Nélson Lenho totalista na I Liga: o cabelo, as alheiras e os mimos de Chaves

Nélson Lenho totalista na I Liga: o cabelo, as alheiras e os mimos de Chaves
Ana Proença

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Rindo das brincadeiras dos colegas no balneário, por causa do cabelo comprido, e entre as alheiras e outras iguarias oferecidas pelos adeptos, Nélson Lenho, capitão do Chaves, jogou tudo o que havia para jogar, esta época, na I Liga. Foi o único a fazê-lo

Não sofreu castigos ou lesões incapacitantes. E nem a mudança de treinador, em dezembro, lhe alterou o estatuto. Não é muito comum um jogador de campo ser totalista no campeonato. Nélson Lenho, capitão do Chaves, foi o único jogador da I Liga a alinhar nas 34 jornadas sem nunca ter sido substituído. Para o lateral-esquerdo, de 33 anos, constitui uma vitória pessoal, naquela que era, segundo o próprio, a última oportunidade de se afirmar no primeiro escalão.

A experiência na II Liga deu-lhe pedalada para um campeonato tão intenso?

Fisicamente, sim. A II Liga é muito intensa em número de jogos. Na I Liga há mais tempo para recuperar e a exigência é diferente, mais mental do que física. A I liga tem de ser mais pensada.

Qual o significado de ter sido o único totalista da I Liga?

Provei a mim mesmo que era possível afirmar-me na I Liga. As coisas não correram bem no Leixões e no Penafiel, e fiquei sempre com aquele amargo de boca. Agora, tinha a última oportunidade de jogar na I Liga. Chegar e ser totalista do campeonato é uma vitória pessoal.

Por que diz a "última oportunidade" de jogar na I Liga?

Tive a sorte de o Chaves subir de divisão, não acredito que algum clube do escalão principal fosse apostar em mim com 32 anos.

As pernas já pesavam no final da época?

Sim, já começavam a querer parar. A nossa equipa ressentiu-se muito em termos emocionais após a eliminação da meia-final da Taça de Portugal, frente ao V. Guimarães [a eliminatória ficou 3-3, mas os vimaranenses tinham marcado fora]. Os jogadores já queriam que acabasse o campeonato, estavam esgotados.

Gere bem as derrotas?

Depois do jogo com o V. Guimarães, estava em casa sozinho e liguei ao Braga. Fui buscá-lo a casa e estivemos até à 1h30 dentro do carro, virados para o rio, a falar. O mundo tinha acabado para o Braga naquele momento, foi ele [a falhar um penálti nos descontos], mas podia ter sido outro qualquer. Se fosse lá o Ronaldo ou o Messi falhavam também, já não tinha de ser.

Tem feito quase toda a sua carreira a norte, com interregnos no Santa Clara e no Belenenses. É um homem do Norte? Isso existe sequer?

Quando joguei no Belenenses achei os jogadores mais macios, mais refinados. Aqui no Norte é aquela fibra, os jogadores trincam-se. Mas adorei jogar no Belenenses e adorava poder ter lá continuado.

Consegue passar despercebido em Chaves?

Não. As pessoas têm gosto e prazer em falar connosco. Nunca me senti tão bem como em Chaves, pela forma carinhosa como me receberam e tratam. Costumo dizer que em Chaves até se estragam os jogadores com mimos.

Está sempre a receber enchidos?

Ia dizer isso [risos]. Ainda agora, uns adeptos ligaram-me para ir buscar umas alheiras.

Sempre teve o cabelo comprimido?

Sim, desde muito novo, mas não o usava preso, achava que as pessoas iam pensar que eu tinha a mania. Foi a minha mulher que começou a dizer-me para o prender. Esta época, os meus colegas queria cortar-me o cabelo à força se chegássemos à final da Taça de Portugal [risos].

Gozam consigo no balneário por causa do cabelo?

Quando me estou a pentear ou a pôr o amaciador, cai-me bastante cabelo, eles gozam, dizem que estão num balneário de mulheres. Só quando deixar o futebol é que o corto. E até já sei como... Vai ser à homem [risos].

Com o avançar da idade, foi tendo a necessidade de ter mais cuidados com o corpo?

Sim. Passei a ter mais cuidado com a alimentação e com o descanso. Depois dos jogos não consigo dormir, fico muito excitado, mas durante a semana descanso muito, faço a sesta.

Se tem cuidado com a alimentação, então o que faz às alheiras?

Levo para a minha mãe e para a minha sogra [risos].

É capitão. Vê os jogadores mais novos a preocuparem-se com o futuro?

Há uns anos, estoiravam o dinheiro todo se fosse preciso. Agora, acho que se preocupam mais. Os mais velhos, como eu, o Braga ou o Ricardo, damos-lhes conselhos. Os miúdos chegam com uma coluna nova de 200 ou 300 euros, por exemplo, e dizemos que um dia o dinheiro pode fazer-lhes falta, que têm de gerir bem a carreira, pois é curta.

SAIBA QUE

Quando tinha 11 anos, Nélson Lenho foi levado pela mãe a treinar ao Vianense, em Viana do Castelo, de onde é natural. "Desde pequenino que jogava com o meu irmão na minha aldeia. Como eu era mais velho, inventava regras para lhe ganhar", recorda. Começou por ser avançado, ainda hoje a mulher, Daniela, brinca com ele por não marcar mais golos. "Diz que os marquei todos na infância... Está sempre a pedir-me golos e eu digo-lhe para me pedir um cruzamento", conta, entre risos. Se não tivesse vingado como futebolista, Nélson gostava de ter sido inspetor da Polícia Judiciária. Agora, com 33 anos, os planos são outros. Quando terminar a carreira, quer ser dirigente desportivo ou empresário de futebol.