Rute Costa deixou Benfica e reforçou Torreense: "Foi um risco estritamente necessário"

Rute Costa
José C. Lorvão
ENTREVISTA - Guarda-redes vive uma nova fase aos 31 anos. Rescindiu com o Benfica e assumiu rapidamente a titularidade do Torreense. Entre decisões difíceis e responsabilidade, o mais importante, para a guardiã, é voltar a desfrutar do futebol, rodeada de profissionais como os que encontrou em Torres Vedras.
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Rute Costa vive uma nova etapa em Torres Vedras. A guarda-redes internacional portuguesa, de 31 anos, reforçou o Torreense após rescindir com o Benfica, clube que representou durante três temporadas, e não demorou a assumir a baliza azul-grená. De regresso à titularidade e à competição, fala a O JOGO com tranquilidade sobre a decisão, mostrando ambição e responsabilidade por integrar um projeto que quer continuar a crescer no panorama do futebol feminino.
Quando recebeu o convite do Torreense, qual foi o primeiro pensamento?
-O Torreense é um clube ambicioso e competitivo. Tem sido evidente, nos últimos anos, a aposta na contratação de jogadoras que aumentam a competitividade interna e a qualidade das exibições apresentadas nos jogos. A possibilidade de integrar o plantel despertou, naturalmente, curiosidade para compreender todas as dinâmicas do clube e da equipa, tornando-se um dos projetos a ponderar seriamente.
O que a levou a avançar?
-A meu ver, é um clube que tem as pessoas certas a desempenhar as várias funções. Quando um clube que não tem os mesmos recursos que outros consegue ganhar títulos, percebemos que as pessoas que aqui estão tentam, todos os dias, fazer o melhor em todas as áreas. Os princípios e valores estão bem definidos, o que evidencia que a dimensão humana está acima de todas as coisas, e eu valorizo muito isso.
Falou com Gonçalo Nunes antes de assinar. Que peso teve essa conversa?
-A forma como fomos partilhando, com honestidade e frontalidade, os nossos contextos e as nossas ambições foi fundamental na minha tomada de decisão. O míster, a par da equipa e de toda a estrutura, recebeu-me muito bem e estou muito grata por isso. É um treinador que conhece o meu trabalho e o meu perfil, tal como eu conheço o dele. Ainda não tínhamos tido oportunidade de trabalhar juntos, e chegou agora o momento.
Rescindiu com o Benfica. Depois de anos num contexto de topo, isso mexe com a autoestima?
-Penso que depende do tipo de pessoa. No meu caso, não. Há certos momentos na nossa vida em que, mais importante do que saber aquilo que se quer, é saber o que não se quer. Foi um risco que decidi correr, estritamente necessário, com uma enorme convicção de que algo melhor estaria para vir. Não houve hesitação, porque havia uma urgência de valorização pessoal e profissional.
Este passo é também uma forma de se reencontrar?
-Sinto que este passo é mais uma forma de me valorizar do que propriamente de me reencontrar, até porque, em momento algum, mesmo nos mais difíceis, desviei-me do caminho. Os meus princípios e valores estão muito bem definidos e não abdico deles por nada.
Até ao momento, são duas titularidades e duas vitórias. Mudou alguma coisa?
-Cada jogo tem a sua própria história e não podemos fazer comparações. A verdade é que, para mim, é inegociável que a minha passagem pelos clubes que represento tenha como objetivo máximo dar tudo de mim, a todos os níveis. Trabalho muito todos os dias para evoluir individualmente, sabendo que sou parte de um todo que quer tornar-se melhor dia após dia.
Este Torreense está a discutir várias frentes. Sente um clube com ambição real?
-É um clube em crescimento. Demonstrou-o nos últimos anos e continua a demonstrar. Mais do que a ambição de vencer títulos, é um clube que transformou essa ambição em realidade. Um clube que vive a sensação de conquistar títulos dificilmente abranda. É um projeto estruturado para continuar a vencer.
Sentir essa confiança dá-lhe ainda mais motivação?
-Não há maior motivação do que poder fazer aquilo de que mais gostamos todos os dias e, se reconhecermos competência no trabalho realizado, ainda melhor. Sou uma atleta que gosta muito de treinar e dificilmente olho para esse momento com desmotivação.
E a pressão, sente-a?
-Responsabilidade, sim. Vejo a pressão mais numa ótica negativa e pouco desejável. Tenho a responsabilidade de me apresentar todos os dias no meu melhor nível, sabendo de antemão que isso nem sempre é possível. Mas, como é algo incontornável, não há muito mais a fazer senão aceitar. O grande objetivo é que esses momentos menos bons surjam em número reduzido e, dessa forma, tornar o peso da responsabilidade um pouco mais leve.
O calendário quis que o próximo jogo fosse contra o Benfica. É só mais um jogo?
-O dia a dia tem sido o maior protagonista da minha vida ultimamente. Até chegar ao dia do jogo, tenho muitas outras coisas que exigem a minha atenção. O foco está em aproveitar todos os momentos de preparação para chegar ao dia pronta e ajudar a minha equipa a cumprir o objetivo.
Mas há um lado emocional inevitável ou consegue desligar?
-Sou grata ao meu passado, porque tudo o que vivi até agora permitiu-me chegar onde estou hoje. Em todos os clubes por onde passei, tive momentos felizes e outros menos. Gosto de colocar as coisas na prateleira certa. Os únicos sentimentos que existem neste momento são de gratidão por poder estar a fazer aquilo que mais amo e de felicidade por estar presente em momentos decisivos.
O que espera do jogo?
-Certamente um jogo altamente competitivo entre duas das melhores equipas da Liga BPI. Não tenho dúvidas que ambas irão fazer de tudo para vencer. Os últimos confrontos têm tido emoção até ao apito final, por isso não espero algo diferente neste próximo embate.
Aos 31 anos, o que vê hoje no futebol que não via aos 20?
-Sou uma das muitas atletas que passou por todas as fases que o futebol feminino viveu até então. Muita coisa mudou, muita coisa melhorou. Outras continuam aquém, ano após ano, infelizmente. Seria bastante exaustivo falar de todas as mudanças que ocorreram nesse período. Acredito que o mais importante é reconhecer que o futebol praticado por mulheres tem lugar na sociedade e que as instituições não devem mascarar o investimento na modalidade, mas sim dar-lhe continuidade de forma sustentada, para permitir o seu crescimento.
O que procura agora nesta fase da carreira: estabilidade, prazer em jogar, títulos?
-Neste momento, o principal é voltar a desfrutar do futebol com alegria e daquilo que ele ainda tem para me oferecer. Estar num clube onde posso sentir-me feliz, valorizada enquanto ser humano e profissionalmente e vencer títulos é a cereja no topo do bolo.
A Seleção Nacional continua no horizonte?
-Não tenho pensado nisso. O espaço de Seleção Nacional é um privilégio para qualquer jogadora. O meu foco, neste momento, está em dar o máximo contributo ao Torreense, no tempo que falta para terminar a época desportiva, e cumprir os objetivos delineados.
