"Quem está ao meu redor sabe das minhas dificuldades"

"Quem está ao meu redor sabe das minhas dificuldades"
Ana Proença || Fotos: Fábio Poço

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Garante ser o atleta mais medalhado do mundo, com 177 medalhas internacionais e acabou de angariar, através do crowdfunding, mais de 11 mil euros para a sua preparação paralímpica. Em novembro fundou o Sport Clube Lenine Cunha, com o objetivo de dar apoio a outros jovens que, como ele, precisam de ajuda para poder fazer uma carreira desportiva. Há quem questione se tem efetivamente uma deficiência intelectual. Lenine Cunha, 32 anos, responde.

Lenine Cunha volta amanhã aos treinos, depois de umas curtas férias, para preparar a próxima época. "Não perdi muito a forma física", comenta o saltador, que no mês passado sagrou-se, no Catar, campeão do mundo de triplo salto na categoria T20, ou seja, para atletas com deficiência intelectual. A nova temporada vai incluir um Mundial, um Europeu e uns Jogos Paralímpicos onde o atleta de Vila Nova de Gaia lutará por medalhas.

quem ponha em causa a sua deficiência intelectual. Já ouvi gente a dizer que devia competir com Nelson Évora e não com os paralímpicos...

Já estou habituado a isso. Quem está ao meu redor sabe das minhas dificuldades. Depois do escândalo dos falsos paralímpicos na equipa de basquetebol espanhola, que participou nos Jogos de Sidney 2000, tivemos de fazer novos exames. Entre 2009 e 2012, fui sujeito a muitos exames psicológicos e físicos. Só a nível internacional fiz cinco. E colocaram-me na categoria T20, que inclui todos os atletas com deficiência intelectual. Já é para toda a vida.

Mas quais são as dificuldades que sente?

Dou um exemplo: já tentei tirar a carta de condução cinco vezes e nunca consegui. Não consigo memorizar nada. Com a meningite que tive aos quatro anos perdi a fala, a memória, afetou-me também a audição e a visão. Ainda hoje, só vejo 25% do olho esquerdo. Fui para a escola sem saber falar e tive de ter aulas de apoio a todas as disciplinas. Não memorizava nada. Felizmente a minha mãe sempre puxou muito por mim, ensinou-me a ser uma pessoa independente e interessada por aprender. As pessoas não notam deficiência porque os assuntos de que falo regularmente na minha vida são aqueles em que sou bom.

Como surgiu a ideia de fundar um clube com o seu nome?

A ideia já tem cerca de cinco anos. Inicialmente pensava nisso apenas para o final da carreira. Quero ser treinador quando deixar de competir. Já tenho o curso de grau I para o desporto adaptado e quero também fazer o da federação. Entretanto, como os Jogos Paralímpicos de 2016 deverão ser os meus últimos, pelo menos com ambição de medalhas, achei que seria uma boa oportunidade para dar visibilidade ao clube. Eu e a Cláudia Santos já estamos inscritos para a nova época pelo Sport Clube Lenine Cunha.

Onde vai funcionar?

No Estádio Municipal de Gaia. Vamos ter formação depois dos Jogos Paralímpicos. E não apenas para atletas com deficiência ou só em atletismo. Estamos abertos à comunidade em geral e queremos ajudar os jovens a iniciarem, retomarem ou prosseguirem as suas carreiras desportivas.

Quem está consigo neste projeto?

Tive de arranjar pessoas para me apoiarem nos órgãos sociais e com todas as burocracias. Disso não percebo nada. O meu "manager" Daniel Alves Oliveira tem sido incansável, bem como o Pedro Ribeiro, que é especialista em "network" empresarial.

Estive consigo pela primeira vez em 2002, já lá vão 13 anos, no Campeonato do Mundo de Atletismo para Deficientes, em Lille, França. Lembro-me que lidava mal com o falhanço, fez uma birra enorme porque uma das provas não lhe correu bem...

Mudei bastante desde essa altura. Cresci e amadureci muito. Sabe como é, os jovens às vezes baldam-se um bocadinho. Principalmente desde a morte da minha mãe, em março passado, estou mais concentrado e dedicado. Não me exalto tanto. Vejo a vida de outra maneira.

Deveu-se à sua mãe todo aquele choro na cerimónia de entrega do título mundial de triplo salto, no mês passado, em Doha, no Catar?

