"Não quero que me confundam com o presidente do Sporting"

"Não quero que me confundam com o presidente do Sporting"
Ana Proença

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O "de" entre o nome Bruno e o apelido Carvalho não é suficiente para fazer a distinção. Pelo menos assim achou o antigo candidato à presidência do Benfica, que vai voltar da lua-de-mel que está a passar no Sri Lanka e nas Maldivas com um novo nome: Bruno Costa Carvalho. "Não é bem mudar de nome... É acrescentar um apelido para evitar confusões com alguém com quem prefiro não ser confundido", explicou.

Primeiro, casou-se. E antes de partir para lua-de-mel, no início da passada semana, anunciou querer, no regresso a Portugal, passar a ser conhecido e tratado por Bruno Costa Carvalho. Será com essa designação que vai candidatar-se daqui a poucos meses, e pela segunda vez, à presidência do Benfica. As eleições estão marcadas para outubro. A conversa decorreu através de chamada de voz do Whatsapp.

Por que quer passar a ser conhecido por Bruno Costa Carvalho?

Numa primeira fase, quando o presidente do Sporting chegou ao espaço mediático, não fiquei incomodado por termos o mesmo nome. Mas, ao longo do tempo, ele tem feito declarações às quais não quero ser associado de forma alguma. É uma personagem com a qual não simpatizo e não quero que me confundam com ele. Não por qualquer razão clubística, que também existe, mas com essa posso conviver bem, antes por uma questão de carácter e de estilo.

Costuma ser confundido com ele?

No início, quando ele foi eleito, telefonaram-me várias vezes a pensar que estavam a falar com ele. Mas, com o tempo, isso foi deixando de acontecer. De qualquer forma, quero demarcar-me totalmente do presidente do Sporting. Ele passa muito a fronteira do que é ser bem educado. Nem quero entrar por aí, para não dar azo a qualquer troca de palavras.

Costa é o apelido da sua mãe?

É o apelido do meu avô materno e a razão pela qual eu sou benfiquista. Quando era miúdo, andava sempre com o meu avô. Chamava-se António Baptista da Costa, andou no Colégio Militar e jogou, ainda que de forma amadora, no Benfica. Foi ele que me contaminou com essa doença chamada benfiquismo. Eu também já consegui contaminar os meus três filhos [risos].

Há alguma memória de infância, relacionada com o seu avô e com o Benfica, que o tenha marcado?

O meu avô foi presidente do Boavista e lembro-me que ele torcia pelo Benfica mesmo quando havia jogo entre o Boavista e o Benfica. Nunca me levou à Luz, fui mais tarde pelo meu próprio pé, mas escutávamos muitos relatos na rádio.

Não jogava futebol quando era miúdo? Nunca quis ser futebolista?

Na verdade, nunca fui um grande desportista. Gosto do futebol sob o ponto de vista da gestão. Aliás, a minha formação é Economia.

Viveu a sua juventude no Porto. Como é ser benfiquista na Invicta?

Estou a viver em Lisboa há sete anos e agora passo também muito tempo em Luanda, pois dirijo o canal de televisão (generalista) Palanca TV. A minha vida profissional sempre me levou a viajar muito. Mas é verdade que passei a minha juventude no Porto. Acho, acima de tudo, que se sente mais o clube, porque se está mais longe, um pouco à semelhança do que acontece com os nossos emigrantes. A ligação à pátria existe através do Benfica. Por exemplo, uma coisa que gosto muito de ver atualmente é o benfiquismo que há em Luanda.

Da parte dos angolanos ou dos portugueses a residir em Angola?

Refiro-me aos próprios angolanos. Existe lá um grande amor ao Benfica, que vem do tempo das ex-colónias e foi passando ao longo das gerações. Há muitos angolanos que são do Benfica e não têm clube em Angola. Esta geração já não conheceu nenhum dos antigos símbolos do clube, mas vibram com as atuais estrelas. Após 40 anos de independência, os portugueses precisam de visto para visitar Angola, mas não precisam de visto se quiserem entrar nos EUA. Angolanos e portugueses deviam refletir sobre isso. Felizmente, o Benfica está acima disso tudo.

