29º título nacional do Porto: as contas à moda de um campeão competente

29º título nacional do Porto: as contas à moda de um campeão competente

Decidido o título (mais cedo do que se pensaria há umas semanas) a favor do Porto, para o Números Redondos a hora é de fazer uma primeira análise dos números mais importantes do novo campeão, na mais atípica temporada futebolística de sempre.

Esta quarta-feira, no Dragão, no jogo perante o Sporting, que lhe garantiu o título nacional (o segundo em três épocas), o Porto voltou a ser pouco brilhante, mas muito competente. E para que o campeonato fosse definitivamente conquistado foi fundamental um golo de bola parada (o primeiro frente da noite, de Danilo), afinal de contas a maior especialidade ofensiva de uma equipa acima de tudo muito consistente e intensa.

O campeão da liga mais estranha de sempre

Este foi, só por si, o campeonato nacional mais atípico em mais de 85 anos de história da prova, devido à pandemia da COVID19: com uma paragem longuíssima, ausência de espetadores nos estádios depois do reatamento, jogos em junho e julho.

Mas este campeonato não foi apenas estranho por ser dividido em duas fases temporais, com 24 jornadas numa primeira fase e 10 numa segunda, com quase 3 meses de paragem entre as duas (mais tempo do que aquele que costuma separar uma época da seguinte).

Mas esta liga foi igualmente estranha porque se assistiu à maior débacle de um candidato ao título de que há memória, pelo menos numa segunda volta: a protagonizada pelo Benfica, que dominara quase por completo a primeira volta da prova.

No entanto, será pouco rigoroso ligar diretamente os dois eventos, uma vez que quando aconteceu a paragem no campeonato já o campeão Benfica desperdiçara os 7 pontos de avanço que tinha sobre o segundo, o Porto, passando a estar 1 ponto atrás da equipa de Sérgio Conceição.

Note-se que na época anterior, o Porto chegara a ter também 7 pontos de avanço sobre o Benfica, mas a realidade é que no início da segunda volta essa vantagem era de 5 pontos, sendo que depois os portistas cederam 9 pontos em 17 jogos. Já no presente campeonato, o Benfica leva já 22 pontos perdidos em 15 partidas da segunda volta.

Uma história quase inacreditável

Relembremos o cenário à entrada da jornada 20 da liga portuguesa 2019/20: o Benfica deslocava-se ao Dragão com 7 pontos de avanço sobre o Porto, segundo classificado.

A águia chegava a este encontro com 18 vitórias em 19 jogos do campeonato (apenas perdera 3 pontos, com o Porto, no estádio da Luz). Mas ainda mais significativo, os encarnados traziam também 18 vitórias nos 19 últimos jogos da liga anterior (somente um empate, na Luz, com o Belenenses SAD), desde que Bruno Lage pegara na equipa.

Ninguém se arriscaria a dizer que tudo iria mudar a partir desse dia 8 de fevereiro de 2020. Mas mudou, e mudou radicalmente, para não dizer mais.

Em 13 jogos realizados (5 antes da paragem devido à pandemia e 8 depois da retoma), o Benfica somou 17 pontos em 39 possíveis (depois dos tais 54 pontos em 57, nos primeiros 19 jogos do campeonato). De um aproveitamento pontual de 95% passou para 43%.

Já o Porto, nesses 13 jogos, conseguiu 32 pontos, mais 15 do que o Benfica. Como perdeu 7 pontos (2 empates e 1 derrota), sobraram 8 pontos de vantagem sobre os encarnados até ao fim da jornada 32.

Os pontos do Porto

Até ao momento - a 2 jogos de terminar o campeonato - o Porto soma um total de 79 pontos em 32 jogos, o que corresponde a uma média de 2.47 por jogo.

Um desempenho que fica abaixo do que tem sido normal nos últimos campeões. Estes, desde 2015, têm, por norma, conseguido médias pontuais muito altas: por exemplo na época passada o Benfica terminou com 2.55 e na anterior o Porto acabou com 2.58.

Aliás, é já uma certeza que o Porto campeão 2019/20 não conseguirá ultrapassar o desempenho pontual da época passada, quando foi segundo classificado. No máximo, pode chegar aos 85 pontos no presente campeonato, exatamente o número conquistado na época passada.

Apesar disso, a média de 2,47 pontos conquistados por jogo está longe de ser baixa. Por exemplo, no quadro geral do século XXI, nos 20 campeonatos já disputados, o campeão terminou com uma média inferior à atual média do Porto em 9 ocasiões, incluindo na liga 2016/17 (cujo vencedor foi o Benfica). Os outros 8 casos sucederam todos na década de 2000.

Destaque ainda para a importância do fator-casa na conquista portista: apenas 5 pontos perdidos no Dragão em 16 jogos, enquanto o Benfica perdeu 13 pontos na Luz no mesmo número de partidas.

O campeão da bola parada

Também não é exuberante o registo de golos marcados pelo campeão Porto até ao momento: uma média de 2.1 golos por jogo, bem longe por exemplo do recorde do século XXI batido na época passada pelo Benfica (com uma média 3 golos por jogo, ultrapassando o total de 100 golos).

No entanto, mais uma vez o desempenho goleador portista da atual liga fica à frente de 8 campeões do século XXI, de novo quase sempre relativos a provas da década de 2000.

O Porto não marcou muitos golos, mas mostrou uma competência quase inigualável nos lances de bola parada ofensiva. É realmente impressionante conseguir quase tantos golos de bola parada como de bola corrida: dos 67 golos apontados até ao final da 32ª jornada, 31 surgiram na sequência de lances de bola parada, com destaque para os 13 obtidos na sequência de pontapés de canto.

Simultaneamente, e também como resultado desta capacidade anormal de transformar bolas paradas em golo, os defesas portistas marcaram por 19 vezes: 10 golos para Alex Telles (7 penáltis), 5 para Marcano, 2 para Mbemba, 1 para Manafá e 1 para Pepe. Alex Telles é mesmo o melhor marcador da equipa a par de Marega.

A maior virtude esteve na consistência defensiva

Confirmando a ideia de que os campeões costumam ser quem melhor defende e menos golos sofre, este Porto de Sérgio Conceição apresenta até ao momento a boa média de 0.6 golos sofridos por jogo.

Uma marca que deixa para trás 10 campeões deste século e por exemplo bate claramente a do Benfica campeão da época passada (0.91 golos concedidos por jogo).

A boa performance em termos de golos sofridos explica-se facilmente: o Porto é a equipa que permite menos ocasiões de golo aos adversários (uma média de 2.3 por jogo, contra, por exemplo, 2.9 do Benfica).

Os portistas são também os que menos remates concedem em média por encontro (7.6), longe do segundo melhor neste particular, o Benfica (9.2), o mesmo acontecendo em termos de remates permitidos no alvo e na grande área.

A equipa mais competitiva e intensa

O Porto é a equipa com mais posse de bola (cerca de 57% em média por jogo), seguido do Sporting (56%). No entanto, os portistas não se destacam no número de passes efetuados em média por jogo (475), surgindo atrás do Benfica (512), Braga (490), Rio Ave (487) e Sporting (485).

Este aparente paradoxo confirma aquela que tem sido apontada como uma das armas mais importantes do Porto de Sérgio Conceição: a capacidade de reagir rapidamente à perda de bola, recuperando muitas bolas perdidas.

Além disso, o Porto aparece como a equipa com mais dribles por jogo (14.4) e demonstra a sua capacidade competitiva também nos duelos aéreos, surgindo como a mais forte neste particular entre equipas do topo da classificação (19.2 duelos aéreos ganhos por partida).