Especial 36.º aniversário de O JOGO: histórias de um ano de resistência

Especial 36.º aniversário de O JOGO: histórias de um ano de resistência

Os 36 anos de O JOGO celebram-se a 22 de fevereiro de 2021, quase um ano depois do pontapé de saída num insólito desafio de adaptação imposto pela pandemia aqui contado na primeira pessoa por quem vive o desporto. Atletas, treinadores, árbitros, trabalhadores de estruturas de apoio dão corpo a um mosaico em que nos revemos no medo, na perda, na luta, na esperança e numa certeza: estamos nisto juntos.

"Noto muita solidão nos idosos que vivem sozinhos"

Cristina Romão Cardoso
52 anos
Rececionista no Complexo Desportivo Paulo Pinto, em São João da Madeira

"Como o confinamento ditou o fecho das instalações desportivas, o meu trabalho no complexo desportivo tem sido ligar e acompanhar os nossos utentes seniores, frequentadores da piscina. No primeiro confinamento, notei um pavor em relação à pandemia e à falta de conhecimento associada à doença. Neste, noto que as pessoas estão saturadas de estar em casa e o que mais me perguntam é quando abrem as piscinas, pois, para além do exercício físico, há enormes benefícios mentais. Faz falta aos idosos.

Chorei com alguns telefonemas, no primeiro confinamento, especialmente de pessoas que tinham familiares infetados e desabafavam comigo. Algumas nem sabiam que a autarquia dispunha de serviços para lhes fazer as compras, ir à farmácia, e eu transmitia o que têm ao dispor. Noto muita solidão nos idosos que vivem sozinhos. No início, as pessoas não entendiam o porquê de estarem fechadas. Agora, não sinto esse pavor. O número de recuperados e o aparecimento das vacinas trouxeram alguma esperança. Atualmente, não consigo fazer tantas chamadas porque as pessoas têm mais necessidade de falar. Sentem uma falta enorme de sair de casa, do exercício físico, e julgo que há um desespero maior nos utentes que vivem em apartamentos e não têm como sair à rua a não ser para fazer compras e pouco mais."

"Fiquei com mais tempo para treinar"

António Pinheiro
41 anos
Praticante de trail e corrida

"Mudei os hábitos, treino mais em casa, tenho a sorte de ter uma elíptica. Substituí os treinos longos por outros mais focalizados, aproveitando as escadas de casa e as elevações da zona onde resido. Curiosamente, fiquei com mais tempo para treinar. Sem a necessidade de sair de casa para trabalhar poupa-se muito tempo. Conseguia treinar quase todos os dias, o que antes da pandemia era impensável.

O aspeto mais negativo foi a suspensão da competição. As provas eram pretexto para um fim de semana fora com a família, para fazer um pouco de turismo cá dentro, experimentar a gastronomia dos sítios onde ia competir, espairecer do dia-a-dia de trabalho. Outra coisa que me deixa mais triste é abdicar dos treinos em grupo, ter de fazer tudo sozinho. Um colega convidou-me para ir treinar, mas não fui capaz de aceitar."

"Gostava mesmo de fazer aquilo"

Marisa Caldeira
32 anos
Funcionária de catering

"Trabalhava no serviço de catering do Estádio do Dragão e, devido à pandemia, deixei de ter esse trabalho, e não foi apenas no futebol, mas em todos os serviços que fazia, como casamentos, por exemplo. Deixei de estar ligada ao catering, simplesmente. Desde que tudo isto começou, só houve mesmo uma exceção, no jogo do FC Porto com o Olympiacos. O impacto não foi tanto a nível financeiro, porque para mim o catering era um hobby, servia para espairecer e desanuviar. Ali, não tinha preocupações e sabia que, de 15 em 15 dias, ou até com mais frequência, tinha ali uma fuga e nunca estava stressada. Gostava mesmo de fazer aquilo, lidava com muitas pessoas e aprendia com elas. Mas, claro que tinha vários colegas que ganhavam a vida através do catering e que estão a sofrer muito com toda esta situação."

