"Há uns maus que são mesmo bons a ser maus"

"Há uns maus que são mesmo bons a ser maus"
Ana Proença

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O Só Conversa, exclusivo da revista J, foi conhecer o mais reputado especialista em direito desportivo do país e as suas ideias... "cáusticas"

Começou por ser "correio" na Procuradoria-Geral da República em 1978. Basicamente era um estafeta que levava e trazia cartas. Hoje em dia, ler o currículo completo do jurista e professor de desporto, consultor na sociedade de advogados ABBC leva muito tempo. Ao conhecimento profundo que tem sobre leis do desporto, José Manuel Meirim juntou outra característica que o tornou tão mediático: não tem papas na língua.

Aos 57 anos, José Manuel Meirim diz fazer a sua "tentativa de morte súbita" todas as semanas, no único dia que deixa algumas horas para ir jogar badminton com um grupo de amigos. Crítico das "conversas de café bem pagas" que diz serem a maioria dos programas televisivos de análise des­portiva, o jurista declara-se adepto mode­rado do Benfica.

Na sua última crónica para o jornal "Público", sobre o castigo de Fernando Santos, deixa uma crítica implícita aos comentadores desportivos que têm debitado sobre o assunto "com profundo conhecimento". A ironia é a sua figura de estilo preferida?

Claramente. E sou bastante cáustico por vezes. Quando o tema se proporciona, rio-me que nem um perdido quando es­tou a escrever. Tenho momentos de al­guma felicidade, divirto-me a fazer esses textos e tento não ficar apenas por um tema, mas mandar três ou quatro farpas no mesmo artigo. Mas, apesar disto, não sou um homem de confronto pessoal.

Já deve ter feito alguns inimigos com estas crónicas.

Costumo dizer que foi criada uma asso­ciação, sem fins lucrativos, dos Amigos do Meirim... Inclui alguns ex-secretários de Estado.

Tem presidentes de clubes nessa associação?

Nem tanto, apesar de, no passado, ter escrito, por exemplo, sobre o exército de Pinto da Costa. Mais recentemente, fiz uma crónica sobre o bem e o mal. Há um conjunto de clubes e dirigentes que diz ir atacar o mal no futebol e normalmente personalizam-no no FC Porto. Dizem que são pelo bem e pela ética e depois fazem igual ou pior do que os outros. No caso do Jorge Jesus em Guimarães, por exem­plo, bati em toda a gente, inclusive no prof. Manuel Sérgio, o provedor de ética desportiva, que fez declarações incríveis só porque é amigo do treinador e tra­balhou para o Benfica. Para mim, o que Jorge Jesus fez é inadmissível. A certa al­tura, o importante era o relógio que lhe tinha desaparecido no meio da confusão. Não pode o FC Porto ser campeão e fe­charem-se luzes ou abrir-se a água do relvado. Quem faz isso perde a legitimi­dade, isto para não entrar em coisas dos bastidores, em que não sabemos o que se passa. Há uns maus que são mesmo bons a ser maus. Mas acontece na políti­ca, no mundo dos artistas, um pouco por todo o lado...

Voltando aos comentadores desportivos. Irritam-no?

Por vezes, sim. Trata-se de um fenómeno cultural nos países latinos: toda a gen­te fala e é entendida em desporto. E ain­da mais competentes quando se trata de opinar sobre futebol. Mas a maioria não tem capacidade para isso, devia limitar-se às suas competências. É o jurista ou economista a falar sobre modelos e táti­cas de jogo ou os treinadores a opinarem sobre questões jurídicas sem terem lido nada. O pior é que, em alguns casos, o facto de terem formação acaba por lhes dar autoridade junto do público, ainda vivemos na dependência dos títulos. "Se o doutor diz, ele sabe". Ganha uma pre­sunção da verdade.

No futebol dentro das quatro linhas, reconhece qualidade a algum dos nossos atuais comentadores?

Sim. Claro. Há pessoas que investiram no conhecimento nessa área...

Tipo o Luís Freitas Lobo?

É um exemplo. Há um grupo de pessoas, ou porque são técnicos e têm formação nisso, alguns com créditos firmados, em que a área de intervenção deles está bem definida. Outros não são técnicos, mas pela sua experiência de anos...

O Rui Santos?

Esse faz coisas más. Fala em questões ju­rídicas, política desportiva, fala em tudo. São os treinadores de bancada que aca­bam por ter o maior espaço, mas isso não acontece por acaso, é preciso analisar o público que alcançam. São meras con­versas de café, há uma certa identifica­ção que é claramente clubística. É uma conversa de café bem paga.

Esses programas a que chama conversa de café são melhores, piores ou de igual qualidade à Casa dos Segredos?

É uma boa questão, mas, mesmo assim, acho que a Casa dos Segredos é pior. De qualquer forma, há uma cobertura exaustiva do espetáculo de futebol.

Não gosta de ver, ao menos, os jogos de futebol?

