Euclides e Aristóteles vão à Luz

Euclides e Aristóteles vão à Luz

O que lá vai já foi. Na Catedral da Luz, temos de dar uma lição de bem receber aos nossos amigos alemães

Foi uma descortesia monumental. Ainda estávamos a sair do balneário, praticamente, e já um atleta tatuado do Bayern empurrava a bola para a nossa baliza imaculada. Mesmo sabendo da tendência que o alemão típico (essa figura imaginária mas reveladora) tem para confundir cortesia com mero cumprimento da lei, parece-me indesculpável. Então aquilo é modo de receber uma equipa como o Benfica?

Depois desse embasbacado minuto, o jogo foi difícil, claro - o portento bávaro sob a batuta do arquiteto Guardiola é uma espécie de La Pedrera com um motor BMW -, mas o Benfica também podia ter feito golo. (Se, naquela jogada em que o Jonas conseguiu furar a defesa para um frente a frente com o Manuel da baliza alemã, o pé do brasileiro tem virado um nadinha, a esta hora estaria aqui a compor decassílabos, poemas épicos, caros amigos!...)

Mas o que lá vai já foi. Agora, é olhar em frente: quarta-feira, na Catedral da Luz, temos de dar uma lição de bem receber aos nossos amigos alemães. Envolver os milionários de Munique no nosso abraço de futebol-alegria e buscar caminhos para a baliza do Manuel que não passem pela bota do Jonas, castigado pelas cartolinas da UEFA. É um problema, pois. Mas, como sabemos pelo menos desde Euclides e Aristóteles, sem problema não há avanço. E, por falar em Euclides, que geometria nos levará aos golos na Luz: colocar Mitroglou como ponta de lança fixo ao centro com um elenco de artistas atrás ou juntar Jiménez ao grego para uma dupla inédita? E, por falar em Aristóteles, que filosofia nos atirará para as meias-finais: ataque continuado e bola no pé mostrando aos convidados que em nossa casa mandamos nós ou pressão alta e contra-ataque relâmpago para aproveitarmos os nossos rapidíssimos virtuosos?

Entretanto, há o campeonato. De regresso de Castelo Branco, onde fui falar de escrita (isto é, de tudo), ouço o relato na rádio. E como sofro... É como se a estrada e a voz do locutor formassem uma única linha que se enrola, que se complica, e nunca mais me entrega no destino. Só ao chegar a casa é que a coisa se desata com o golo exclamativo de Jiménez. Viva! Depois do final feliz, até consigo dizer que foi bom o toque de drama, que estas vitórias têm um sabor especial. Mas, caros artistas do Glorioso, permitam-me um pedido: quarta-feira, podem não deixar a coisa para os minutos cardíacos, por favor?

AO DOMINGO, NA EDIÇÃO IMPRESSA E E-PAPER, A OPINIÃO DE JACINTO LUCAS PIRES

AO DOMINGO, A MELHOR OPINIÃO DESPORTIVA: Álvaro Magalhães, Carlos Tê, Duarte Gomes, Jacinto Lucas Pires, João Ricardo Pateiro, Jorge Costa, José João Torrinha, Manuel Queiroz, Miguel Pedro, Paulo Baldaia e Rui Barreiro.