Valdemiro Cardoso: "O Agostinho disse-me: "Sou como o ferro..."

Valdemiro Cardoso: "O Agostinho disse-me: "Sou como o ferro..."
Ana Proença

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Fez sete Voltas a Portugal e andou no pelotão com as grandes vedetas dos gloriosos anos 60 e 70 do século XX. Valdemiro Cardoso, homem de Ovar atualmente com 69 anos, tem quase uma vida dedicada às bicicletas. Hoje fá-las por medida, como num alfaiate.

Valdemiro Cardoso é do tempo em que os ciclistas enchiam os bolsos de bananas e bolos de arroz para irem comendo durante as provas. Lembra-se que numa clássica Porto-Lisboa houve canja com frango desfiado para todos. Nunca passou de um ciclista de segunda linha, mas competiu com todos os grandes nomes nacionais e internacionais da década de 1960 e 1970, inclusive com o mítico Joaquim Agostinho.

De que mais se lembra de Joaquim Agostinho?

Lembro-me sempre de uma chegada a Setúbal num Grande Prémio Robbialac, em que chovia miudinho. O Joaquim passa por mim e diz-me: "Devo ser como o ferro, pois já caí cinco vezes e ainda não me magoei". E depois foi morrer daquela maneira estúpida [ndr: Joaquim Agostinho morreu em 1984 na sequência de uma queda na Volta ao Algarve, em que um cão se atravessou à frente da sua bicicleta].

É muito diferente o ciclismo do seu tempo do atual?

Totalmente. A chegada de uma prova de ciclismo parecia um Porto-Benfica em futebol. Atraía multidões, as ruas enchiam-se de gente. Acredito que a entrada, este ano, do FC Porto e do Sporting traga, de novo, os espectadores. Além disso, as tecnologias hoje são totalmente diferentes. Antes uma bicicleta chegava a pesar 12 quilos, pedalava-se à força bruta. Agora o ciclismo é muito mais tático e científico. Acho que no meu tempo arriscávamos mais.

Lance Armstrong é um herói ou um impostor?

Para mim é um herói. Os outros não andavam mais limpos do que ele. Não sou a favor do doping, mas tem de ser igual para todos. E todos estavam dopados. Mesmo assim, ele era o melhor. Se nunca o caçaram, é porque foi mais inteligente. Eu só o recrimino por ter assumido o doping, eu se calhar não assumia.

Durante a sua carreira nunca tomou doping?

Tomava estimulantes só quando sabia que não havia controlo antidoping. Sabia que os outros também tomavam e fazia-o por dinheiro. Na primeira Volta a Portugal que fiz, acho que me deram alguma coisa sem eu saber, pois deixei de conseguir dormir.

Como apareceu o seu gosto pelo ciclismo?

Fui influenciado por um irmão que estava emigrado na Venezuela. Chegou a ser 2.º classificado na Volta à Venezuela e quando eu tinha uns 17 ou 18 anos, mandou-me uma bicicleta de presente. Então fui fazer testes à Ovarense e fiquei.

O presente do seu irmão foi a sua primeira bicicleta?

Não. Já tinha uma pasteleira que usava para ir para o trabalho. Era trolha.

O ciclismo tirou-o das obras?

Pelo menos até ir para a Venezuela. Quando comecei a competir, empreguei-me numa oficina de motorizadas. Depois fui contratado pelo Benfica e pela Ambar. Fiz sete Voltas a Portugal. Lembro-me que, na minha primeira Volta a Portugal, comecei-a a pesar 54 quilos e no fim já só tinha 50. Era muito magrinho e, por isso, era bom nas subidas. Tive sempre boas classificações na etapa da Torre, na Serra da Estrela. Competi com os maiores ciclistas da época: desde o Agostinho ao Fernando Mendes, passando pelo Joaquim Leão, o Mário Silva ou o Sousa Cardoso.

Disse que, a certa altura, foi para a Venezuela. Foi ter com o seu irmão?

Fui porque após o 25 de abril muitas das equipas de ciclismo acabaram. E a Ambar foi uma delas. Convidaram-me para ir representar a União Ciclista de Portugal. Mas ao fim de um ano voltei. Não gostei nada daquilo.

Porquê?

Prometeram um pagamento e quando cheguei lá, era metade. Tive de ir trabalhar para as obras. Depois era um país violento, sem muita liberdade. Via-se pessoas mortas caídas nas ruas, assassinadas. Vivia num apartamento sem janelas. A minha mulher tinha ficado em Portugal e tinha acabado de ser pai...

Realmente, muitos motivos para regressar... Como começou a construir bicicletas?

Quando voltei a Portugal, ainda competi durante mais algum tempo. Como era muito polivalente, tinha trabalhado na construção civil e num departamento de pinturas, comecei a pintar as bicicletas da minha equipa. Além disso, sempre tive a mania dos quadros das biclas feitos por medida. Mandava-os fazer no Porto, mas vinham malfeitos e achei que conseguia fazer melhor se aprendesse a soldar.

Parece que funcionou...

Sim. Comecei a fazer quadros de bicicletas para outras pessoas e o negócio foi crescendo até ao que é hoje. É como ir ao alfaiate.