"A DGS errou e afetou-nos"

Patrícia Esparteiro
26 anos
Karateca do Braga e do projeto olímpico Tóquio"2020

"Mudei para o Braga, mas tenho um clube meu onde dou aulas, o Wolfpack Karate Team, no Padrão da Légua, que também é um centro de estudos e teve de fechar temporariamente. Passei para o regime online. Na quarentena passada, trouxe o tatami para casa e montei-o na sala. Pousava o telemóvel no chão, gravava o treino inteiro e enviava os vídeos para o selecionador. Fazíamos a análise de tudo pelo Zoom, chegávamos a passar ali três horas. Deu para treinar pequenas coisas que fazem falta e para as quais não há tempo com muitas competições. Depois, retomámos os treinos presenciais. Tentámos cumprir o planeamento com vista à qualificação dos Jogos Olímpicos.

Quando não vou a Braga treinar com o selecionador, treino no Porto, onde vivo, em casa. O meu mini dojo continua a ser utilizado. Em dezembro, tivemos a única competição até agora, estava super motivada e vimos que o trabalho resultou. Íamos ter outra prova, em janeiro, e uma etapa do circuito mundial em Portugal, este mês, mas foi tudo adiado.Já começo a ver tudo a acontecer de novo e para a motivação não é bom. Em kata, não precisávamos de ser obrigatoriamente testados, devíamos ser considerados de baixo risco, porque somos [não há qualquer contacto entre atletas]. A DGS errou nisso e afetou-nos em termos de competição. Neste tempo todo, houve coisas boas: a oportunidade do Braga caiu do céu e, recentemente, ganhei um patrocínio do Montepio."

"A pandemia tornou-se o nosso jogo"

Vanessa Rodrigues
33 anos
Atleta do AVC Famalicão, médica e delegada de Saúde na ARS Norte

"Costumava dizer que era atleta de profissão e médica nos tempos livres, mas, neste último ano, o desporto passou para um plano muito diferente. Quando os campeonatos pararam, parei a atividade física. Era trabalho de manhã à noite, e no dia a seguir igual. Sem treinos, sem amigos, sem família.

Quando recomeçámos, em agosto, foi complicado. Perdi imensa massa muscular e peso e não me estava a permitir praticar. Não me sentia nesse direito. Havia tanta coisa para resolver. Depois, realmente, achei que era necessário para a minha saúde mental. Obriguei-me a treinar, assumi o compromisso com a equipa, sou capitã e há sempre o exemplo a dar.

Tenho acompanhamento de fisioterapia desportiva, o que me ajuda física e mentalmente como atleta e no meu dia-a-dia como médica. Lidamos com pessoas infetadas, não presencialmente, mas por contacto telefónico e noutro tipo de plataformas.

É difícil desligar de tanta tristeza. Sinto-me desgastada, não pelo volume de trabalho, mas porque esta doença destrói muitas famílias.

Como trabalhamos em rede, a pandemia aproximou muito os médicos de saúde pública da região Norte. Trabalhamos em equipa como no desporto. Neste momento, a pandemia é o nosso jogo e temos de ganhar, ponto a ponto."

"Os jogadores não querem perder o trabalho por causa do futebol"

Tiago Leite
34 anos
Treinador da Ovarense (futebol)

"Ovar foi o primeiro concelho com cerca sanitária. Sentimo-nos no olho do furacão, sem saber o que fazer. Estávamos a meio de uma época fantástica e queríamos dar a Taça de Aveiro à cidade, sabíamos que éramos capazes, mas cancelaram a prova e foi difícil gerir as expectativas.

O arranque da nova época tem sido caótico. A Ovarense estava escalada para disputar o Campeonato de Portugal, mas soubemos na última semana que não seríamos promovidos. Depois do sorteio, três equipas desistiram, foi muito mau. Tivemos jogos adiados, alguns no próprio dia, e a última paragem da competição foi a grande machadada. Os jogadores quiseram parar de vez. Se retomar, espero que não volte a parar, seria macabro.

Há ainda que ter em conta que, no contexto amador, os jogadores têm a sua atividade profissional. É difícil a entidade patronal aceitar que fiquem em isolamento por causa do futebol. Há medo de voltar a jogar, testar positivo e perder o trabalho.

Financeiramente, a covid-19 afetou muito a Ovarense. A Direção tem feito um esforço tremendo para não falhar. Para o futuro, não tenho expectativas, mas uma esperança: que o futebol distrital volte de vez e que tenha adeptos nas bancadas. Sem eles, não faz qualquer sentido."

