"Não ia conseguir andar 100 metros e eu fiz o Ironman"

"Não ia conseguir andar 100 metros e eu fiz o Ironman"
Ana Proença

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Em 2013, Ramón Arroyo, atualmente com 45 anos, completou o Ironman de Barcelona e essa é a parte final do filme que conta a sua história e começa com um diagnóstico dramático: esclerose múltipla

Em 2013, Ramón Arroyo, atualmente com 45 anos, completou o Ironman de Barcelona e essa é a parte final do filme que conta a sua história e começa com um diagnóstico dramático: esclerose múltipla. "100 metros" estreia na próxima quinta-feira em Portugal, com o ator Dani Rovira a fazer o papel de Ramon Arróyo, com quem conversei num hotel de Lisboa.

Como é ter um filme com a sua história?

É alucinante! É a minha história, mas também a de muita gente com a mesma doença. O resultado é muito positivo. O filme é um hino à vida e uma montanha russa de emoções. Para mim, é muito importante o filme valorizar o papel do cuidador.

A sua mulher?

No meu caso, sim. Lidar com a esclerose múltipla sozinho é impossível. É sempre preciso a ajuda de alguém.

Como é viver com esclerose múltipla?

A esclerose múltipla é uma doença crónica, degenerativa, que afeta o sistema nervoso central. Os tratamentos não são curativos e não se sabe nunca quando se vai ter um surto e de que forma se vai manifestar.

Que idade tinha quando lhe foi diagnosticada a doença?

Tinha 32 anos, foi há 13 anos.

Como reagiu na altura?

Estive três anos em negação, a ignorar que a tinha. Só em 2007 é que aceitei a doença e aceitei ser ajudado. Hoje em dia, faço terapia física e psicológica todas as semanas.

Aconteceu algo em 2007 que desencadeou a mudança?

Uma noite estava com insónia, acabava de ter um surto, tudo era um problema, o meu filho mais velho era um bebé de meses e fui até ao quarto dele só para olhar para ele e acalmar-me. A certa altura, ele virou-se para mim e estendeu-me um dos bracinhos. Aquilo fez um clique na minha cabeça, foi quando pensei que eu não tinha culpa de ter esclerose múltipla, mas tinha culpa pela maneira como lidava com a doença. E o meu filho muito menos culpa tinha.

Foi aqui que apareceu o desporto?

Sim. Tinha conhecido um homem também doente, um daqueles trolls, muito negativos, que me tinha dito que, dentro de um ano, eu não ia conseguir andar sequer 100 metros. Coincidentemente, à saída da minha casa tenho uma placa a indicar o metropolitano a 100 metros. Então, comecei por ir a andar até à estação, depois a correr...

Mas que sintomas tinha?

Afetava-me toda a mobilidade do lado direito. A esclerose múltipla desencadeia pequenas incapacidades que, todas juntas, tornam a tua vida muito complicada. Tenho a certeza de que não estaria aqui, como estou hoje, se não tivesse começado a fazer desporto.

Mas entre começar a correr 100 metros e fazer um ironman [3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42,195 km de corrida] vai uma grande distância...

Já corria mais do que os 100 metros quando me recomendaram o triatlo como terapia, por ser muito completo. A partir daí, foi uma bola de neve. Decidi depois ir fazer o ironman para dar visibilidade à esclerose múltipla. Com as redes sociais, rapidamente me tornei o maluquinho de Madrid que tinha esclerose múltipla e ia fazer um ironman.

Como depois apareceu o filme?

O Canal Plus espanhol fez um documentário sobre a minha história que se tornou viral. Um dia, Marcel Barrena telefona-me a perguntar se podia fazer um filme inspirado em mim. Quando me mandou o guião e pediu-me para o corrigir, eu nem sabia o que fazer-lhe [risos]. Nunca tinha visto um guião na vida.

Acompanhou depois todo o filme. Como foi a relação com o ator que o personifica?

Maravilhosa. O Dani Rovira tem formação em educação física, então foi fácil ensinar-lhe e corrigir-lhe os gestos, as limitações físicas. O desafio maior foi explicar o que eles significam e que frustrações causam.

Como foi quando viu o filme pela primeira vez?

Fiquei sem palavras, tal foi o impacto. A verdade é que me tornei uma referência. Sabe que uma em cada 1000 pessoas tem a doença? Muita gente vive fechada num armário, o "Dr. Google" tem muita informação, mas nem sempre é a correta. É preciso informar muito e corretamente. Trata-se de uma doença muito impopular e 50% das pessoas não revelam a ninguém que a têm. Acho que é obrigação de quem tem esclerose múltipla esclarecer sobre o que é a doença, que não é agradável.