
O que têm em comum a modalidade e a saúde masculina? Tudo! Sobretudo a necessidade de fintar, seja o adversário, seja o cancro. Por essa razão, os torneios organizados pela Rutis, a rede de universidades da terceira idade, foram selecionados para divulgar a mais recente campanha de sensibilização para os problemas da próstata.
Pouco passava das 9h00 quando os primeiros autocarros provenientes de vários pontos do país, sobretudo da região norte, estacionaram em redor do Estádio do Gulpilhares, em Vila Nova de Gaia. Do aconchego dos bancos saltaram entusiasmadas várias equipas de jogadores confrontando-se à saída dos veículos com a manhã fria. "Já aqueces", disparou alguém no grupo constituído maioritariamente por idosos de ambos os sexos, ainda que os homens estivessem em maioria. Dirigiram-se ao pavilhão para onde estava marcada na manhã da última terça-feira (3 de dezembro) uma nova ronda de jogos de "walking football" (WF) organizados pela Rutis. Esta vertente do futebol foi idealizada para quem já não o consegue praticar normalmente devido à idade. Os regulamentos dizem que não se pode correr, nem levantar a bola acima da linha da cintura e as equipas de seis jogadores têm de ter, pelo menos, uma mulher.
Às 10 horas, quatro equipas, duas em cada metade do grande pavilhão anexo ao estádio estavam já a dar início à jornada. Enquanto isso, os elementos das restantes formações divertiam-se à volta dos retângulos de jogo a observar e a gracejar com os adversários. Mais do que um desporto o WF é uma festa que promove a saúde, através do envelhecimento ativo e interação social. Foi este conceito que despertou o interesse da farmacêutica Johnson & Johnson Innnovative Medicine para uma campanha de sensibilização em parceria com a Rutis, Associação Portuguesa de Urologia e a Associação Portuguesa de Doentes da Próstata.
O walking football nasceu em 2011, em Inglaterra, e chegou a Portugal em 2017. É uma modalidade destinada a pessoas com mais de 50 anos. As equipas são formadas por seis jogadores sem guarda-redes. O terreno de jogo é semelhante ao de futsal, com balizas de três metros por um metro, muitas vezes adaptadas. A bola não pode elevar-se acima de um metro de altura. É proibido correr, regra difícil de cumprir e quando quebrada, é assinalado pontapé livre para o adversário. Atualmente existem, em Portugal, 92 equipas e cerca de 980 jogadores distribuídos pelo continente e ilhas.
Sensibilizar e prevenir
"Esta modalidade é uma excelente maneira de promover a saúde do homem", explica a O Jogo, Pedro Nunes, presidente dos urologistas. "A atividade física e o combate ao sedentarismo fazem parte dos pilares fundamentais da saúde masculina. Estas iniciativas são ideais para sensibilizar não só os homens, mas também as autoridades de saúde para a importância deste tipo de patologia". Nunes foi um dos jogadores que integrou naquela manhã a equipa da Johnson & Johnson formada com alguns parceiros participantes na campanha. Outro "atleta", João Condeixa, Diretor de External Affairs da Johnson & Johnson Innovative Medicine, acrescentou explicações ao propósito da iniciativa. "Queremos sensibilizar para as doenças da próstata, em especial para o cancro, e são precisamente estas pessoas que devemos alertar para a necessidade de realizar o diagnóstico precoce".
A associação com o WF da rede de universidades seniores garante à farmacêutica levar a mensagem a vários torneios ao longo do país, envolvendo em média, por cada dia de competição cerca de 100 pessoas. Em cada recinto são distribuídos folhetos informativos sobre as doenças da próstata e os sintomas a que se deve dar atenção. "Nesta campanha desenvolvemos também dois webinars que podem ser vistos por qualquer membro da Rutis. São 45.000 associados, o que demonstra a importância da parceria que estamos a desenvolver", acrescentou o responsável da Johnson & Johnson lembrando também a série de newsletters em distribuição onde se apontam os diferentes mitos relacionados com a próstata, desde a questão da incontinência urinária à disfunção sexual. "São mitos muito enraizados e que, muitas vezes, levam a que os doentes com medo não sigam para uma consulta médica".