"Já ajudámos cerca de 700 pessoas, ex-internacionais incluídos"

Paulinho
28 anos
Membro fundador da associação "Do Futebol para a Vida"

"O movimento "Do Futebol para a Vida" começou a 14 de abril, pouco depois de o Campeonato de Portugal ter acabado. Eu, o Ibraime Cassamá e o Hugo Machado, todos do CdP, percebemos que havia jogadores a passar dificuldades na equipa do Machado [Loures]. Num só dia, juntámos 600 euros, pegámos nos nossos carros e fomos ajudá-los. Passado quase um ano, ajudámos cerca de 700 pessoas, entre jogadores, treinadores, roupeiros, ex-internacionais portugueses e até pessoas sem ligação ao futebol.

Pagámos rendas de casa, contas da luz, água ou gás e fornecemos alimentação. Nestes meses, gastámos cerca de 33 mil euros. Entretanto, começámos a construir a nossa casa do jogador. Servirá para acolher, temporariamente, os que ficam sem clube. Será uma habitação com oito quartos e 16 camas. O nosso movimento teve a ajuda de inúmeros futebolistas, como Bruno Fernandes, Rui Fonte, Wilson Eduardo, entre muitos outros, e o que mais nos conforta é o agradecimento que recebemos todos os dias das pessoas.Daqui a um ano, gostava que o "Do Futebol para a Vida" não tivesse quase nada para fazer. Era sinal de que a pandemia tinha passado. Queria que não tivéssemos tanto trabalho, mas sei que isso será difícil."

"Era agradável correr nas ruas despidas"

Paulo Moreira
51 anos
Praticante de atletismo e analista de sistemas

"Para fazer a maratona são precisos muitos treinos de longa distância. São bastantes horas e é bem mais agradável fazê-los com amigos. Essa foi a violência do primeiro confinamento, mas era muito agradável correr nas ruas completamente despidas de carros. Notou-se perfeitamente a alteração ao nível da qualidade do ar.

Depois, vieram as corridas virtuais, mas não é a mesma coisa. Ter três dias para fazer uma prova num sítio que já não está fechado - as provas têm isso de bom, fecham as cidades, corre-se à vontade - é como fazer um treino, não faz sentido algum.

Neste último confinamento, continuo a correr por Leça da Palmeira, mas num grupo muito restrito, duas, três pessoas, com distanciamento entre nós, com todas as regras de segurança. Faz-nos falta, realmente, fazer as provas, estar com as pessoas. Sentimos falta disso.

A pandemia veio acelerar mudanças, sobretudo, a nível tecnológico, e o ser humano tem uma capacidade de adaptação incrível. Aqui em Leixões, instalámos simuladores náuticos de navio e de pórticos terrestres; foi até uma oportunidade, porque os edifícios estavam fechados, pudemos preparar os sistemas todos para, quando isto passar, podermos dar formação."

"Não podemos deixar cair os clubes"

Mário Correia
39 anos
Técnico superior na Junta de Freguesia de Alcântara, professor de Educação Física

"Fomos fazendo o programa Escola Mais, que consiste na atividade desportiva nas escolas; no caso, a do 1.º ciclo, ciclismo e natação. Mantivemos o programa online durante o confinamento, enviávamos vídeos para os miúdos fazerem com os pais. Sempre com caráter lúdico, no sentido de evitar pressões.

As crianças? Regrediu-se nalgumas coisas, a disponibilidade não era a mesma. Havia entusiasmo, mas corriam um bocadinho e cansavam-se. Havia mais um ou outro a desistir, sobretudo entre os mais velhos. Tivemos de baixar as expectativas para que atingissem metas. Quanto aos clubes da freguesia, recomeçaram em setembro, mas os mais novos ficaram sem treinos. Criámos um gabinete para formular pedidos de apoio ao IPDJ e à Câmara Municipal de Lisboa (CML). Todos os anos recebem da autarquia um apoio consoante os praticantes, mas agora há um suplementar. A diversidade dos clubes é grande, aqui. São uma rede de suporte. O desporto é um pilar da ação social. Não os podemos deixar cair."