Quais as vedetas da atualidade que mais são apreciadas pelos angolanos?

Gostavam do Cardozo, como gostam agora do Jonas ou do Luisão. Claro que o Mantorras ou o Akwá terão sempre um estatuto especial.

Costuma ver os jogos do Benfica em Luanda?

Sim. Juntam-se grandes grupos nos cafés, hotéis ou clubes. Estou com pessoas que não conheço de lado nenhum, mas o futebol tem destas coisas: põe estranhos a abraçarem-se uns aos outros.

O presidente do Sporting, com o seu estilo tão marcante, tem alcançado os seus objetivos?

Eu percebo que ele tem de fazer algo para mudar o clube, mas tem ultrapassado todos os limites e isso está a prejudicá-lo do meu ponto de vista.

Quando decidiu que iria mudar o seu nome? Qual foi a gota de água?

Estas últimas declarações que fez com conotações homofóbicas dirigidas ao árbitro Luís Ferreira. Há limites onde não se deve chegar.

Acabou de se casar, vai mudar a forma como assina o seu nome. O que se pode esperar mais de si em 2016?

É ano de eleições no Benfica, é muito possível que eu me apresente como candidato. É engraçado que eu fui candidato em 2009, depois disso existiram ainda as eleições de 2012 e as pessoas continuam a achar que me apresentei há quatro anos. Nessa altura, fiquei sossegadinho, até por razões profissionais.

Mas está decidido a candidatar-se agora...

Sim. As eleições são em outubro, mas devo avançar em março. Quero deixar claro que me vejo como alternativa e não como oposição à atual liderança.

Há questões em que poderá estar de acordo com o atual gestão?

Há coisas que têm corrido bem, outras menos bem. O que noto é que existe, neste momento, falta de ambição no Benfica, e esta gestão, além de já ir longa, tem sido pouco transparente. Mas não é momento agora para me alongar sobre estas questões.

AVESSO A MUITO MEDIATISMO

Bruno Carvalho foi fundador e diretor geral do Porto Canal, depois de ter dirigido também a NTV (Norte TV) e antes de aquela passar para as mãos da FC Porto Media. Só se tornou, no entanto, conhecido do grande público quando, em 2009, foi o único rival de Luís Filipe Vieira nas eleições para a presidência do clube encarnado. "Cheguei ao espaço mediático antes do presidente do Sporting. Mas nunca gostei da exposição pública e da invasão da minha privacidade. Como diretor de canais de televisão, nunca quis apresentar qualquer programa e recusei todas as entrevistas e reportagens que as revistas sociais me propuseram quando fui candidato para a presidência do Benfica", comentou.

505

Líder da Lista B, concorrente única da lista encabeçada por Luís Filipe Vieira, Bruno Carvalho totalizou, nas eleições de 2009, 6610 votos, correspondentes a 505 votantes e 2,71%. Vieira, presidente encarnado desde 2003, teve, então, 223 656 votos, correspondentes a 18 825 votantes, o que permitiu que fosse reeleito com 91,74% dos votos. Houve 13 519 votos em branco (1121 votantes), correspondentes a 5,55%.

SAIBA QUE

O presidente do Sporting e o candidato derrotado nas eleições do Benfica de 2009 não são os únicos a responder por Bruno (de) Carvalho no desporto nacional. É também Bruno Carvalho o extremo de 29 anos que, no início da semana que passou, assinou pelo Farense, da II Liga, até ao final da época, procedente do Académico de Viseu. Há também um lutador chamado Bruno Carvalho, curiosamente atleta do Benfica, com vários títulos mundiais e europeus em muay thai e kickboxing.

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