Criador vs. Criação

Filipe Alexandre Dias

A utilização de robôs programados para antecipar movimentos é usada para ensinar jovens no treino de ténis de mesa

Pode um computador gizar táticas, sugerir estratégias, prever comportamentos e um dia "sentar-se no banco" para substituir treinadores nos mais diversos desportos? Nunca, dizem estes. Talvez, advogam estudiosos e cientistas. Sim, mas não na nossa era, defendem especialistas de outros vetores, que lhe dão mais meio século de espera. Pode o aperfeiçoamento de algoritmos dar à luz novas bases de dados e fazer com que estes processos de cálculo tornem obsoleto o trabalho de scouts, observadores e afins, perspetivando o potencial e de jogadores, decidindo contratações e definindo apostas? Porventura, mas a resistência persiste e a experiência humana continua a encarar os números no "combate". Há robôs capazes de praticar desporto e de o ensinar. Certo é que a inteligência artificial influi mais e mais na gestão desportiva e técnica, na elaboração tática. A máquina ainda não substituiu o homem, mas já o rodeia por todos os lados.

O JOGO ouviu académicos, treinadores, "data scientists", lembrou o exemplo que vem do futebol americano e reavivou a investigação em laboratórios portugueses. Tudo começa por números. Formado em Estatística e Gestão de Informação, Hernâni Ribeiro falou dos novos dias. O antigo "researcher" do jogo "Football Manager" e atual sócio da empresa GoalPoint contou: "A análise estatística dá inputs, mas não teremos o computador a dar ordens táticas. Contorna e sugere de forma calculada e rápida. O treinador é sempre importante porque há coisas que escapam aos números, que não sabem como o jogador se treinou durante a semana ou como se sente psicologicamente. O Manchester City tem departamentos de análise que aplicam estes inputs. Ao intervalo, alguém fala com o treinador ou com os próprios jogadores. Há clubes que autorizam o analista de performance a falar com os jogadores. Cá em Portugal, somos bons noutras coisas, mas nisso estamos uns passinhos atrás."

Treinador insubstituível... até ao "supercomputador"

Hernâni Ribeiro crê numa nova era daqui por meio século. Até lá, o homem suplanta a máquina, mas a criação pode ultrapassar o criador. "O papel do treinador vai ficando diferente. O treino precisará sempre dele, mas as equipas de análise têm uma tendência brutal para crescer e a aceitação para o fenómeno aumenta", defendeu, acrescentando: "A máquina pode ajudar a melhorar, mas os treinadores decidem planos iniciais de jogo. Em futebol, há treinadores que privilegiam a posse de bola, outros o contra-ataque - é filosófico. Nenhum treinador vai aceitar que uma máquina sugira uma mudança de 180º em relação àquilo em que acredita, mas se se disser ao computador o que se deve fazer para que a estratégia resulte, se os dados tiverem profundidade, podem identificar o mal. O conceito parte do homem, mas há estratégias e jogadas replicadas informaticamente, que podem resultar. Quem me diz que, daqui a 50 anos, um supercomputador não pode, com todos os dados, sugerir que jogadores, em que posições e com que movimentos podem aproximar a equipa da vitória? Aí, talvez os clubes procurem o melhor engenheiro informático ao invés do melhor treinador. Não será na nossa era, mas pode vir a acontecer."