"Esta temporada vai acabar sem adeptos"

Frederico Correia
33 anos
Gestor da MNC Transportes

"Os meus autocarros que faziam serviços ligados ao desporto estão parados desde março. Trabalhávamos, essencialmente, com adeptos da Sanjoanense e Feirense, e também com o basquetebol da Oliveirense. O desporto tinha um peso de 40 por cento na faturação da empresa. Se reduzirmos a análise ao fim de semana, representava 60 por cento das nossas saídas. De março a dezembro, perdemos mais de 20 mil euros.

Temos a possibilidade de realizar transportes de equipas, mas não tenho pedidos desde novembro. Na altura, tive de enviar um autocarro de 51 lugares para um serviço que, antes, era feito com um veículo de 28 lugares, para respeitar as normas de distanciamento social. O serviço sai mais caro ao comprador, requer mais despesa à empresa. Futuro? Quem dependia do transporte de adeptos, se não tem os veículos pagos, corre o sério risco de desaparecer. Para mim, esta temporada vai acabar sem adeptos."

"O clube cumpriu e deu-nos toda a ajuda"

Daniel Rodriguez
26 anos
Futebolista do Benfica e Castelo Branco

"Sou natural da Colômbia e não vejo a minha família há dois anos. Tinha passagem comprada para ir visitá-los, no ano passado, mas a pandemia cancelou as viagens e tive de ficar por Portugal. O meu avô faleceu, este mês, vítima de covid-19, e não pude despedir-me dele. Na mesma situação estão quase todos os estrangeiros no Benfica e Castelo Branco. No entanto, nem tudo foi mau. Tal como o meu empresário, Nuno Correia, o meu clube, apesar de pertencer a um campeonato amador e de ter visto a temporada terminar em março, com todos os prejuízos que isso implicou, não nos faltou com nada. Cumpriu com todos os vencimentos e deu toda a ajuda necessária a quem ficou sozinho em Portugal. E em 2021 tenho esperança de, finalmente, poder estar com a minha família."

"Na primeira vaga, treinei tanto que até melhorei a condição física"

Pedro Bártolo
29 anos
Atleta e treinador de basquetebol adaptado

"A 1.ª divisão do basquetebol em cadeira de rodas parou em março, até ao fim da época. O receio de atletas e equipas motivou agora nova paragem, mas contamos prosseguir no mês que vem.

Os meses de paragem foram extremamente desafiantes. Não é em qualquer sítio que se pode jogar com uma cadeira de basquetebol, os campos ao ar livre estavam interditos e alguns atletas requerem auxílio próximo nos treinos físicos online. Encontrámos uma fórmula para que, pelo menos duas vezes por semana, nos mantivéssemos ativos.

Na primeira vaga, treinei tanto que até melhorei a condição física. Não havia hipótese de trabalho de pavilhão. Desatei a correr em redor do prédio onde moro, a subir e descer rampas e a usufruir como nunca do imenso material de treino que tenho em casa.

Desesperante foi a ausência de competição. Desde março, fiz quatro jogos oficiais. Isto, para quem foi profissional ou semi-profissional nos últimos sete anos, é devastador. E para os meus atletas se manterem motivados também não foi fácil. Esta vaga está a ser mais difícil de digerir. Até eu, que me considero muito resistente e vejo oportunidades em tudo, começo a vacilar ao não ver no horizonte um regresso à normalidade do calendário competitivo."

"Muita gente desligou-se da arbitragem"

Fábio Miranda
35 anos
Árbitro da AF Aveiro

"O último jogo que apitei foi em março, um Paivense-Ovarense. A partir daí, acabou tudo e sinto-me como numa ressaca. Sinto a falta dos jogos e de apitar. Para os jogadores é emocionante jogar e para nós é emocionante tomar decisões. Estávamos habituados a ter, no mínimo, dois treinos por semana e formações teóricas. Tínhamos pouco tempo livre e, de um momento para o outro, ficou um vazio.

No meu caso, houve um lado positivo. Fui pai, pude acompanhar a gravidez e estou mais presente. Para a maior parte dos meus colegas, faz diferença a nível económico. Houve gente a passar dificuldades. A APAF e a FPF ajudaram alguns árbitros que viviam exclusivamente da arbitragem.

