Paulo Catarino: "Não é a correr muito que se ganha jogos"

Paulo Catarino: "Não é a correr muito que se ganha jogos"
Ana Proença

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Paulo Catarino, 44 anos, natural de Setúbal, não vai pendurar as chuteiras enquanto não chegar aos 300 golos. Só lhe faltam sete, tendo no passado domingo pelo Palmelense, acrescentado mais um às contas que, no final, se traduzirão num único nome: Etelvina

Paulo Catarino não é especialista em números, mas no que toca à sua carreira futebolística sabe-os todos: já passou por 27 clubes, teve 40 treinadores diferentes, foi operado cinco vezes a mazelas várias e, quanto a golos, no passado domingo fez o seu 293.º golo. Só mais um dado: Paulo Catarino vai fazer 45 anos em março.

Andava já há alguns anos a dizer que queria chegar aos 300 golos, mas acabou por ter de parar de jogar na época passada. De repente voltou, ao serviço do Palmelense, da II Distrital.

Pensava que já não ia jogar mais. Nesta idade não é fácil. Quase no fim da temporada passada convidaram-me para treinador adjunto do Torrense e já não acabei a época no Quinta do Conde. Agora, o Flávio, com quem já tinha trabalhado no Fabril, deu-me esta oportunidade no Palmelense.

E marcou logo na estreia, no domingo passado, ao fazer o 2-0 frente ao Luso do Barreiro, nos descontos.

[risos] Correu bem. Entrei a 15 minutos do fim e num cruzamento pela direita, apareci ao segundo poste! Foi o 293.º golo da minha carreira e mais um que foi para a pasta que tenho de recortes de jornal. A Imprensa de Palmela fez notícias.

Mantém a meta dos 300 golos para deixar de jogar?

Sim. Gostava de chegar lá, para poder dedicá-los à minha rainha, que é a minha falecida mãe. Como é público, eu sempre fui doido pela minha mãe e sempre quis dedicar-lhe essa marca [ver em baixo "Saiba que"].

Acha que consegue chegar ainda nesta época a essa marca?

Não sei bem, porque só vou jogar quando o calendário do Torrense o permitir. Mas se conseguir jogar umas dez partidas, acho que chego lá.

Por que ainda joga futebol à beira de completar 45 anos?

Estive quase um ano parado e sentia muito a falta dos treinos, dos golos. O futebol é a minha vida, enquanto conseguir jogar e me derem essa oportunidade vou continuar.

E que diferenças sente em relação ao que jogava há dez anos?

Só fisicamente, como é óbvio, mas mentalmente continuo com a mesma vontade, nada mudou. Sempre fui muito inteligente na gestão física. Não é a correr muito que se ganha jogos. Penso primeiro, tento antever o que vai acontecer. Se há um passe longo, avalio, só vou às bolas que acho que consigo alcançar. Além disso, sou um avançado de área. Os últimos 30 metros do terreno são a minha praia.

E nos treinos consegue acompanhar os mais jovens?

Sem problemas. Treino três vezes por semana igual a eles. Sou do tempo em que os treinadores faziam treinos físicos, sem bola, muito duros. Subíamos montes, escadas, íamos correr para a praia... Hoje, isso praticamente não acontece, os treinos são mais leves.

No balneário, como é?

Sou igual ou pior do que os miúdos. Estou sempre pronto para a brincadeira, sempre fui o chamado palhaço do balneário.

Tem cuidados especiais, tendo em conta a sua idade?

Não tenho tempo para ir ao ginásio, mas tenho a mesma disciplina que tinha quando era jogador profissional. E só assim é possível continuar. Nunca bebi, nunca fumei, raramente saio à noite. Na alimentação, gosto muito de doces, mas tento controlar-me.

Não costuma ter lesões?

Ao longo da minha carreira, fui duas vezes operado aos joelhos, uma vez à coluna, outra a um braço e tive ainda uma fratura no nariz. Passo épocas inteiras sem pôr os pés no posto médico. Estamos a falar de 22 anos de carreira profissional e 27 clubes [ndr: o Vitória de Setúbal foi o único da I Liga, em 1999/2000].

Segundo li, começou por jogar a médio-centro e só se tornou avançado quando já era sénior...

Ainda não era profissional, foi no Quintajense que a equipa ficou coxa no ataque e o treinador meteu-me na frente. E descobri este dom. Não tenho dúvidas de que marcar golos é um dom com que se nasce.

Ainda é adepto ferrenho do FC Porto?

Sim. E sou sócio. Acho que já nasci com esta paixão pelo FC Porto. Só me deu alegrias e não é por esta fase menos boa que vou esmorecer. Acredito que rapidamente vamos regressar aos títulos. A partir do momento em que assinei pelo V. Setúbal, o meu pensamento era chegar ao FC Porto, infelizmente as coisas não correram bem, não aconteceu, mas não tenho nenhuma frustração por isso.

SAIBA QUE

Há cerca de dois anos, Paulo Catarino foi contar a sua história ao programa "Agora nós", da RTP. Não tanto pela sua carreira no futebol, antes pela forma como se dedicou a tratar da sua mãe Etelvina, doente de Alzheimer, entretanto já falecida. "Deixei tudo e tomava conta dela 24 horas por dia", conta. Ao mesmo tempo, Catarino ia partilhando no Facebook vídeos engraçados com a sua "rainha", mantendo sempre um espírito positivo, apesar dos dias difíceis. "Sinto-me muito agradecido pela possibilidade que a vida me deu de ter tido uma mãe assim. Sem saber ler nem escrever, tratava de tudo, sem nunca se esquecer de transmitir amor e afeto aos filhos."