Adiar o rastreio é a pior das opções. Chegar tarde ao médico representa em muitos casos quadros clínicos já muito complexos e, por vezes, sem solução. Urologista há 25 anos, Pedro Nunes confirma, mas tenta tranquilizar: "Há muitos cancros da próstata que até são indolentes. Temos atualmente uma panóplia de exames de diagnóstico e tratamentos que podemos oferecer ao homem e que quebram o tabu de que o cancro da próstata e respetivos tratamentos põe em causa a masculinidade do homem. Penso que cada vez menos devemos ter medo disso e, por isso, incentivamos os homens a não recearem estes problemas". Silencioso por natureza, o cancro da próstata é, numa fase inicial, doença que passa despercebida e sem dar queixas, por essa razão é importante que qualquer homem, a partir dos 50 anos, procure o médico para fazer o diagnóstico.
Jogar para fintar o cancro
Emanuel, de 63 anos, agora a descansar após a primeira partida de walking football já realizada, é o protótipo do homem que médicos e especialistas tentam sensibilizar para a causa.
Em pé, junto à linha lateral, predispõe-se a trocar algumas palavras para o assunto. Mas foi preciso ser convencido. "Ainda não sou velho e nem quero ouvir falar disso da próstata. Sinto-me bem". Por instantes, sente-se-lhe algum embaraço. "Bem, na verdade ando a notar que tenho de me levantar cada vez mais vezes durante a noite para urinar." Ainda mal a conversa tinha começado e já a mulher de Emanuel se aproxima curiosa. Logo que percebe o assunto exclama: "Ele é um medroso!" Ri-se. "Espero que o meu marido lhe esteja a contar as nossas conversas sobre a próstata e os meus avisos repetidos para ir ao médico e fazer os exames". Maria tomou, entretanto, as rédeas da conversa e explica que anda a tentar convencer o marido, mas tranquilizando-o, ao mesmo tempo, porque andou a ler sobre o tema. Sempre que pode acompanha-o e ficou satisfeita por saber que os jogos da Rutis passaram a ter o apoio da campanha "Não Fiques Fora de Jogo".
Tal como a participação das mulheres no walking football é importante, seja a jogar ou simplesmente a acompanhar os parceiros, também no acompanhamento da saúde masculina são muitas vezes decisivas, sobretudo no modo de abordar abertamente os problemas. José Graça, vice-presidente da Associação de Doentes da Próstata, dá o exemplo das figuras públicas. "A mulher fala abertamente no cancro da mama. Os homens não fazem isso relativamente à próstata. Vemos figuras públicas femininas abordarem o cancro da mama, mas os homens são muito relutantes relativamente a darem a cara por este assunto". João Condeixa acrescenta ainda que "as mulheres estão muito habituadas a serem seguidas desde cedo por médicos, o que já não acontece com os homens que normalmente só vão ao médico já muito tarde. É preciso quebrar este ciclo e trazer este assunto também para as conversas entre pais e filhos, para acabar com o estigma de que o homem que se queixa e procura ajuda, não é um homem com h grande".
A análise PSA é o um dos pilares fundamentais do rastreio do cancro da próstata. Deve ser feita por todos os homens a partir dos 50 anos independentemente dos fatores de risco individuais, nomeadamente história familiar e etnia.
