Há qualquer coisa de psicólogo no recém-eleito presidente do Paços de Ferreira e não é pela existência na Mata de Real de uma eventual poltrona semelhante à que Sigmund Freud oferecia aos seus pacientes. Afamado empresário ligado ao ramo mobiliário, Carlos Barbosa arranjaria em três tempos uma réplica, mas só em caso de absoluta necessidade e não seria para seu usufruto seguramente, porque desde que resolveu mostrar os seus dotes de estimulador de espíritos, na qualidade de dirigente, sempre dispensou ambientes artificiais, a inspirarem conforto e a exalarem cheiros a incenso, propícios a eventuais exercícios de hipnose. Com Barbosa, as armas são outras e podem ser aplicadas em qualquer circunstância: boa-disposição, amizade e até apostas pessoais. Pelo clube, faz tudo, incluindo pagar do seu próprio bolso cada golo marcado pelos avançados, a partir de bases de licitação relativamente luxuosas: 50 e 100 euros.
Conta-se mesmo que Ronny e William, tantas vezes confrontados com essas potenciais gratificações, eram os que mais luta davam ao dirigente, e o clube saía obviamente a ganhar. Nem o antidepressivo Prozac será capaz de produzir melhores efeitos. Natural de Frazão, concelho de Paços de Ferreira, Carlos Barbosa cedo aprendeu a estimar o que é seu e dos outros ao trabalhar, juntamente com os seus quatro irmãos, numa empresa de transportes do pai, que, mais tarde, se dedicaria em exclusivo à comercialização de móveis. Em nome do trabalho, deixou os estudos relativamente cedo, sacrificando mais ou menos pela mesma altura os juniores do Paços de Ferreira. Era um extremo-esquerdo esforçado, pouco mais. Ficou a paixão pelo clube. Como dirigente, estreou-se na área das relações públicas durante a presidência de Hernâni Silva, outro profissional de mobiliário, sendo contemporâneo de Fernando Sequeira quando este era vice-presidente. Ambos tinham perfil de líderes e não foi por acaso que o antigo presidente propôs os nomes de ambos para o sucederem quando resolveu deixar o clube. Sequeira foi mais rápido a aceitar o desafio, mas fez questão de convidar Carlos Barbosa para assumir o futebol profissional, a meias com Jaime Sousa.
Com esta equipa, o Paços fixou-se em definitivo no escalão máximo, potenciando ainda mais a sua vertente de clube vendedor de estrelas e até atingindo uma final da Taça de Portugal. Nem a saída do indispensável José Mota fez abrandar o crescimento do clube. Com Paulo Sérgio e depois Ulisses Morais, a equipa nunca deixou de prosseguir a sua caminhada segura, em velocidade de cruzeiro, rumo aos objectivos traçados. Quatro anos volvidos, Sequeira passou a pasta e Carlos Barbosa só aceitou subir ao púlpito por uma razão: "Sempre demos provas de competência". Entre os críticos, Hernâni Silva parecia emergir como candidato, só não foi a votos em meados de Maio.
Amante da Porshe e do amarelo
A cor da moda para qualquer castor é o amarelo. Carlos Barbosa não fez a coisa por menos quando teve a oportunidade de comprar o seu primeiro carro de eleição, um Porshe Carrera. Actualmente, tem um cinzento, mas é mais fácil avistá-lo ao volante de um potente BMW X5, preto, adquirido durante um estágio de pré-época do Paços de Ferreira, em Celorico da Beira. Discreto por natureza, não é amante de ser apanhado muitas vezes pelas objectivas dos fotógrafos. Prefere ser convidado para jogos de damas ou cartas, para os quais já terá convidado os amigos Nelo Vingada e Vítor Oliveira. No caso do primeiro, um homem que não é do Norte, tudo começou com a venda de mobiliário ao actual treinador do FC Seoul, por influência do guarda-redes Pedro Roma.
