Nuno Moura: "No marketing é a equipa que vence. Como no futebol"

Nuno Moura: "No marketing é a equipa que vence. Como no futebol"
Ana Proença

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O sotaque denuncia as raízes nortenhas e, em algumas frases e expressões, já se notam os quatro anos que passou nos Estados Unidos, de onde veio recentemente para dirigir o departamento de marketing da Federação Portuguesa de Futebol (FPF).

Já se nota na sua pronúncia qualquer coisa de americano...

A sério? Eu dizia que não queria ficar como aqueles emigrantes que misturam as línguas numa única frase e parece que afinal corro esse risco... [risos]. Cheguei há muito pouco tempo, depois de dez anos a viver fora.

Tem ar de puto. Isso tem sido um ponto a seu favor ou contra?

Já várias pessoas me disseram isso, que parecia tão novo e já tinha feito tanta coisa. Fui para fora muito cedo. Estudei Ciências da Comunicação e a minha primeira verdadeira experiência profissional foram seis meses na SIC, como jornalista. Da SIC fui para a MTV Portugal e nessa altura surgiu o convite para ir para Londres. Decidi arriscar e ir à aventura.

Com 35 anos é diretor de marketing da Federação Portuguesa de Futebol. Qual o segredo do seu sucesso?

Pode soar a cliché, mas eu diria que é mesmo a dedicação e esforço que coloco em tudo o que faço.

Há tanta gente a dizer isso...

Ia completar a ideia: a característica a que juntava a isso é o facto de conseguir inspirar pessoas e fazer tudo com muita paixão. Não estou nas coisas só para picar o ponto. Se faço algo tem de ser perfeito...

Ser perfeccionista pode ser contraproducente.

É verdade, mas quando faço algo quero que tenha muito impacto, além de que gosto de conseguir contagiar um grupo de pessoas com uma ideia e tornar o ambiente de trabalho divertido e familiar.

Onde tem as ideias mais iluminadas?

A todos os minutos do dia estão a vir-me novas ideias, mas elas só contam se forem executadas a alto nível e bem recebidas. Já me aconteceu implementar uma ideia que estava tão à frente do seu tempo que, na altura, não resultou. E cinco anos mais tarde teve um impacto fenomenal.

Sei que faz muito desporto. Costuma ter muitas ideias enquanto está a treinar?

Por vezes é assustador, no ginásio tenho de pousar os halteres para ir rapidamente apontar uma ideia no telemóvel.

Acontece-lhe ter dias angustiantes, em que nada lhe vem à cabeça?

Sim. Há dias em que estou menos inspirado, mas não trabalho de forma isolada. Faço parte de uma equipa e fazemos sessões de brainstorm. Há uma palavra que gosto muito de usar: "empowerment". Mais do que delegar, é dar confiança, autonomia e inspirar a pessoa a captar todo o seu potencial. No marketing, como numa equipa de futebol, é realmente a equipa que vence. O segredo está muito nos pormenores.

Na campanha de apoio à Seleção Nacional "Não somos 11, somos 11 milhões", houve um deputado que disse que a FPF estava a ignorar os cinco milhões de emigrantes.

Há sempre vozes críticas em tudo o que se faz, não teria piada se não fosse assim. Eu vivi essa campanha como espetador e emigrante e adorei-a. Foi também um dos motivos porque quis vir para cá.

Aliás, assim que chegou foi à Grécia defender essa mesma campanha nos prémios de marketing da UEFA.

Os créditos não são meus, mas fiquei muito feliz de ter trazido o prémio [na categoria de melhor ativação de marca] para Portugal.

Já tem muitas ideias para a globalização da marca FPF?

Já tenho bastantes ideias, mas ainda estão em estado embrionário. Queremos chegar aos mercados internacionais com mais força, sem nunca esquecer que o nosso propósito principal é inspirar os portugueses e fomentar a prática desportiva.

Como lida com a pressão?

Muito bem. É o meu dia a dia, muitas ideias são bem recebidas, outras nem tanto, mas tenho, com as minhas equipas, conseguido entregar sempre algo que agrada. Há muitas ideias que nunca veem a luz do dia, só ao fim de muitas tentativas é que se encontra o que se estava à procura.


SABIA QUE
Nuno Moura é uma espécie de Cristiano Ronaldo do marketing digital. Com apenas 35 anos, tem um currículo já tão longo quanto invejável e prémios que o distinguem como um dos melhores do mundo na sua área. Liderou projetos internacionais para marcas como Coca-Cola, Fiat, Alfa Romeo ou Pantene, tendo passado os últimos anos ao serviço da Nike, onde chefiou campanhas para os Europeus de futebol de 2012 e 2016, Mundial de 2014 ou Jogos Olímpicos 2016. Trabalhou com Cristiano Ronaldo, Neymar e Ibrahimovic, entre outros. Natural do Porto, foi sempre também um praticante desportivo, com passagens pelo râguebi, andebol e futebol. "Qual a minha campanha mais louca? A do Mundial do Brasil. Fizemos coisas muito revolucionárias: lançámos app móvel, um projeto de realidade virtual, desenvolvemos uma nova linguagem visual para o futebol, os famosos emojis, hoje tão usados na Internet."