José Guedes: "Só os pilotos e o Mourinho estavam totalmente sóbrios"

José Guedes: "Só os pilotos e o Mourinho estavam totalmente sóbrios"
Ana Proença

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José Guedes intitulou-se "O Aviador" e criou uma página no Facebook, onde conta as aventuras de quase uma vida ao serviço da TAP. Em 2004 levou o FC Porto à Alemanha e, no regresso, o comandante cruzou os céus com os campeões europeus

Desde o final de outubro, quando a página foi criada, até ao momento, "O Aviador" ganhou mais de 14 mil seguidores no Facebook. José Guedes, um comandante da TAP reformado, apaixonado pela escrita - curiosamente, pai de Maria Guedes, uma das bloggers de moda de maior sucesso em Portugal - decidiu escrever as aventuras de 36 anos na aviação: desde o parto de gémeos a que assistiu a bordo a um sequestro com enredo policial, passando por ter Eusébio - que detestava andar de avião - no cockpit, são muitas as histórias e as fotografias que "O Aviador" tem vindo a partilhar. Um das que tiveram até agora maior impacto envolve o FC Porto, pois foi José Guedes o responsável pelo charter que levou a equipa azul e branca à final da Liga dos Campeões de 2004, em Gelsenkirchen, na Alemanha.

Tendo em conta que o FC Porto joga para a Liga dos Campeões na quarta-feira (com a Juventus), calha bem recordar a história...

Transportei o Benfica até Roma, noutra ocasião levei o Sporting a Sevilha, mas nada se compara ao que vivi com o FC Porto. As conquistas é que ficam na memória, igual àquilo acho que só o título europeu ganho pela Seleção Nacional no ano passado. Infelizmente, fretaram um avião grego para transportar a equipa no regresso a Portugal.

No relato que faz no Facebook, o FC Porto não fretava aviões da TAP há vários anos e a companhia escolheu-o para comandar o voo por ser adepto portista e ter talento para operações de charme...

Sou de Vila do Conde e cheguei a ser jogador no Rio Ave, embora sem grande jeito [risos]. O meu pai era portista e fez-me sócio quando eu era pequeno. Mas há muitos anos que tinha deixado de pagar quotas, tanto que na mensagem de boas-vindas a bordo - o Airbus A340 levava cerca de 270 pessoas, entre equipa técnica, dirigentes, jogadores, jornalistas, adeptos e convidados - eu disse ao microfone: "daqui fala o comandante do avião que, por acaso, é também o sócio n º 25 990 do FCP, embora com quotas em atraso!"

Calculo que os passageiros se tenham rido...

Sim, a mensagem foi muito bem recebida e de repente os passageiros passaram a sentir-se em casa: bebiam, fumavam, entoavam cânticos, batiam palmas, enfim, um verdadeiro pandemónio, só que um pandemónio azul e branco.

Se foi assim na viagem para Gelsenkirchen, onde o FC Porto bateu o Mónaco por 3-0, imagino no regresso a casa...

Não faz ideia! Ainda na viagem de ida, eu já tinha ficado impressionado com as 40 caixas de champanhe que embarcaram.

Isso é sinal de que a equipa estava confiante...

E eu, ao intervalo da partida, no estádio, com o FC Porto já a ganhar por 1-0, liguei à Direção de Operações de Voo a pedir que alterassem o chamado "call sign" do voo de regresso. Em vez de TP9224 iria passar a chamar-se CHAMPS, de champions. E foi isso mesmo que aconteceu, o que foi inédito na história da aviação comercial: um avião a cruzar os céus da velha Europa identificado pela sigla CHAMPS.

Como foi depois, então, a viagem de regresso, com a taça de campeões europeus na bagagem?

Uma euforia indescritível, a taça circulava de mão em mão, toda a gente cantava, lembro-me que os brasileiros eram os mais exuberantes, especialmente o Derlei e o Deco. E também o Vítor Baía, que pediu o microfone de bordo para falar para toda a gente. Acho que só os pilotos e o treinador José Mourinho é que estavam completamente sóbrios.

José Mourinho?

Na altura fiquei muito impressionado, porque ele parecia nada ter a ver com a festa. Não falava com ninguém, completamente calado e frio, esteve a maior parte do tempo a fingir que dormia. Como era possível? Sabendo que trazia consigo a mulher e duas crianças pequenas, fui pessoalmente oferecer-lhe um pequeno compartimento com beliches, situado por trás do cockpit, mas ele recusou, agradeceu discretamente e continuou a fingir que dormia.

E como foram os festejos do presidente Pinto da Costa?

Do que me lembro é de, momentos antes da descida para Pedras Rubras, o senhor Pinto da Costa ter ido ao cockpit para agradecer o nosso empenho e pediu o meu velho cartão de sócio do FC Porto. Ele enfiou-o dentro do bolso e, cerca de dois meses depois, recebi em casa um novo exemplar, com o número de sócio atualizado e as quotas em dia.

SAIBA QUE

Em 2013, José Guedes publicou um romance intitulado "Na Rota do Yankee Clipper", baseado em factos históricos, nomeadamente o acidente que aconteceu no rio Tejo, em 1943, com um Boeing 314 Clipper da Pan Am, em que metade dos passageiros morreram. O livro teve relativo sucesso, mas o antigo comandante da TAP, de 70 anos, não sentiu o impacto que está a sentir agora com o projeto "O Aviador". "Recebo todos os dias centenas de comentários, há uma ligação direta entre escritor e leitor, o que está a ser fantástico. Fiquei surpreendido com o sucesso que tive, até já saiu um pouco fora do controlo", comentou.

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