As meninas de ouro de um caso raro: o Colégio de Gaia

As meninas de ouro de um caso raro: o Colégio de Gaia
João Queiroz

O JOGO || 35 ANOS - O Colégio de Gaia venceu a votação promovida por O JOGO para assinalar o 35.º aniversário do jornal

Orgulha-se de ser um dos clubes com maior tradição do andebol feminino, compete com as suas 97 atletas nos seniores e em todos os escalões de formação e, sem nunca ter abandonado o amadorismo, está há 32 anos consecutivos na I Divisão: é o mais antigo entre os 12 que integram o campeonato, alguns com projetos semiprofissionais ou subsídios a jogadoras; é o atual campeão em título, detentor da Taça de Portugal e da Supertaça e presença assídua na Europa. O Colégio de Gaia é um caso raro de uma escola que aposta em competições federadas e único nos êxitos que já somou.

É também um caso de crescimento rápido, o de um clube nascido em 1987 com a missão de trazer competitividade às atletas que já não encontravam oposição no Desporto Escolar, uma tradição na casa, há décadas transformada em local de passagem quase obrigatória para os alunos que procuram uma formação em desporto. No andebol, bastou um ano para chegar à I Divisão, com uma equipa ainda júnior, a jogar os dois campeonatos e a "ganhar nos dois", recorda Jorge Tormenta, o fundador, que nessa época era o treinador e hoje é o coordenador e "alma mater" do andebol do Colégio de Gaia.

Na época de estreia terminou em terceiro, na seguinte conquistou o campeonato e a Taça e desde então andou quase sempre entre os cinco primeiros classificados, que permitiram somar até agora 27 participações em provas internacionais. "Essa presença é importantíssima para o crescimento das atletas. Para se ter o gosto, são precisos prémios e, se não há dinheiro, tem de haver prestígio. Jogarmos para sermos melhores e sermos dos melhores foi sempre a máxima que procurámos seguir."

A verdade é que, em Portugal, o Colégio o conseguiu, apesar de "nunca ter lutado com as mesmas armas dos concorrentes mais diretos, com capacidade para se reforçar no estrangeiro e no Colégio, seduzindo as atletas com condições que este nunca poderia oferecer", garante Tormenta. Ainda esta época partiram três jogadoras internacionais: Sandra Santiago e Patrícia Lima foram para Espanha jogar no Guardés, um dos atuais líderes da Liga; Joana Resende ingressou no Benfica, o clube em que o pai, Carlos, é treinador da equipa masculina. "Foram para um patamar que nunca quisemos atingir, o do profissionalismo. Nunca tivemos a tentação de dar um passo maior do que a perna, como aconteceu com vários adversários nossos, que investiram muito mas depois desapareceram ou não foram capazes de se manter", sublinha Tormenta.

Ali, pelo contrário, sempre foram fiéis às origens, assumindo-se como um projeto pedagógico, que hoje é quase autossustentável com a ajuda de todos: do Colégio, que cede as instalações, dos professores, que são os treinadores, e dos sócios, que são os encarregados de educação. Ali criou-se uma família que granjeou o respeito, somando apoios de entidades públicas e privadas, as forças vivas do concelho, conta o coordenador da escola: "Durante muito tempo só tivemos um patrocínio, o da Toyota, que se mantém desde que subimos à I Divisão; agora a nossa camisola parece um supermercado." Hoje são sete os que apoiam um projeto que educa, ocupa e forma jovens e que soube juntar o útil, ser um projeto educativo, ao agradável, que é ter resultados. É a fórmula do sucesso do Colégio de Gaia.

O Ensino de mãos dadas com o Desporto

O andebol surgiu no Colégio de Gaia como necessidade de dar resposta à igualdade de género numa escola que começou por ser só de rapazes e que se tornou mista por altura do 25 de Abril. Fundado em 1933 pela Igreja Católica, tem neste ano letivo 1500 alunos, do pré-escolar ao secundário, que hoje é a sua grande vocação, lecionando 13 cursos científico-tecnológicos com planos próprios.

Um deles é o de Animação e Gestão Desportiva, o "grande impulsionador" do Desporto Escolar, no qual coloca atletas de muitas modalidades, e responsável pelo surgimento do andebol feminino e do xadrez, que ali é disciplina curricular. "Essa componente desportiva é transversal aos três níveis de ensino", afirma o diretor, António Barbosa.

Candidatas ao bicampeonato

Apesar de o plantel ter perdido três jogadoras influentes nesta época e de uma derrota logo à segunda jornada, a equipa orientada por Paula Castro está na luta pela revalidação do título.

Quando o Colégio de Gaia iniciou esta temporada desfalcado de três dos seus maiores talentos, houve quem lhe alvitrasse o insucesso. "Diziam que íamos sofrer, perguntavam-me o que ia acontecer. E eu respondi que o Colégio tem uma escola, que é a base do seu recrutamento, e que ia tentar lutar sempre pelo melhor resultado", diz Paula Castro, professora de Matemática do Colégio de Gaia e treinadora que dirige a equipa há 20 anos, depois de, como atleta, ter sido uma das primeiras campeãs nacionais com a camisola das gaienses.

Certo é que o arranque não foi bom, com uma derrota com o recém-promovido ABC logo à segunda jornada. "Foi um choque, mas fez-nos bem", admite a antiga selecionadora nacional, única a levar o andebol feminino a uma fase final.

A classificação não as deixa mentir: o Colégio já venceu a primeira fase do campeonato - que termina hoje - e entrará na segunda com uma vantagem confortável sobre o Madeira SAD e o Alavarium, este o adversário de hoje. "São os outros dois candidatos ao título", de acordo com Paula Castro, que também vê o Benfica, "embora num segundo plano", a intrometer-se na corrida. "Perder menos pontos nesta primeira fase é meio caminho andado para ter sucesso e ser campeão", explica. Apesar dos muitos títulos, o Colégio está na luta por um feito inédito: o primeiro bicampeonato da sua história.

Uma família e uma incubadora

Como muitas da sua geração e das anteriores, Helena Soares foi estudar no secundário para o Colégio de Gaia para jogar na equipa de andebol. Cresceu até às seniores, licenciou-se em Desporto e tornou-se uma das professoras da escola e uma das treinadoras da formação. Tem 32 anos, quase 21 de Colégio, chegou a ter convites para jogar em Espanha, mas recusou sempre. É uma das atuais internacionais portuguesas do plantel, a par de Bebiana Sabino, também formada no clube, que foi pentacampeã nacional pelo Madeira SAD enquanto concluía o curso na ilha. As duas foram campeãs juniores e seniores sob a orientação de Paula Castro.

"Somos uma família em que desde pequenos nos são incutidos valores e princípios importantes, alguns que já caíram em desuso. Somos um meio muito coeso, não só de formação desportiva, mas sobretudo pessoal", afirma Helena, um dos produtos desta incubadora de onde saíram mais atletas de nomeada, como Cândida Mota ou Ana Seabra. Pontualmente, a equipa recebe atletas estrangeiras universitárias que chegam ao Porto para estudar e escolhem o Colégio para dar continuidade à carreira - a jovem espanhola Laia Chiva é o exemplo mais recente.