Gosto, mas não fico em casa de propó­sito para ver um jogo. Neste momento, sou adepto moderado do Benfica. Quan­do tinha 20 anos, entusiasmava-me e ia à bola, mas com a entrada na Faculdade de Motricidade Humana, onde fiz o dou­toramento, e o contacto com outros des­portos, fui perdendo o entusiasmo.

Nem no segredo da sua casa é treinador de bancada?

Não. O máximo que digo é não saber o que este ou aquele jogador andam a fazer em campo. Mas é raro ver jogos. Preocu­po-me apenas em saber o resultado. Eu tenho uma overdose do direito do despor­to que não me permite ter outras coisas.

Como é o seu dia a dia?

Este semestre é para morrer, dou au­las todos os dias em várias escolas e faculdades. E depois estou aqui no escritório de advogados, onde tenho

a função de consultor na área do direi­to do desporto. Os nossos clientes são federações, atletas, treinadores, clubes. Eu não sou advogado, apenas jurista e professor de direito. Depois, além de trabalhar, tento jogar badmínton uma vez por semana, é a minha tentativa de morte súbita. Joguei bem ténis de mesa no liceu, mas nunca gostei de ténis.

Fez algum desporto federado?

Não. Joguei futebol e basquetebol, mas nunca federado. Tinha algum jeito para o futebol, acho.

Acha que é o homem que mais sabe de leis do desporto em Portugal?

Não, mas sou aquele que dedica mais tempo a essas questões, isso claramen­te. Digamos que sou o gajo da clínica geral, o médico de família: identifico o problema, quando posso trato, quando não mando para outras áreas específi­cas do direito do desporto, onde há me­lhores juristas do que eu.

TRAPALHADA NOS APITOS

Qual foi a maior trapalhada do desporto português até hoje? A resposta de José Manuel Meirim veio subentendida. "Acho que seria interessante fazer um ponto da situação sobre o caso Apito Dourado e Apito Final, isso ajudaria as pessoas a entender como a justiça funciona, as dinâmicas que se criam, as relações pessoais que envolvem, as competências e incompetências. Isto é um caso que nasce em 2003/2004 e vai morrendo. No início, houve uma aliança entre o Ministério Público e a justiça desportiva, através da Comissão Disciplinar da Liga e de Ricardo Costa, no sentido de querer acabar com a corrupção. Mas depois nomeiam Carolina Salgado para testemunha? Mas que raio de testemunha é esta? Não dá... O que estavam à espera?", comenta, explicando que as escutas telefónicas foram consideradas ilegais apenas na justiça desportiva, no processo penal foram validadas. "Por que não houve mais castigados? Não sei. Nunca ouvi as escutas, não as conheço em particular, o que sei e vejo há muito tempo é a existência de uma cultura em Portugal, entre os juízes e no Ministério Público, relativamente a este tipo de crimes económicos. Ou seja, em corrupção, exigem 100% de certeza para acusarem ou condenarem", argumentou.

SAIBA QUE

José Manuel Meirim faz parte do Conselho de Arbitragem desportiva que irá eleger os 40 árbitros do futuro Tribunal Arbitral do Desporto (TAD). "Não sou adepto da arbitragem, mas fui indicado pelo conselho de reitores das universidades portuguesas", afirma, explicando ser este conselho constituído, nesta altura, por dez elementos que irão analisar as propostas, a ser feitas por um conjunto de organizações desportivas. "Sinceramente não sei o que este novo tribunal vai trazer de bom. Toda a gente aposta nisto de uma forma, na minha perspetiva, muito ingénua. Acham que vai resolver os problemas da justiça desportiva. Não sei se será bem assim, o que importa agora é escolher 40 árbitros de qualidade", defende, esclarecendo ainda que "o TAD vai passar a ser os Concelhos de Justiça das federações, que ficam com competências residuais". "Na minha opinião, só se poderia recorrer ao TAD após esgotar o Conselho de Justiça. O legislador não quis assim, até pode acontecer o tribunal entupir assim que comece a funcionar", diz, prevendo apenas para março a constituição do tribunal.

2006

Foi o caso Mateus, envolvendo o jogador angolano, o Gil Vicente e o Belenenses, que trouxe José Luís Meirim para o palco mediático. Desde cedo, o jurista interessara-se pelo que chama de "desportos radicais" do Direito e, quando rebentou o caso Mateus, ofereceu os seus serviços a um jornalista do "Público" e, ao mesmo tempo, encontrou outro em Troia que lhe pediu o número de telefone. "Passado um minuto estavam a ligar-me da TVI." A partir dessa altura, os órgãos de Comunicação Social passaram a ligar-lhe para esclarecimentos sobre leis do desporto. E assim é até hoje. "Em 2006, entreguei a minha alma a Cristo", brinca. "Acho que ajudou o facto de ter mantido uma produção de livros. Sou licenciado em Direito, mas doutorado em Ciências do Desporto e a coisa que mais me satisfaz é ter reconhecimento dos doutores em Direito."

Publicado na revista J em 05/10/2014