O maior problema, sobretudo neste segundo confinamento, é que, apesar de continuarem os treinos virtuais e as formações, muita gente já se desligou. Antes, podiam inscrever-se 200 pessoas nas formações e ao final do dia já não havia vagas. Agora, estão abertas há mais de uma semana e nem chegámos aos 100. Já para não falar do número de árbitros formados por ano, que rondava os 50 e agora não há novos árbitros. Quando o futebol retomar, deixará de haver assistentes e árbitros na quantidade e qualidade exigidas."

"Em 60 treinos de sub-13 nunca ninguém faltou"

Viti
38 anos
Treinador dos sub-13 e sub-19 do Valongo (hóquei em patins)

"Quando desconfinámos, começámos com três treinos semanais que exigiram criatividade para os deixar felizes, porque as expectativas de regresso à competição foram sendo adiadas mês a mês e isso causa frustração. Falo dos sub-13, porque os sub-19 competiram no campeonato sub-23 e sempre lhes disse que eram uns privilegiados. Dedicaram-se de corpo e alma e foram ganhando os jogos quase todos. No Valongo, não tivemos qualquer desistência, talvez por ser uma cidade de hóquei e todos terem uma ligação forte ao clube. As crianças têm uma capacidade de adaptação impressionante, só ir treinar já é uma felicidade tremenda. Posso dizer que, em 60 treinos de sub-13, nunca ninguém faltou. Agora que confinámos de novo, voltámos aos vídeos, à análise de jogos da I Divisão, aos treinos em casa. Também têm tido contacto, por Zoom, com atletas de renome mundial e deliram quando ouvem as histórias de superação de Hélder Nunes ou André Girão, Rafa ou Henrique Magalhães. Não sabemos se haverá competição, mas se só for possível treinar, já ficarão contentes, e se puder apenas fazer-se jogos amigáveis, daqui a uns meses, será espetacular."

"Pavilhão não parava das oito à meia-noite"

Paulo Freixo
47 anos
Técnico superior de Desporto na Câmara Municipal de Coimbra

"No Pavilhão Municipal Multidesportos Mário Mexia, em Coimbra, até março do ano passado tínhamos uma utilização das oito da manhã até à meia-noite, de segunda a sexta-feira. Começávamos com aulas de educação física, depois, treinos das mais diversas modalidades dos clubes locais.

Com o aparecimento da covid-19, só treinam as equipas permitidas pela legislação em vigor: a ginástica rítmica do Centro Norton de Matos, o basquetebol sénior masculino da Académica e o sénior feminino do Olivais.

Ao fim de semana, chegávamos a ter quatro a cinco jogos por dia e, pontualmente, recebíamos grandes eventos. Neste momento, só temos jogos da Liga de Basquetebol, de duas em duas semanas.

Na pandemia, o pavilhão foi usado para as eleições presidenciais, por ser um espaço amplo e permitir o distanciamento. Também receberá o plano de vacinação. Tudo isto é diferente da rotina a que estávamos habituados. Paralelamente, sou treinador de futebol há muitos anos e o que se passou foi completamente atípico. No ano passado, estava no Eirense, parámos os treinos em março e nunca mais os reiniciamos. Esta época, assumi os sub-19 do Condeixa. Começámos em agosto, de forma limitada, e estamos parados desde janeiro. É prejudicial, sobretudo para os miúdos, sentem falta do treino regular. Não sabemos que efeito isto terá neles."

"Deram tudo e nem foi preciso pedir"

Marta Leão
35 anos
Gestora de eventos responsável pela Casa dos Atletas da Cidade do Futebol (FPF)

"Antes de entrar na equipa da Cidade do Futebol, para tratar da Casa dos Atletas como gestora de eventos, tive um problema oncológico, pela segunda vez. Foi diagnosticado em maio de 2019. Fiquei em casa até ao início do ano passado. Voltei, fui para a nova equipa e fomos para casa em março. Tínhamos a Casa dos Atletas para inaugurar daí a uns meses; acabou a correr lindamente e teve os primeiros clientes em agosto, a Seleção A. Houve vários estágios de seleções e, em janeiro, o jogo mudou completamente. Deixou de ser uma Casa dos Atletas a receber seleções, uma coisa espetacular, para ser um hospital de campanha e aquelas pessoas que fazem um trabalho invisível, sem o qual a Cidade do Futebol não funcionava, não deram um passo atrás. De repente, estavam-se a alistar para a guerra. Deram tudo e nem foi preciso pedir. Não se trata só do trabalho, há o risco associado. Um exemplo: a nossa governanta tem ficado a dormir lá, para não pôr em risco a família, e contou à minha chefe, emocionadíssima, que nunca tinha sido tão feliz, em tantos anos de trabalho; que isto era uma missão e estava a adorar cumpri-la.

