiros “a correr atrás dele” e a concentrarem esforços na defesa de pessoas e bens, tendo as chamas e o vento forte por inimigos.
“Costumo dizer que nunca pensava viver uma situação idêntica duas vezes na minha vida [após os incêndios de outubro de 2017] e voltou a acontecer”, lamentou.
Na manhã de hoje o incêndio chegou a Tábua, após ter galgado o rio Mondego vindo de Carregal do Sal, tendo provocado a morte de três bombeiros – duas mulheres e um homem – da corporação de Vila Nova de Oliveirinha, quando combatiam as chamas.
Ricardo Cruz, presidente do município de Tábua, disse à Lusa que a situação mais preocupante estava, ao início da noite de hoje, junto à localidade de Vila de Mato, na freguesia de Midões, um dos dois locais onde as chamas irromperam vindas da margem direita do Mondego.
Pelas 21:20 o incêndio em Tábua estava a ser combatido por 250 bombeiros apoiados por 83 viaturas.
Em Oliveira do Hospital, duas projeções provenientes dos incêndios de Nelas e de Carregal do Sal provocaram ignições com alguma dimensão, durante a tarde de hoje, mas foram resolvidas pelos bombeiros, cuja estratégia passou por antecipar eventuais problemas.
“Estivemos a fazer prevenção todo o dia, a acautelar projeções. No final do dia houve duas projeções, uma a norte e outra a sul do incêndio de Nelas e ambas foram debeladas. A projeção a sul com mais dificuldade, a norte, na povoação de Seixas, foi rapidamente debelada”, disse à Lusa o comandante de operações de socorro António Pinto, comandante dos bombeiros de Lagares da Beira.
230 bombeiros espanhóis chegam quarta-feira a Portugal
Um total de 230 bombeiros espanhóis chegam às 03:00 de quarta-feira a Portugal para ajudar no combate aos incêndios florestais, disse hoje à Lusa fonte oficial do Ministério da Administração Interna (MAI).
O MAI avançou também que dois aviões Canadair de Marrocos chegam ao país na quarta-feira de manhã.
Os 230 bombeiros espanhóis pertencem à Unidade Militar de Emergências (UME).
A fonte precisou que esta ajuda resultou de um pedido feito pela ministra da Administração Interna, Margarida Blasco, aos seus homólogos de Espanha e Marrocos ao abrigo dos acordos bilaterais existentes entre Portugal e aqueles dois países.
Sobre os locais onde os 230 bombeiros espanhóis e os dois aviões Canadair vão atuar, a mesma fonte disse que se trata de uma questão operacional e serão mobilizados para os sítios onde seja necessário mais apoio.
Ao abrigo do Mecanismo Europeu de Proteção Civil seis aviões Canadair de Espanha, França e Itália estão já a operar em Portugal.
Sete pessoas morreram e pelo menos 40 ficaram feridas, duas com gravidade, nos incêndios que atingem desde domingo as regiões norte e centro do país, nos distritos de Aveiro, Porto, Vila Real e Viseu, e que destruíram dezenas de casas e obrigaram a cortar estradas e autoestradas, como a A1, A25 e A13.
A área ardida em Portugal continental desde domingo ultrapassa os 62 mil hectares, segundo o sistema europeu Copernicus, que mostra que nas regiões Norte e Centro, atingidas pelos incêndios desde o fim de semana, já arderam 47.376 hectares.
O Governo declarou hoje situação de calamidade, nível máximo de intervenção previsto na Lei de Bases da Proteção Civil, em todos os municípios afetados pelos incêndios nos últimos dias.

