"Mais importante do que a genética é o ambiente"

"Mais importante do que a genética é o ambiente"
João Araújo

Entre 20 a 25% é o contributo do genoma para a definição daquilo que cada pessoa será. O maior peso resulta do que os indivíduos enfrentam na sua vida, em especial durante o crescimento e maturação.

Técnica e ética, para o professor José Duarte, chocam de frente quando a conversa é sobre clonagem e manipulação genética. Numa altura da história em que os avanços científicos e tecnológicos legitimam que se imagine o "fabrico" de atletas - e o de bebés! -, o responsável pelo Laboratório de Bioquímica e Morfologia Experimental da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto levanta questões e coloca travões.

Será possível, à semelhança da ovelha Dolly e dos macacos na China, clonar superatletas?

-Fala-se de clonagem quando se tenta enganar um óvulo. Temos dois géneros, masculino e feminino (espermatozoide e óvulo) que se fundem e cada um transporta metade da informação genética que o novo ser vai ter. Na clonagem, em vez de utilizar um espermatozoide, tira-se um núcleo de uma célula de um adulto e engana-se o óvulo. Ainda não se conhecem muitas proteínas, muitos fatores que condicionam a expressão dos genes, mas é certo é que vamos ter um indivíduo adulto exatamente igual ao outro do qual foi tirada a informação. A menos que haja grandes mudanças na sociedade, isto nunca será possível do ponto de vista ético!

E do técnico?

- Do ponto de vista técnico, é possível.

É possível pegar na informação genética de Usain Bolt e fabricar um supercorredor?

-Não concordo. A ideia que existe é que os fundistas fazem-se, os velocistas nascem. Há aqui uma influência genética e não no caso do maratonista. É estranho, não? Vendo as características fenotípicas (percentagem de fibras do tipo 1, do tipo 2, expressão de enzimas do metabolismo energético, capacidade de replicação e regeneração tecidual) dos músculos esqueléticos de gémeos homozigóticos, dá para perceber uma grande correlação entre o gémeo A e o gémeo B, quase perfeita. Isto, conjugado com a ideia, do treino, de que os velocistas nascem e os fundistas fazem-se, veio dar muita importância à parte genética como determinante para a nossa performance. O que se começou a observar? Em gémeos homozigóticos que, por perderem os pais, foram educados em ambientes diferentes, esta correlação perfeita perdeu-se. Quer dizer que os genes têm alguma importância, mas muito mais importante para o nosso fenótipo como adultos é o ambiente. Especialmente durante as fases iniciais da nossa vida, as de maturação e crescimento.

Está a dizer é que se o Usain Bolt tivesse crescido em Portugal, por exemplo, não seria o que é?

-Exatamente. Apesar de toda a informação genética. Alguns genes parecem tornar o indivíduo mais propenso a determinadas tarefas. Todos temos os mesmos genes, mas estes não são todos iguais. Há pequeninas variantes, resultado de erros ao longo das gerações, mutações que vão permanecendo e se perpetuando de pais para filhos - umas são benéficas, outras não têm significado, não trazem doenças. Ao estudar estes polimorfismos de forma isolada, observou-se que havia uma boa correlação com atletas de velocidade, de meio fundo...

Ou seja, certos genes correspondem a certas características atléticas...

-Determinadas variantes genéticas. Um bom velocista tanto tem genes favoráveis para a velocidade como desfavoráveis. Devido à facilidade com que os seres humanos se reproduzem de forma livre, estes genes bons e genes maus, estes polimorfismos favoráveis e desfavoráveis estão espalhados na população. Não há um cruzamento selecionado - que poderia ser feito e eticamente é reprovável. Mais uma vez, coloca-se o problema: o que nós somos, o genoma, é assim tão importante?

Então, se fosse possível criar um atleta perfeito, posto num contexto sem tradição de atletismo nada garantiria que viesse a ser um campeão?

-Claro. O genoma é importante e a sua interação com o ambiente faz aquilo que nós somos. Só que o genoma é importante para explicar que eu sou homem e aquela é uma mosca [aponta]. Para explicar diferenças entre indivíduos da mesma espécie, o genoma tem um contributo de 20 a 25%; 75-80% daquilo que o indivíduo é diferente do seu par é motivado por fatores ambientais, na fase de crescimento e maturação. A genética pode ter alguma contribuição para a construção de campeões, mas muito mais importante é o ambiente. E, sobretudo, o nosso sistema nervoso.

"Manipulação? Acho que já deve haver"

Crítico de certos negócios que começam a proliferar à custa da genética, José Duarte deixa vários avisos.

Há atletas que arriscariam usar doping genético?

Acho que sim. A pressão sobre os atletas é muita - deles, dos dirigentes, dos clubes, da sociedade. Há trabalhos sobre isso, em que se perguntou se tomariam um medicamento que lhes garantisse o sucesso mesmo com grande probabilidade de morrer e uma grande percentagem respondeu que sim. O doping genético é muito arriscado, é modificar o fenótipo de um indivíduo já adulto sem ainda se conhecer bem os genes nem os alvos onde atuar. E, mais do que isso, não há nenhuma arma seletiva, nenhuma mão cirúrgica que diga "isto é para cortar e para substituir por este". Há veículos, vírus, plasmídeos, só que há de ser o que Deus quiser... Tanto podemos ter um bom desfecho como algo completamente diferente. O grande risco quando se pretende alterar o fenótipo e a expressão genética é o cancro, a criação de células anormais, de monstros, que de um momento para o outro ganham autonomia. Doping genético e cancro andam associados.

Que pensa dos testes de aptidão genética?

Condeno. É um negócio, assim como empresas de emagrecimento que fazem o perfil genético para saber como reagimos à alimentação. O facto de conseguirmos identificar três ou quatro isoformas de três ou quatro genes não nos permite ter um controlo total de todo o metabolismo que intervém na degradação e armazenamento daquela substância. E aquilo que uma pessoa tem de polimorfismo bom vai ter noutros genes polimorfismos desfavoráveis. É o problema de cruzamento livre entre humanos e de milhares e milhares de anos em que estes traços genéticos, estes polimorfismos favoráveis e desfavoráveis, se foram misturando. A seleção natural deixou de existir, o ambiente tornou-se mais fácil e não há uma seleção imposta pelo ambiente de determinados genes. Se começássemos a selecionar indivíduos, juntar quem tivesse mais polimorfismos bons do que maus, sucessivamente pela descendência, ao fim de algumas gerações talvez pudéssemos ter uma concentração maior de polimorfismos bons do que maus. Isto além de podermos estar a criar pessoas insanas por causa do cruzamento consanguíneo... Aí, talvez a genética fizesse a diferença.

A manipulação genética em humanos é impensável?

Acho que já deve haver...

Faz-se experiências com animais...

Há vírus, plasmídeos próprios para favorecer a transformação de fibras, alterar a expressão de determinadas enzimas de metabolismo, para ativar células stem [estaminais] e promover mais massa tecidual... Se isto se faz com animais, quase de certeza se faz com humanos. Eu não sei, até porque é proibido, eticamente é reprovável. E tem o problema de neoplasias - não só das células somáticas, as germinativas também. Poderia transmitir-se pelas gerações seguintes. É como dar a uma criança um brinquedo complexo que não domina. Vai magoar-se.