Os pacientes que lá estão, apesar das circunstâncias, tiveram ao menos esse calor, boas condições, boa comida. Houve uma senhora idosa que, ao telefone, comentava com os netos: "Estou a dormir no quarto do Ronaldo".

Esses são os relatos que me chegam. Devido ao problema oncológico, voltei para casa. Na retaguarda, fomos 70 a inscrever-nos para fazer inquéritos epidemiológicos, ajudar numa pequeníssima parte do processo burocrático que há a seguir a um teste positivo de covid-19. Temos aqui pessoas do departamento jurídico, team-managers, técnicos de equipamentos, todos pegam no telefone. Acabamos por falar um bocadinho com as pessoas e, se há famílias em que estão todos bem, a nível de saúde, de condições sociais e económicas, também deparamos com histórias bastante complicadas. Esses telefonemas são muito duros.
No meio disto tudo, é gratificante saber que podemos ajudar. Enquanto Federação e cidadãos, é o mínimo que podíamos fazer pelo país. Acho que todos nos deitamos mais felizes por isso e só fazemos uma migalha: eu estou em casa, com comida, é ótimo. Mas, quem está a dar a corpo ao manifesto, seja na Casa dos Atletas, nos hospitais, sejam bombeiros ou operadores de caixa de supermercado... Isso, sim, é um trabalho muito mais complicado."

"Só ao 38.º dia o teste deu negativo"

Pedro Solha
39 anos
Jogador de andebol do Belenenses

"Começou tudo em finais de agosto, quando fomos jogar à Eslovénia, para a Liga Europeia. Por precaução, no regresso fiz o teste e deu positivo. Fi-lo através do clube, como toda a gente. Fui para casa e só ao 38.º dia, finalmente, deu negativo.

Estar em casa foi o pior de tudo. Não apanhei a fase em que, ao cabo de dez dias assintomático se pode sair, mas o Belenenses só nos queria a treinar com testes negativos. As duas primeiras semanas passei bem, era uma coisa nova, mas, quando comecei a dar positivo atrás de positivo, custou muito. Só saía para fazer o teste. Senti a saturação de não poder fazer nada, mas, ainda assim, treinava todos os dias em casa. O único sintoma que tive foi a perda de olfato e alguma tosse, mas muito esporádica. Quando deu negativo foi alívio, alegria. Poder sair para ir às compras foi uma sensação de liberdade incrível. Aconselho a todos os que podem fazê-lo que vão dar um passeio, em total segurança. Percebi que isso tem um valor inestimável. E eu sempre fui extremamente cuidadoso, andava sempre de máscara, álcool gel no bolso, no carro, em casa, em todo o lado, e mesmo assim a covid tocou-me."

"Temos uma boa bancada virtual"

Leonel Salgueiro
41 anos
Diretor técnico da Federação Portuguesa de Voleibol

"Há uns anos, era impensável as pessoas estarem em casa e poderem ver os jogos todos em direto. As transmissões em "live streaming" eram um projeto que já tínhamos em andamento, em parceria com uma empresa. No caso da I Divisão masculina, concretizou-se antes da pandemia, mas temos consciência de que ela veio ajudar a acelerar o processo para outras competições. Exige mais dos clubes, têm de estar mais organizados, mas ajuda a promover a modalidade e tem benefícios para toda a gente.

Este ano, como não pode haver público nos pavilhões, a recetividade tem sido muito boa e conseguiu-se ultrapassar o facto de não se poder ir aos jogos. Há fins de semana em que temos 75 mil visualizações, o que já é um número grande para as modalidades ditas amadoras. Temos uma boa bancada virtual."

