Premium ZOOM - Caráter globalizante do Desporto ajuda a denunciar o sexismo

ZOOM - Caráter globalizante do Desporto ajuda a denunciar o sexismo
António Barroso

Ada Hegerberg e outras atletas em vários episódios de sexismo. O exemplo de uma campeã não serviu para calar o machismo de outro campeão, o lutador russo Khabib Nurmagomedov, que horas depois reafirmou que o lugar das mulheres é em casa. Na Índia, recordam-se, sem fronteiras, outros quatro casos de sexismo no desporto. Ainda assim, o desporto passará melhor a mensagem e a denúncia da desigualdade de género.

O sexismo no desporto voltou às páginas, em papel ou virtuais, dos meios de comunicação, de onde nunca poderá nem deverá sair até ao dia em que um título ou uma derrota sejam vistos, noticiados, comentados e analisados sem qualquer referência de género. Pode até ser esta a opinião de quem escreve esta prosa - e é! -, mas é também o resumo do muito que se lê, por estes dias, na Imprensa de todo o Mundo, a propósito do episódio com a vencedora da Bola de Ouro de 2018, a norueguesa Ada Hegerberg, vítima de um comentário despropositado de um dos apresentadores da cerimónia da FIFA.

Comecemos por considerar as desculpas de Martin Solveig, o tal apresentador, a Ada Hegerberg, a quem o dj francês perguntou se sabia dar um passo de dança em vez de a questionar sobre a relevância do prémio, que estava a ser entregue pela primeira vez na História do futebol.

A assunção de culpa de Solveig poderá provar - se verá, com o tempo - que o sexismo no desporto será mais rapidamente condenado e ultrapassado do que noutras áreas de atividade. Argumento que é sustentável pelo facto de o desporto, sobretudo o futebol, ser um dos maiores veículos de transmissão de informação à escala planetária. Não é à toa que alguns combates da civilização pelo bem-estar da Humanidade estão hoje encostados à densa malha de promoção que a alta competição oferece.

São exemplo disso as campanhas "Say No To Racism" (Diz Não ao Racismo) da FIFA e "Not To Racism" da UEFA, mas também casos mais recentes, como a iniciativa #RainbowLaces, de apoio ao movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais), que a Premier League, na passada semana, implementou para combater a intolerância à diversidade das opções da sexualidade.

Há um ditado português que diz: as desculpas evitam-se. Mas quando o mal existe desde que a História da Humanidade começou a ser escrita (ou desenhada, no Paleolítico), um pedido de desculpa público por um retrógrado ato público é sempre bem-vindo. Martin Solveig aprendeu a lição.

A questão, agora, é: estamos todos dispostos a aprender esta lição? A tratar os protagonistas por igual, independentemente do género? Parece que ainda há um caminho longo a percorrer.

Há menos de 24 horas, o lutador russo Khabib Nurmagomedov, numa conferência na Arábia Saudita, para promoção dos seus próximos combates, quando questionado sobre a participação crescente das mulheres nas artes marciais mistas, reafirmou a velha máxima de "o lugar delas é em casa a tratar dos maridos". Com outras palavras, mas com este sentido.

A Imprensa, em todo o mundo, deu eco à indignação pela visão machista e sexista do homem que há pouco tempo conquistou o título de campeão do mundo, na categoria de pesos leves, da UFC.

Esta onda de indignação não acontece porque aumentam os casos de sexismo. Aumenta em função do crescendo do protesto público por visões retrógradas, protesto que é agora mais intenso. Os casos de sexismo e machismo estão aí, ao virar da esquina, desde sempre. São, agora, noticiados e escrutinados por uma atividade que mais passos tem dado rumo ao fim do sexismo: o jornalismo.

Hoje, na sequência do episódio de Ada, o The Quint, publicação online da Índia, recordou quatro casos no desporto em que as mulheres se sentiram maltratadas pelo género:

1. Em 1973, o ex-tenista norte-americano Bobby Riggs, com 55 anos, cheio de dinheiro e fama, afirmou à boca cheia que o ténis masculino era superior ao feminino. E desafiou algumas concorrentes em atividade. Billie-Jean King, na altura com 29 anos, aceitou a oferta que antes declinara - após derrota da sua colega Margaret Court - e bateu-o por 3-0. Reza a crónica que foi uma partida de extrema resiliência feminina.

2. Outro episódio: já em 2017, Mithali Raj, internacional indiana de críquete, havia acabado de conquistar o título mundial. Na conferência de imprensa que se seguiu, perguntaram-lhe qual era o seu jogador (masculino) de críquete preferido. De imediato, retorquiu: "Se estivesse aqui um vencedor homem, faria essa pergunta sobre a jogadora preferida dele?".

3. No ano seguinte, a futebolista norte-americana Sidney referiu-se ao facto do Mundial feminino ter sido disputado em relvados artificiais, no Canadá: "É um problema de igualdade de género. De certeza que nenhum homem disputaria um mundial num artificial. Acho que as mulheres estão a ser tratadas como cobaias".

4. Por fim, uma conversa entre comentadores na estação de rádio Barstool Sports, nos Estados Unidos, que se referiram à vitória da norte-americana Chloe Kim, com 17 anos, nos Jogos Olímpicos de Inverno, no início de 2018, em termos desadequados ao momento. Ou seja, sem darem qualquer importância ao feito, mas apreciando apenas as suas caraterísticas físicas. O moderador foi despedido, na sequência dessa conversa pública.

As afirmações públicas sexistas são retrógradas, numa perspetiva civilizacional. Mas tudo isto tem sido denunciado intensamente nos últimos anos, não só nos últimos dias. São dezenas de casos recordados ou despoletados, que nos levam a crer que o sexismo no desporto tem os dias contados. Mas - há sempre exageros -, não confundir a verdadeira batalha contra o sexismo do seu aproveitamento pessoal, como tentou fazer a tenista Serena Williams, há uns tempos, apenas porque não concordou com um decisão de um árbitro.

Ainda na sequência do episódio na gala da FIFA, a estrela inglesa do Netball, Kadeem Corbin, deu uma entrevista à Glamour Magazine, onde afirma que a melhor forma de combater o sexismo é "ser-se verdadeira consigo própria, saber que se é uma mulher forte e que se tem o direito de desfrutar do desporto que se gosta. Mas, mais importante, ter a coragem de dizer o que se pensa".

Terminamos com um excerto da crónica de ontem de Eni Aluko, cronista do diário The Guardian, ex-futebolista da Juventus e 102 vezes internacional pela seleção inglesa: "Hegerbeg deu o melhor exemplo, com a sua firme recusa, em apoiar qualquer tentativa de degradação da sua incrível conquista - a Bola de Ouro. Um simples "não" foi suficiente para mostrar o seu nível de respeito pessoal naquele momento. Foi forte e digna. Enviou uma mensagem poderosa a todas as meninas e mulheres: não precisam de aceitar a objetificação feminina, especialmente nos momentos em que merecem os elogios".