"Vídeo de um falhanço tem audiências superiores aos grandes jogos na TV"

"Vídeo de um falhanço tem audiências superiores aos grandes jogos na TV"
Sérgio André

Presidente da FPF analisa o fenómeno da globalização e lembra que as novas gerações "têm preferências de consumo muito mais rápidas e fragmentadas".

Em entrevista a O JOGO, Fernando Gomes, presidente da FPF e vice-presidente da UEFA, garante que o fenómeno da globalização será "cada vez mais definidor no estabelecimento da identidade das instituições".

Os grandes clubes de futebol conquistam milhões de adeptos além-fronteiras. Há uma tendência para acelerar este fenómeno?

-Esta é uma realidade que decorre da globalização do futebol, e o mais impressionante é que parece tender a acelerar. Os grandes clubes ingleses apostaram forte no mercado asiático nos anos 90. Depois, os maiores clubes espanhóis seguiram o exemplo e outros clubes europeus estão a fazer o mesmo em anos mais recentes.

O crescimento impressionante da classe média em países como a China, a Coreia do Sul ou a Tailândia aumenta de forma incrível o leque de possíveis consumidores de jogos de futebol na TV, de compradores de merchandising e dos adeptos do futebol em geral.

Essa dimensão abre a porta a novas oportunidades de negócio?

-Abre um conjunto infinito de possibilidades de negócio que vale a pena explorar, mas é um caminho longo e não tão fácil como, à primeira vista, os números nos podem mostrar. Exige planeamento, foco, identificação e proximidade. A China ultrapassou o Japão como segunda maior economia mundial há já cinco anos e meio. Mas nessa altura tinha um PIB de apenas 59% do dos EUA; hoje, no arranque de 2018, já tem um PIB que equivale a 75% do dos EUA. A pergunta já não é: "Será a China um dia a maior economia mundial?" Não, agora já só falta saber quando isso vai acontecer. Se me pedirem uma única frase para sentenciar o maior desafio dos próximos anos de quem tem responsabilidades no futebol no plano global, diria: "Olhar para a China."

Mas concorda que a China não será o único país a merecer essa atenção...

-Vale também a pena olhar para os EUA. Se na Europa, em África e na América do Sul, o futebol pesa entre 70 a 80% do total dos respetivos mercados desportivos (será difícil crescer muito mais), nos Estados Unidos, país que adora o desporto, o "soccer" pesa só 3%. No entanto, o crescimento financeiro da MLS é notável: uma licença na MLS custava, há 15 anos, 15 milhões de dólares. Hoje custa... 185 milhões de dólares. É verdade que as duas maiores economias do mundo, EUA e China, não estarão representadas no próximo Mundial, mas são dois casos a acompanhar cada vez mais de perto, pelo potencial gigantesco que têm de crescimento na penetração do futebol nas respetivas sociedades.

Modalidades como o basquetebol e o futebol americanos exportam-se e vencem nas audiências televisivas. As ligas nacionais são ameaçadas pela criação de ligas internacionais?

-Como é sabido, como presidente da FPF e também como vice-presidente da UEFA, responsável do Comité de Competições, tenho levantado grandes reservas à criação de uma Superliga Europeia. Vemos a Champions como o modelo de maior sucesso em todo o mundo no que se refere a uma prova que reúne enorme interesse mediático, desportivo, empresarial e financeiro. Não temos uma perspetiva elitista das competições. Continuamos a acreditar no papel das ligas nacionais e, depois, na importância cada vez maior das provas europeias e internacionais, como exemplos máximos da demonstração da força e da capacidade de atração do futebol enquanto desporto que movimenta mais gente, mais sponsors e muito dinheiro.

O futebol continuará a ser um sucesso de audiências televisivas?

-Sim, sejam os jogos das ligas nacionais mais atrativas, sejam as partidas das grandes competições internacionais. A Premier League, partindo de um mercado interno britânico de 60 milhões de pessoas, conseguiu, em duas décadas, multiplicar o seu alcance 50 vezes - isso mesmo, 50 vezes - globalizando-se. Quarenta e dois por cento da população mundial - 3,2 mil milhões de pessoas - viu pelo menos um jogo do Mundial"2014 pela TV. 99% dos islandeses viram os jogos da sua seleção pela TV no Euro"2016. Mais de 80% dos brasileiros viram os do Brasil no último Mundial, mais de 80% dos ingleses viram os da Inglaterra, 75% dos portugueses viram os jogos de Portugal no Euro"2016. Alienar o futebol destes países e das principais competições seria, na minha opinião, um erro crasso. A paixão e o talento não são mensuráveis em audiências.

Os modelos económicos atuais têm força para continuar no futuro ou terão de ser reformulados?

-O modelo que prevaleceu até agora pode estar em risco, mas há novos modelos a surgir. O futebol acompanha a evolução da sociedade e isso, em si, não é positivo ou negativo: trata-se de uma realidade em constante mutação. Ignorá-la ou desvalorizá-la não seria uma atitude muito inteligente. A chave do sucesso está em conseguir encontrar um caminho que não desvirtue os nossos valores essenciais e nos mantenha focados na rota do sucesso. Quem não for capaz de se questionar permanentemente e quem não souber encontrar as melhores soluções para os novos desafios, ficará para trás. O modelo de negócio baseado na venda dos direitos de transmissão aos principais operadores TV está a alargar-se a novos players e a novas plataformas. A própria forma de acompanhar um jogo de futebol está a mudar.

Será esta a última geração a ver uma partida de 90" na totalidade?

-Os "millennials" - e ainda mais a "Generation Z" - têm preferências de consumo muito mais rápidas e fracionadas: vídeos de 30 ou 40 segundos, ou ainda menos, com uma grande jogada, uma grande defesa ou um grande falhanço espalham-se na net e nos smartphones com milhões de visualizações, atingindo audiências superiores aos grandes jogos na TV como um todo. Aumentar o tempo útil de jogo e diminuir as paragens será por isso um desafio importante para o futebol se proteger na sua capacidade de captar a atenção das novas gerações.