"Estava a ser a minha melhor época e decidi não voltar"

Pedro Jorge Silva
22 anos
Barreirista do Maia AC

"Estive oito anos no atletismo, desde 2012, depois de uns testes de velocidade e saltos na minha escola. Esta última estava a ser a minha melhor época, com recordes pessoais sempre que ia à pista, e até consegui uma medalha de bronze nos 60 metros barreiras em pista coberta para sub-23. Já tinha cinco pódios nacionais com as estafetas do clube, mas era o meu primeiro individual. E depois... veio o confinamento. Só conseguia fazer o reforço físico e umas corridinhas. Para um atleta de 60, 110 e 400 barreiras que levava o atletismo a sério, como eu, faltava o apoio do grupo de treino, o estar com o Nuno Gonçalves, meu treinador.

Trabalho desde os 18 anos, na manutenção de elevadores, comecei a habituar-me ao descanso. Percebi que trabalhar das nove às seis e treinar das 18h30 às 20h30, com provas aos fins de semana, não me permitia descansar. Quando a época começou, informei o clube de que não voltaria. Hoje, não sei. O atletismo faz parte da minha vida. Admito, um dia, voltar. Fico com saudades quando vejo a transmissão dos Nacionais, acabo a olhar para o meu placard de medalhas..."

"Os Jogos foram adiados, mas a Margarida não"

Fernando Pimenta
31 anos
Canoísta do Benfica

"Em janeiro do ano passado, estava em Sevilha, como agora, e já se falava da covid-19. Depois, tivemos um estágio na Colômbia e, quando viemos, notámos uma diminuição do número de pessoas no Aeroporto em Madrid. Já tinha surgido o primeiro caso em Portugal. Chegámos a 8 de março e, passados uns dias, entrámos em confinamento. Até sair o adiamento dos Jogos, ainda demorou bastante e não podíamos parar. Estivemos isolados a trabalhar no Alentejo, numa pequena vila, uma zona mais resguardada.

O adiamento dos Jogos foi um choque muito grande, fui-me um pouco abaixo. Era um objetivo e estava a estipular que este ano de 2021 seria um pouco mais tranquilo, a competir, mas sem passar tanto tempo fora. Tivemos de nos readaptar, procurar motivação para continuar a trabalhar. Na única competição internacional, conseguimos duas medalhas de ouro e uma de prata. Foi uma recompensa por ter sido um ano bastante duro.

Eu e a minha namorada pensávamos ser pais a seguir aos Jogos Olímpicos. Os Jogos foram adiados, mas outras coisas não mereciam ser adiadas. Em 16 anos, nunca tínhamos passado tanto tempo juntos e desfrutado tanto da casa. Trouxemos um outro ser ao mundo, a Margarida, que nasceu quando estava em estágio, em Avis.

"Custa andar sempre a fazer testes, mas custaria mais não jogar"

Nuno Sousa Guedes
26 anos
Internacional de râguebi do CDUP

"O nosso dia-a-dia enquanto atletas mudou. No clube, tivemos de nos adaptar a uma logística que não conhecíamos. Temos de usar máscara em todo o recinto, até entrarmos em campo para treinar. Medem-nos a temperatura. A ida ao balneário é apenas para calçar as chuteiras e voltar a sair; ou o tempo de equipar e tomar banho, para quem não o pode fazer em casa. Somos divididos em dois grupos e tentamos estar o mínimo tempo possível naquele que era o local que os jogadores mais preservavam.

Para podermos jogar, fazemos sempre um teste rápido, de véspera. Quem testa inconclusivo ou positivo é encaminhado diretamente para um teste PCR, que dá um maior grau de certeza quanto ao resultado. Tentamos não ter contacto uns com os outros até sabermos os resultados.

Depois, a preparação para o jogo é normal, com a diferença da água para beber: cada um leva a sua garrafa. Já houve alguns casos positivos, mas com as medidas restritivas nunca houve um contágio em "massa". Passou a ser uma responsabilidade pessoal e todos têm cumprido à risca.

Em semanas de seleção, estamos ainda mais isolados da vida social. Procuramos viver numa bolha, conviver apenas entre nós. É uma logística diferente, tentamos encarar da forma mais natural possível. Custa andar sempre a fazer testes, mas custaria mais se não pudéssemos jogar. Temos é saudades de ver a família, os amigos e os adeptos do râguebi nas bancadas."

