"Os penáltis não são uma questão de sorte"

"Os penáltis não são uma questão de sorte"

Ricardo Pereira tem os cursos de Educador de Infância e de Psicologia Clínica, tendo exercido ambas as profissões até há cerca de sete anos, quando passou a dedicar-se a tempo inteiro a ser treinador de guarda-redes.

Tem os cursos de Educador de Infância e de Psicologia Clínica, tendo exercido ambas as profissões até há cerca de sete anos, quando passou a dedicar-se a tempo inteiro a ser treinador de guarda-redes. Começou por estagiar no Benfica, onde foi evoluindo até integrar a equipa técnica de Hélder Cristóvão nos bês. Aceitou depois o convite de Sá Pinto para o acompanhar no Al Fateh, na Arábia Saudita, e agora está de novo com o antigo internacional português, desta vez no Standard Liège, na Bélgica.

Como é que um treinador de guarda-redes comenta as três grandes penalidades defendidas por Bravo no Portugal-Chile?

Primeiro, quero dizer que os penáltis não devem ser considerados uma questão de sorte. Há por trás muito trabalho e estudo, para além de muita intuição e coração dos guarda-redes. E claramente Bravo deu a vida naquele momento. Houve ali também muita estratégia. Nos três penáltis, o Bravo usou diferentes indicadores nos momentos prévios à marcação para tentar desconcentrar e condicionar quem iria marcar. Num dos penáltis, a título de exemplo, deu um passo prévio para um dos lados, para depois voltar ao centro e sair para o outro. Sentia que era o Bravo que estava a comandar a situação.

Quais as especificidades do guarda-redes em relação aos jogadores de campo?

Uma delas é a da responsabilização individual a que está sujeito no seio da equipa, do clube e da sociedade. Nenhuma outra posição tem essa responsabilização individual, tem esse apontar de dedo tão forte, podendo ficar com a carreira marcada por um sucesso ou um fracasso. Há momentos do jogo em que o guarda-redes sabe que está completamente só e não pode dar aquela responsabilidade a mais ninguém.

É preciso também uma personalidade muito específica?

Não diria personalidade, antes características: a motivação intrínseca, a tolerância à frustração, a capacidade de resiliência, a inteligência. A coragem é, para mim, uma das características que mais distingue os guarda-redes de topo dos que não chegam lá. Nem todos têm a coragem de colocar o seu corpo à frente de tudo, correndo o risco de se lesionarem gravemente. O processamento de informação e a velocidade na tomada de decisão são também vitais. Um guarda-redes tem de ter um grande equilíbrio emocional e isso é que faz com que mantenha o foco, a atenção seletiva, que lhe permite a todo o momento ter o controlo dos seus pensamentos, porque está muito tempo a ver jogar. Dou-lhe um exemplo: nenhum guarda-redes pode relaxar quando a sua equipa tem um livre, um canto ou um penálti. O que ele já tem de estar a pensar e a comunicar é o equilíbrio posicional da equipa para evitar uma situação de contra-ataque. Não é para todos. Se tiver todas estas características, mas também não tiver as competências atléticas, físicas e técnicas, é difícil estar na alta competição.

Quando é que os treinadores começaram a perceber que fazia sentido existirem treinadores específicos para os guarda-redes?

Dois dos nossos históricos guarda-redes, o Damas e o Bento, foram treinadores de guarda-redes. Os clubes começaram a sentir a necessidade de aproveitar os antigos guarda-redes para a função. E nos últimos anos é das áreas do treino do futebol que mais têm crescido e acompanhado a evolução, seja no controlo ao nível das cargas, das imagens de vídeo... Somos obsessivos pela análise... É um trabalho de uma complexidade tão grande que nos obriga a ser obsessivos. Isto impediu que Portugal tivesse grandes guarda-redes no passado? Não. Se calhar não trabalhavam tanto a tomada de decisão, mas já decidiam globalmente bem.

Dê-me exemplos de guarda-redes que lhe encham o olho.

Petr Cech, Buffon, Oblak, Courtois, De Gea, Ederson. Há dois miúdos do Benfica que também destaco: o Bruno Varela e o André Ferreira. E depois o Rui Patrício, que se fez guarda-redes à custa de muito suor e trabalho e hoje é muito completo.

Encontra um denominador comum na maneira de ser dos guarda-redes com quem tem trabalhado?

Globalmente são miúdos com níveis de confiança elevadíssimos e com um grande ego, o que os ajuda muito.

Sabia que?

Quando Ricardo Pereira era guarda-redes, um dia parou um jogo da distrital de Setúbal para ir à casa de banho. "Jogava no Paio Pires, estava a ser massacrado, não saíam da minha área, tinha uns 38 anos e entendi que aquilo já era muito para a minha idade e nível de cansaço. Tive uns 10 ou 15 minutos na casa de banho dos balneários. E quando voltei, o jogo já tinha acalmado", conta, com humor, o agora treinador, que foi guarda-redes entre os 12 e os quase 40 anos, sempre em escalões inferiores. Mas como gosta de dizer: "Jogava a nível amador como se fosse profissional". "A gestão do tempo e do ritmo de jogo é uma coisa em que os guarda-redes têm de ser peritos. Têm de saber puxar o jogo para o seu lado", defende.