Virar o mundo dá lucro

Sérgio André

Assistir a uma jornada de La Liga ou da Premier League na China ou nos Estados Unidos poderá deixar de ser uma miragem daqui por alguns anos

Há uns meses, citado pelo "Financial Times", Javier Tebas, presidente da liga espanhola, colocava em cima da mesa a possibilidade de furar a fronteira e levar a La Liga para outras paragens - e não, não estamos a falar de transmissões televisivas... -, organizando jornadas em países como Estados Unidos ou China. "A La Liga é um entretenimento global e nós queremos aumentar a atratividade internacional do nosso campeonato", disse o dirigente, convicto de que, mais cedo ou mais tarde, a iniciativa ganhará corpo. "Como parte deste esforço, estamos a debater a opção de jogar algumas jornadas fora de Espanha. As discussões ainda estão numa fase inicial, mas nós, como Liga, apoiamos a ideia", acrescentou.

O tema também não passou em claro na Premier League, com a classe dirigente a olhar com interesse para o projeto, embora ainda não tenha passado de um rascunho.

O futebol americano foi mais longe e cruzou o Atlântico, realizando jogos em Londres. As audiências internas caíram e foi encontrada uma forma de conquistar adeptos no estrangeiro para colmatar as referidas quebras. Agora, até vão dividir o estádio (novo) com o Tottenham, que também pensa tirar benefícios com a parceria do outro lado do oceano. Um pouco à imagem do Manchester City, que mantém subsidiárias nos Estados Unidos ou Austrália.

Sem fronteiras, a indústria desportiva aproveita-se, interligando-se e expandindo-se pelo mundo inteiro.

Estes são apenas alguns exemplos do efeito da globalização e do impacto que tem no desporto.

Mas irá este fenómeno intensificar-se e estrangular as ligas nacionais? Poderá a NFL ser disputada na península Ibérica daqui por 30 ou 40 anos? O críquete ou polo equestre, modalidades exóticas, poderão preencher o nosso fim de semana daqui por alguns anos? Sairão triunfantes na tentativa de se espalharem pelo mundo?

Paulo Reis Mourão, professor universitário, no Departamento de Economia da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, estudioso destas matérias, admite mudanças profundas na forma de estar e pensar o desporto, motivadas pelo aceleramento da globalização, embora realce que não seja um exercício fácil de prever com exatidão o que irá acontecer daqui por três décadas.

"Considerando o exemplo do futebol, há fatores que podem favorecer este cenário. Se as ligas nacionais forem vistas como fonte de desgaste ou de custos avultados para os grandes clubes, se movimentos regionalistas vingarem no espaço europeu levando à fragmentação dos territórios nacionais e das respetivas ligas ou se as vantagens das competições europeias [como prize money] ficarem comprometidas pela coexistência da competição nacional", começou por explicar o docente, alargando logo de seguida a sua análise. "A questão das modalidades exóticas face ao espectador português ou europeu e que, fruto da mediatização e globalização e também de outros fatores como as apostas desportivas ou a heterogeneidade das preferências do consumidor de eventos desportivos, faz com que atenções e, eventualmente recursos, estejam hoje numa competição maior entre as modalidades profissionais do que há 20 anos. Daí a multiplicação de canais pagos focados no desporto televisionado de modo a satisfazer este consumidor globalizado."

Na palma da mão vale uma aposta

A globalização não surge isolada nesta corrida. Colada a si tem naturalmente a vertente lucrativa: as receitas e os modelos económicos.

"Como será no futuro? As receitas virão dos modelos de captação de interesse", realça o professor de economia, acrescentando: "Se os modelos entenderem que o interesse está no visionamento pago, como no atual modelo, os direitos televisivos entrarão em modelos de gestão mais complexa. Se for do dinheiro do jogo, online/apostas legais, então teremos uma regulação muito mais incisiva. Se o foco estiver na atual tecnologia na palma da mão, então teremos receitas associadas aos equipamentos eletrónicos, aos pacotes de contratualização de terabytes disponibilizados e aos próprios softwares e aplicações", explica.

Paulo Mourão chama ainda a atenção para o dinheiro proveniente das transferências de jogadores.

"No meio de tudo isto, a transferência de jogadores poderá ser usada como meio de valorização das sociedades desportivas e como recurso de financiamento de curto prazo. De qualquer forma, a evolução tecnológica tem levado a agravamentos da desigualdade económica e também de desigual competitividade dos clubes e das ligas pelo que quem quiser sobreviver tem de antecipar estes cenários de transformação emergente."