"Tenho pena de não reconhecer quem cuidou de mim"

Renato Garrido
47 anos
Selecionador nacional de hóquei em patins

"A minha história começou com uma transmissão, julgo eu, pelos meus pais. Andei duas semanas com febre, sem apetite, cada vez mais fraco. Ia fazendo testes. Fiz quatro, todos negativos, e uma TAC mostrou algo ligado à covid-19. O quinto teste deu positivo.

Acabei por ir parar ao hospital, em dezembro, com pneumonia. No São João, estive sete dias nos cuidados intermédios a receber oxigénio. Médicos, enfermeiros e auxiliares foram de uma entrega que nunca esquecerei. Tenho pena de não reconhecer quem cuidou de mim, porque estavam sempre dentro daqueles fatos protetores. Gostava de poder agradecer a cada um, mas se passar por eles na rua, infelizmente, não os reconheço.

Vi pessoas a passar mal e médicos muito cansados. São uns heróis, dão uma luta muito grande. Quando voltei a casa, as primeiras semanas custaram muito, mas aos poucos fui melhorando e, hoje, já corro e já ando de bicicleta, mas não estou a cem por cento e tenho medo de voltar a ser infetado. Não passei por ventiladores como a minha mãe. O meu pai esteve em cuidados intensivos e recuperou. A minha mãe não. Não tinha problemas de saúde, mas não sobreviveu. Que toda a gente tenha consciência de que tem de se proteger e de proteger os outros."

"Aulas para dez pessoas em 500 metros quadrados"

Ricardo Cabral
33 anos
Atleta e professor de muay thai

"O meu último combate foi em França, em outubro. Só a UFC, a One, o Glory, no estrangeiro, sobrevivem, porque têm financiamento e podem testar os atletas. Em Portugal não há nada disso. Desmoralizamos um bocado: treinamos, mas não temos objetivos. Também sou treinador, tenho atletas de 20 anos que já estão desmotivados por não haver competição.

Compreendemos que há bastante risco de contágio num desporto de combate. Pode haver cortes, é corpo a corpo, a própria respiração é um risco. Com 800 atletas nos Nacionais, não creio que a federação possa pagar testes a todos. É claro que se torna mais seguro não haver competição.

Retomei as aulas, após o primeiro confinamento, em maio, mas durante dois meses não fiz contacto. Depois fizemos treinos no exterior, com viseira... Nunca houve contágio. Passei de aulas a 20/30 pessoas para entre sete a dez e em 500 metros quadrados de recinto. Por estar ligado à área da saúde, apanhei a primeira dose da vacina. Tenho uma bebé de nove meses que contraiu covid-19. Teve problemas de respiração, mas, fora isso, esteve bem."

"Com uma aplicação rastreámos contactos"

Mariana Oliveira
25 anos
Group Exercise Leader no Holmes Place, Oeiras

"Até 15 de março, tivemos salas cheias. Houve um decréscimo, não muito significativo. Começámos com aulas ao vivo no Facebook e, em paralelo, criámos uma aplicação. As pessoas não queriam aderir logo ao online, mas começaram a juntar-se.

Quando o ginásio reabriu, a 1 de junho, tivemos muitas restrições. Treinámos com 17 pessoas num estúdio de 40. Ficámos um mês sem balneários. Não tínhamos piscina - e os idosos preferem hidroginástica. Os estúdios passaram a ser medidos com marcas, fomos proibidos de usar materiais, as pessoas desinfetavam-se antes e depois de usar os aparelhos. Tínhamos de manter um distanciamento de metro e meio, não havia alongamentos assistidos.

A aplicação deu descanso, porque conseguimos rastrear quem tinha estado na aula e avisar se houvesse algum caso de covid-19. O ginásio nunca foi ponto de contágio. Nessa aplicação fica o plano de treino. Foi uma forma de contornar as aulas nas redes sociais, que tinham falha de net e problemas de som. As pessoas já estão mais adaptadas ao exercício em casa.

Foi complicado, porque a maioria de nós trabalha a recibos verdes."

Mantenha-se ligado a www.ojogo.pt e leia mais testemunhos sobre o ano mais estranho das nossas vidas.

Testemunhos recolhidos por: Ana Luísa Magalhães, André Bastos, Carlos Flórido, Catarina Domingos, Francisco Sebe, Frederico Bártolo, João Maia, José Rodrigues, Mónica Santos, Paula Capela Martins, Ricardo Sousa, Rui Guimarães.