A experiência na primeira pessoa
Já depois de também ter alinhado num dos momentos do jogo entre a equipa da próstata, como foi designada a formação mista da Johnson & Johnson, e o conjunto que veio da Guarda, José Graça conta a experiência que tem vivenciado desde que há 20 anos foi diagnosticado com este cancro. "Acima de tudo os homens têm medo. Pensamos que ir ao médico é ir descobrir problemas, quando na verdade é confirmar a saúde. Tive esse problema e mudei muito. Depois do rastreio comecei a ser muito mais cuidadoso, felizmente fui atempadamente ao médico. Calcula-se que 85% dos casos descobertos a tempo são resolvidos, como foi o meu". O elemento da associação de doentes alerta para alguns sintomas a que é preciso dar atenção. "As micções muito frequentes durante a noite podem ser um sinal, mas atenção: só os médicos podem e devem diagnosticar os problemas de saúde". Graça lembra que há sintomas que apenas podem revelar o aumento da próstata, o que não significa necessariamente complicações mais graves, como é o caso da hiperplasia benigna da próstata que, no fundo, é o aumento da próstata, ou a prostatite, uma inflamação da glândula. "É o despiste desses sinais que é preciso fazer".

Driblar mitos
Queixas urinárias significam cancro da próstata?
O cancro da próstata não dá queixas urinárias ou queixas locais, pelo menos nas fases iniciais. Muitas vezes, o cancro da próstata não apresenta sintomas e, quando ocorrem, é sinal de que o tumor já está em estado grave e avançado.
As doenças da próstata significam perda de ereção?
As doenças da próstata, sejam benignas ou malignas, não se traduzem obrigatoriamente em alterações na ereção, ainda que algumas alterações do aparelho urinário podem alterar a dinâmica sexual, do desejo ou da ejaculação;
Não há sexo após o cancro da próstata?
Atualmente é possível assegurar que a maioria dos doentes retomam uma função eréctil gratificante ao fim de alguns meses.
Cirurgias da próstata levam à disfunção eréctil?
Tumores benignos e o cancro da próstata são doenças diferentes e também as cirurgias necessárias são diferentes. As intervenções realizadas em quadro de tumores benignos desenham-se para aliviar as queixas urinárias e atuam longe dos mecanismos de ereção. No tratamento do cancro da próstata, a cirurgia exige a remoção total da glândula, pelo que pode existir alguma interferência na continência urinária e na função eréctil;
O cancro da próstata só aparece em idades muito avançadas?
Quatro em cada dez casos de cancro da próstata são diagnosticados em homens com menos de 65 anos. Se houver história familiar ou pertencer a uma etnia com maior incidência deste cancro, deverá iniciar o despiste mais precocemente - a partir dos 45 anos de idade.

Linha avançada para atacar
O cancro da próstata é o quarto cancro com maior incidência no mundo e o segundo com maior incidência no homem. O GLOBOCAN 2025, a base de dados da Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro, estima que, em média e por ano, cerca 7.500 homens são diagnosticados com cancro da próstata, mas que a maioria não irá falecer devido à doença. Ainda assim, por ano, mais de 2.100 homens irão morrer com cancro da próstata em Portugal. A análise do PSA (Antígeno Prostático Específico) é o primeiro passo de uma linha avançada para diagnosticar e dar um chuto na doença. Trata-se de um exame de sangue simples que mede os níveis da proteína produzida pela próstata, fundamental para o rastreamento e diagnóstico precoce de problemas, principalmente o cancro. Ao PSA juntam-se ainda os exames de imagem e a avaliação física do toque retal que permite avaliar o tamanho, a forma e a textura da próstata procurando nódulos ou zonas duras que podem indicar a doença, sendo crucial na deteção precoce, mesmo quando o cancro é assintomático.
Atacar cedo é a melhor estratégia, tal como se viu também nos dois campos do pavilhão de Gulpilhares. Passava pouco do meio-dia quando soaram os últimos apitos dos árbitros. Estava concluído mais um torneio Rutis de walking football. A campanha "Não Fiques fora de Jogo" já começou a sensibilizar consciências. Entre a prática desportiva saudável e as conversas de amigos é mais fácil acabar com os receios, mitos e desconhecimento sobre as questões da próstata.

