O homem que vai ligar França a Portugal em bicicleta sem parar

O homem que vai ligar França a Portugal em bicicleta sem parar
Ana Proença

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Paulo Almeida está a poucos dias de fazer 39 anos e prepara-se para ligar França a Portugal de bicicleta, parando só o mínimo para necessidades básicas. Quando foi de Torres Vedras a Valência, passou muito mal, mas desistir não foi opção. Nem nunca será

Será em Villenave d"Ornon, na periferia de Bordéus, em França, que Paulo Almeida dará início no próximo dia 29 a uma viagem de bicicleta que só parará em Torres Vedras, sua cidade natal, a 2 de julho. Serão quase 1300 km a pedalar. O dinheiro e os bens de primeira necessidade que conseguir reunir, numa chegada que pretende que seja épica, vão ajudar 70 famílias carenciadas de Torres Vedras, através da Cruz Vermelha.

Já pedala há muitos anos?

Não. Isto das viagens longas só tem um ano. Treinava no ginásio, mas estava sempre a interromper com telefonemas de trabalho ou pessoas a falar comigo. Há cerca de três anos pensei: "Tenho de sair destas quatro paredes." Uns amigos convenceram-me a comprar uma bicicleta para dar umas voltinhas. Primeiro estranha-se, depois entranha-se! Torres Vedras tem uma grande tradição de ciclistas e comecei a integrar-me em grupos. E descobri que até tinha jeito para a coisa.

Daí até pedalar quase 1300 km, como se está a preparar para fazer, vai uma grande distância...

O objetivo de quem se inicia nisto rapidamente passa a ser ir a Fátima e voltar. É uma clássica do ciclismo. Eu, como gosto de desafios, pensei logo que tinha de começar a elevar a fasquia, senão não tinha piada. Depois de Fátima, fui até Albufeira. Foram 310 km e pensei logo que tinha de fazer 400. E assim começou. Fez agora um ano que disse à minha mulher que ia sair, no dia seguinte, às cinco da manhã e não sabia a que horas voltaria. Fui a Badajoz.

Foi lá beber um café?

Isso [risos]. Cheguei a casa às 23h00. Não fiz 400 km, mas uns 490, o que significa mais umas três horas em cima da bicicleta. Depois foi sempre a aumentar.

Trabalhou como segurança, calculo que o seu treino no ginásio fosse muito mais de força e aumento de massa muscular. Como foi começar a fazer longas distâncias na bicicleta? São treinos muito diferentes.

Não tinha pernas nem peso para aquilo. O meu peso habitual era entre 93 e 95 kg, mas rapidamente comecei a perder peso. Agora tenho menos 15 kg. Fui adaptando o sistema neurológico a um esforço totalmente diferente. E correu bem. Se tivesse começado mais cedo, se calhar até tinha dado um grande ciclista.

O que lhe dá gozo nestas grandes distâncias?

Quem não gosta de treinar sozinho, jamais pensará em estar 10, 20 ou 30 horas em cima da bicicleta. No meu caso, gosto de ir a pensar na minha vida. É a vontade de me superar. Chego ao fim, penso que consegui e esse sentimento não tem preço. É uma grande realização pessoal. E gosto de fazer percursos míticos, com sentido histórico.

Sofre muito durante o percurso?

Claro que sim. Só se desfruta nas primeiras oito a nove horas a pedalar. A partir daí começam a vir as dores musculares, o desgaste físico, ficamos vazios, maldispostos, agoniados.

É nessa altura que pensa que nunca mais se volta a meter noutra...

Sim, por momentos pensamos em tudo. Para mim, não existe a palavra "desistir", mas passam-se momentos complicados, sobretudo quando vêm estas questões mais fisiológicas.

Como surgiu este desafio de ir até França sem paragens?

Depois de ir a Valência, em que fiz 1020 km, houve tanto movimento nas redes sociais, juntei tanto apoio ao desafio, que fiquei com o vazio de não ter aproveitado aquilo para ajudar alguém. Então, este desafio foi feito com o intuito de ajudar a delegação de Torres Vedras da Cruz Vermelha - vemos o trabalho que fazem junto de famílias da região.

Como se tem preparado?

O Hélder Miranda treina-me e apoia-me nestas loucuras, como ele diz. Às vezes torce um bocado o nariz, porque isto são coisas que levam o corpo ao limite, mas chegamos a um consenso. Cumpro aquilo que ele me diz, neste momento estou com uma carga muito elevada de treino; ontem fiz três horas, hoje cinco, amanhã seis, sempre a pedalar.

Não se preocupa com quedas ou atropelamentos?

Todos os dias sei de acidentes. Infelizmente há muito pouca tolerância com os ciclistas, é cultural, penso que pode melhorar com campanhas de sensibilização. Neste momento saio de bicicleta de casa e não sei se regresso: é quase como estar na guerra, todos os dias apanho sustos.

SAIBA QUE

Paulo Almeida tem consciência de que estes desafios que faz, com dias inteiros a pedalar, não fazem muito bem à saúde. De ninguém. Mas diz que enquanto for isso a dar-lhe prazer e a fazê-lo sentir-se realizado, vai continuar. As longas distâncias começaram apenas há um ano, mas em força. Em 2016 fez um total de 25 840 km e 906 horas em cima da bicicleta. Foi de Torres Vedras a Badajoz (489 km). Depois de Torres Vedras à Serra da Estrela (616 km). Seguiu-se a ida à Senhora da Graça (390 km). E ainda Chaves-Faro, percorrendo, sem paragens, os 726 km da Estrada Nacional 2. Terminou com a travessia ibérica até Valência (1020 km).