"Os meus treinadores, se pudessem, até me punham um cinto de castidade"

"Os meus treinadores, se pudessem, até me punham um cinto de castidade"
Ana Proença

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É possível ouvi-lo neste momento a comentar o Tour na RTP. E será novamente uma das vozes do canal público durante a Volta a Portugal. "O pessoal mais novo conhece-me por ser comentador, nem sabe que fui um ciclista de jeito", afirma Marco Chagas

Marco Chagas, atualmente com 60 anos, fez 14 Voltas a Portugal em bicicleta e ganhou quatro - 1982, 1983, 1985 e 1986. Recorda com saudade a Volta a França de 1980, em que ajudou Joaquim Agostinho a ser quinto classificado: "Era uma pessoa espetacular, de uma enorme humildade e franqueza. Tinha uma forma tão própria de viver! Foram momentos muito bons."

O que sente ao ver hoje o Tour ou a Volta a Portugal? Saudades dos seus tempos de ciclista?

Acima de tudo, sinto-me feliz por poder continuar a acompanhá-los. Tive o meu tempo e chegou. Competi 18 anos, comecei muito cedo, com 15 anos. Na altura éramos mais precoces, não se protegiam tanto os jovens. Com 19 anos, já estava a fazer a Volta a Portugal...

Tem o hábito de dizer "no meu tempo é que era"?

Não. No meu tempo era difícil, mas hoje também o é. O ciclismo exige muita entrega.

Desperdiçou muito a sua juventude?

Sim. Costumo dizer que entreguei os melhores anos da minha vida ao ciclismo, mas não me arrependo: fiz muito mais do que alguma vez sonhei e tenho orgulho nisso.

De que coisas teve de se privar por causa do ciclismo?

De coisas tão simples como poder ter uma alimentação variada. Hoje percebo que nem eu, nem os meus colegas comíamos sequer o mais correto. Era tudo tão rígido, nem gosto de me lembrar do que tinha de comer.

Mas era o quê, afinal?

Nos estágios, comíamos pescada cozida e bife grelhado a todas as refeições, semanas consecutivas, era horrível. Com arroz ou massa - nem batatas havia. Era uma alimentação muito repetitiva. Ainda hoje não sou capaz de comer pescada cozida.

Ficou traumatizado?

Completamente. São estas lembranças que me fazem pensar: "Caramba, que desperdício!" Outra coisa má daqueles tempos eram as restrições que tínhamos nas relações sexuais.

Os treinadores aconselhavam abstinência?

Sim, e isso era uma coisa que nos marcava. Os meus treinadores, se pudessem, até me punham um cinto de castidade. Era quase como um sacerdócio e tentávamos não pecar.

Isso era só antes das provas ou permanentemente?

Por períodos muito alargados. Ter relações sexuais era uma coisa proibida e os treinadores falavam disso constantemente. Felizmente percebeu-se que uma coisa não tem nada a ver com a outra.

A abstinência tornava-os mais agressivos para as provas?

Se calhar, essa era a ideia: transportar toda a energia e vontade para as pernas e para mais lado nenhum [risos].

Há dias vi um vídeo oficial do Tour em que a organização pedia aos espectadores para não perturbarem os ciclistas durante a prova. Como era no seu tempo a este nível?

No meu tempo iam atrás de nós e empurravam-nos literalmente nas subidas, mesmo que disséssemos para não o fazerem. Nalguns pontos havia até alguma organização nesse sentido. Depois deixou de ser permitido. Os espectadores sabem que se ajudam, os corredores são penalizados. O problema são os que vão às provas para serem eles os protagonistas. Põem-se na estrada, muitas vezes despidos ou com roupas estranhas, e querem é aparecer nas imagens. Eu estou sempre com o coração nas mãos, eles não percebem o perigo que representam.

Quais as diferenças mais marcantes, para si, entre o ciclismo do seu tempo e o atual?

Por um lado, a tecnologia a todos os níveis, desde as bicicletas aos equipamentos e às estradas; por outro, não tão agradável e também decorrente das tecnologias, a permanente interferência dos diretores de equipa junto dos corredores: estão sempre a buzinar-lhes ao ouvido, via rádio. E mesmo quando isso não acontece, os ciclistas levam consigo um minicomputador com todos os dados, o que por vezes os retrai de serem mais dinâmicos. É tudo tão monitorizado que o ciclista perde muito a sua espontaneidade. No meu tempo também havia uma estratégia coletiva, mas o corredor tinha mais autonomia para tomar decisões. Cada um valia aquilo que pensava valer, mesmo que por vezes se enganasse.

Os ciclistas tornaram-se um bocadinho fantoches...

Sim, é muito isso, são como que telecomandados.

Saiba que

Geles, barras energéticas, comida desidratada - hoje em dia, as opções são muitas para os ciclistas. Nas décadas de 1970 e 1980, os corredores levavam para as provas "maçãs, peras, bananas, frutas cristalizadas, que era o que dava para transportar, ou ainda cubos de marmelada e de açúcar". Marco Chagas recorda algumas coisas do seu tempo de ciclista. Para além da comida, lembra as carrinhas abafadas, sem ar condicionado, em que era transportado até ao hotel no final de cada etapa da Volta: "Hoje têm um autocarro com duche à espera e, assim que terminam a etapa, vão para os rolos fazer recuperação ativa. O máximo que nós tínhamos era uma massagem."