A vénia de Deco a quem garantia que as estrelas do FC Porto só tinham que brilhar

A vénia de Deco a quem garantia que as estrelas do FC Porto só tinham que brilhar
André Morais | Carlos Gouveia

O JOGO - 35 ANOS || 2006 || A VÉNIA DE DECO - Vence a segunda Liga dos Campeões, agora pelo Barcelona, e é eleito melhor jogador do Mundial de Clubes. A sua vénia a um histórico da estrutura do FC Porto.

"Foi fundamental para todo o meu sucesso, ajudou-me em tudo o que eu precisei, esteve sempre disponível para tratar de tudo, para me ir levar, buscar, ajudar em casa. Foi fundamental para que me pudesse concentrar apenas no futebol".

A explicação de Deco para a homenagem a Domingos Pereira podia encaixar na boca de muitos outros jogadores que, durante os mandatos de Pinto da Costa. Ninguém terá nada a apontar a Domingos Pereira, funcionário do FC Porto durante mais de 30 anos. Muito antes de se profissionalizar no acompanhamento de jogadores, assumiu o papel de verdadeiro "faz-tudo": ia buscar e levar os atletas ao aeroporto, tratava de lhes arranjar casa, mas também de pequenos problemas logísticos.

Não importava a hora, bastava receber um telefonema e pouco depois estava a resolver as questões porque nunca dizia não. Tudo por gosto e por paixão ao clube e para que os jogadores tivessem de se preocupar apenas em jogar futebol.

Tinha especiais preocupações com os estrangeiros a quem fazia sentir em casa desde o primeiro momento em que chegavam ao Porto. Madjer considerou-o um segundo pai, assim como Deco e tantos outros. Mas as suas tarefas não eram apenas corriqueiras, tinha a confiança plena de Pinto da Costa que o incumbiu, por exemplo, da difícil missão de ir a Lisboa buscar Paulo Futre, no verão de 1984 para depois o esconder na casa do então dirigente Álvaro Braga Júnior, onde se manteve por três meses até ser oficialmente contratado.

"O FC Porto está de luto. Faleceu um grande Homem. Até sempre vôvô", escreveu o esquerdino a 28 de maio de 2015, quando Domingos Pereira faleceu com 75 anos. Poucos meses depois foi distinguido, a título póstumo, com o Dragão de Ouro de Recordação do Ano. Em vida já havia sido o funcionário do ano.

A filha, Lucília Pereira, regista a vénia do Mágico com muito agrado. "Convivíamos muito com ele. O meu filho era pequenito, o Deco gostava muito dele. Aliás, ele e o avô até foram ao casamento. E almoçávamos muitas vezes juntos. O meu pai era assim, dava muito apoio a todos os jogadores do FC Porto. Lembro-me do Alenitchev, por exemplo. Passou muitos natais connosco e até levou o meu filho para o acompanhar numa entrada em campo. Não falava línguas, mas falava com toda a gente", ri Lucília.

A vida familiar de Domingos Pereira tinha muito de FC Porto: "O meu pai vivia o FC Porto 24 horas por dia. Qualquer coisa, fosse a que horas fosse, ligavam e ele estava sempre pronto." Daí que as coisas se confundissem em várias ocasiões: "A esposa do Madjer só falava francês. A minha irmã sabia línguas e então, quando o FC Porto jogava, nos íamos para casa dele para fazer companhia à esposa e a minha irmã poder falar com ela".

Domingos deixou o FC Porto como funcionário da SAD, mas já antes o era do clube. E ainda que Deco tenha sido um dos seus meninos queridos, há uma figura incontornável na história de vida do funcionário mais dedicado: José Maria Pedroto. "Andava sempre com ele. Sempre. Eram muito amigos. Acompanhou-o na doença, levava-o ao aeroporto para ele ir aos tratamentos, ia buscá-lo. Eram grandes, grandes amigos. O senhor Pedroto foi às nossas comunhões, casamentos, todas as festas de família", aponta, respirando para concluir com orgulho: "O meu pai era espetacular. Toda a gente dizia que era muito importante, mais até do que o Pinto da Costa", brinca, com saudade.