Sim. Foi um descarregar grande de emoções. Tive um ano muito difícil. Perdi a minha mãe em março, ela era o meu pilar, a minha melhor amiga e maior fã. Estive dois meses parado. Depois, lá tive forças para regressar aos treinos e vieram as lesões. Muitas. Nos últimos dois meses treinei no duro, passei muitas horas a treinar sozinho, e acabei - nem sei explicar como - por fazer marcas que não esperava. Os 7,08 metros do concurso de salto em comprimento tiveram um sabor agridoce. Por um lado, já não passava dos sete metros há sete anos; por outro lado, fiquei em quarto lugar.

Depois, vingou-se com o ouro no triplo salto, com a marca de 14,16 metros.

Sim. Mas infelizmente os Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro não vão ter prova de triplo salto. Vou ter de apostar nas outras especialidades [ndr: salto em comprimento, heptatlo e pentatlo].

E medalhas? Promete? Li umas declarações suas em que dizia que para o ano ganhava de certeza uma medalha nos Jogos.

O que prometo é fazer tudo para ganhar. Vou dar não 100 mas 1000%. Vou dar tudo o que tenho e não tenho.

Um canal televisivo tem anunciado a reportagem "Querer é Poder", sobre "de que massa são feitos os campeões". Na apresentação dá para ver Lenine ao mesmo nível de Cristiano Ronaldo, Nelson Évora ou Telma Monteiro. Como se sente a ser colocado neste patamar de herói nacional?

Quer que seja sincero? Já estava na altura! Só fico triste por estar a ter esta visibilidade no final da carreira. O Cristiano Ronaldo pode ser o melhor futebolista do mundo, mas eu também sou o atleta mais medalhado do mundo.

Voltando um pouco ao início da conversa, às críticas de que é alvo, neste caso de que os paralímpicos são alvo, há quem diga que é fácil ganharem medalhas porque existe pouca competitividade nas provas para atletas com deficiência.

Não temos culpa de não existirem mais atletas nas provas... Mas olhe que nestes Mundiais do Catar, éramos 19 a disputar o concurso de salto em comprimento.

De onde lhe vem tanta autoconfiança?

Não sei. Talvez a uma vida dedicada ao desporto. Este ano, poderia ter tido apoio psicológico, mas não quis, superei-me sozinho. Isto é a minha vida, amo o atletismo, é o que sei fazer!

CARREIRA EM "AUTOGESTÃO"

Lenine Cunha diz que até há cerca de três meses, quando arranjou um "manager", sempre foi ele a procurar os apoios financeiros para poder viver apenas do atletismo. "Um dia, estava a ver televisão e vi o anúncio de um banco que ainda não tinha contactado. Às duas da manhã, mandei-lhes um mail e no dia seguinte tinha a resposta a chamarem-me para uma reunião", conta sobre um dos patrocinadores que o apoia há quase oito anos. "Eu é que tenho feito tudo ao longo deste anos todos em que faço competição. E se não fosse eu a colocar notícias na minha página da Facebook, não se sabia de muita coisa", sustenta o atleta que diz receber 386 euros de bolsa do Comité Paralímpico por ser atleta medalhado. "Só a minha renda de casa custa 340", acrescenta.

SAIBA QUE

Lenine Cunha faz parte da lista de atletas paralímpicos portugueses integrados no projeto de preparação para os Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, Brasil, que se realizam entre 7 e 18 de setembro de 2016, poucas semanas depois dos Jogos Olímpicos. São 39 os atletas mais três equipas, distribuídos por três níveis (Lenine está no nível 2) a desfrutar, nesta altura, de apoio nas modalidades de atletismo, natação, boccia, ciclismo e tiro. Para os Jogos Olímpicos, por sua vez, são 63 os atletas integrados na preparação patrocinada pelo Comité Olímpico de Portugal.

200

Lenine Cunha apresenta-se como o atleta mais medalhado do mundo com 177 medalhas internacionais, a última das quais no mês passado, em Doha, no Catar, onde se sagrou campeão do mundo do triplo salto na categoria T20 (deficiência intelectual). O saltador acredita que pode chegar às 200 medalhas e até já tem uma previsão. "Estou convencido de que chego às 200 em março de 2017", afirma. "Aos 32 anos continuo muito bem fisicamente. Vou competir até quando o meu corpo deixar", acrescenta.

(Entrevista publicada na edição 481 da revista J, de 22 de novembro de 2015)

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