Ricardo Cabaça: "Ele recorre ao doping para se libertar"

Ricardo Cabaça: "Ele recorre ao doping para se libertar"

"28 Batidas" é uma peça de teatro sobre doping no desporto que é ao mesmo tempo uma reflexão sobre o corpo, os seus limites e desafios. "A glória forjada não vale de nada", diz o encenador Ricardo Cabaça

Ricardo Cabaça traduziu e encenou a peça "28 Batidas", um monólogo escrito pelo dramaturgo italiano Roberto Scarpetti sobre o tema do doping no desporto. A peça teve uma apresentação única no passado domingo no Centro Cultural da Malaposta, mas a ideia é que regresse brevemente, e de forma continuada, a outra sala de teatro do país. A interpretação está a cargo de Marco Trindade.

Porque escolheu fazer uma peça de teatro sobre o doping no desporto?

Procuramos temas fortes, que sejam mais fraturantes, como o doping, a ditadura, a guerra ou a questão dos refugiados. Quando li o texto do Roberto Scarpetti, fiquei fascinado. É um tema que está sempre muito presente, além de que adoro ciclismo, que é uma modalidade completamente minada pelo doping.

A peça conta a história de Giuseppe, um marchador que ganhou uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos e que é apanhado nas malhas do doping...

Ele competiu limpo, só nos Jogos Olímpicos seguintes, ao fim de quatro anos, é que decide dopar-se. Sofreu lesões, sente que já não é tão veloz... mas, no fundo, ele não quer competir, quer é ser apanhado no controlo antidoping antes da competição.

Como assim?

Ele recorre ao doping para se libertar da pressão gigantesca que sente, ele dopa-se para ser irradiado da modalidade. Como não consegue tomar sozinho a decisão de desistir, dopa-se para ser apanhado.

De que pressão se trata?

Ele sente que se transformou numa máquina. A vida dele é só regras. Há a pressão do clube, da federação, dos patrocinadores, a pressão dos treinos, da alimentação, da disciplina rigorosa, ao mesmo tempo a pressão que põe sobre si próprio para continuar a ser o melhor. A certa altura, ele diz que faz tantos quilómetros por dia a treinar que à noite, quando está a dormir, continua a sentir as pernas a mexer.

Não dá uma imagem nada positiva do desporto de alta competição...

É verdade. Mas é um alerta, é o pôr o dedo na ferida. E é também o pretexto para uma reflexão mais alargada sobre a manipulação do corpo humano, não apenas com objetivos desportivos.

De que forma me posso aceitar reconhecendo aquilo que sou?

Esta é uma das muitas perguntas que queremos deixar no ar. Não temos todos de ser os mais bonitos, os melhores e os mais bem-sucedidos. A peça fala também sobre aceitação. O doping
não é o caminho certo.

Porque se chama "28 Batidas"?

Porque o Giuseppe tem um ritmo cardíaco muito baixo: são 28 batidas por minuto. O seu corpo demora mais tempo a chegar à exaustão. E depois, quando se injeta com EPO, os seus batimentos aumentam logo... É um texto muito forte e flutuante. Facilmente se sente compaixão por este marchador.

Que mensagem deixa "28 Batidas" que possa ser útil para os agentes do desporto?

É um alerta para a pressão excessiva que é por vezes posta sobre os atletas. Sou contra o uso de doping, mas não podemos culpar apenas os atletas, pois há uma pressão enorme à volta deles. Quando falham, já não prestam. Mas a peça é também um alerta para todos os fenómenos a que temos assistido de manipulação da verdade desportiva. E, como sabemos, não passa apenas pelo doping, passa também pela pressão sobre os árbitros ou pela corrupção em organizações tão grandes como a FIFA.

Não receia que já estejamos num ponto de não retorno e que, nesse sentido, a sua mensagem seja demasiado ingénua?

É verdade, pode ser um pouco ingénua. Mas ao mesmo tempo tenho esperança; é importante continuar a lutar pela verdade. Gostava de poder envolver neste projeto entidades do mundo do desporto. A Autoridade Antidopagem de Portugal, por exemplo, ou outras organizações que pudessem trazer miúdos a ver a peça de teatro. Tragam miúdos, jovens atletas, para verem que a glória forjada não vale de nada. Não temos todos de ser os melhores e devemos aceitar as nossas fraquezas.

Sabe porque Roberto Scarpetti escreveu este texto?

Ele gosta de desporto e interessou-se pela questão da verdade no desporto. Antes de escrever este argumento, ele tentou conversar com alguns jogadores do Barcelona. Queria ter tido a opinião do Messi sobre o doping, mas do Barcelona responderam-lhe que o doping era um tema com o qual os jogadores do Barcelona nada tinham a ver.

SAIBA QUE

"28 Batidas" é inspirada na história de Alex Schwarzer, marchador italiano, campeão olímpico em Pequim"2008, apanhado por uso de EPO no início de 2012. Já não foi aos Jogos de Londres.