"Imaginem o Cristiano Ronaldo a ter de usar chuteiras 38 se calça o 42"

"Imaginem o Cristiano Ronaldo a ter de usar chuteiras 38 se calça o 42"

O Banco de Ajudas Técnicas Desportivas 2017 é um projeto pioneiro em Portugal que, através da atribuição de equipamentos desportivos, irá permitir a prática desportiva regular a pessoas com deficiência motora. Salvador explica como funciona

Estão a decorrer até ao final deste mês as candidaturas para o Banco de Ajudas Técnicas Desportivas 2017, uma iniciativa da Associação Salvador, que pretende dar condições para a prática desportiva regular a pessoas com deficiência motora e falta de recursos financeiros.

Salvador Mendes de Almeida - ou simplesmente Salvador, como é conhecido -, tetraplégico desde que sofreu um acidente de mota há 18 anos, é o rosto deste projeto, como de tantos outros que tem levado a cabo, com o objetivo de aumentar a qualidade de vida das pessoas com deficiência motora.

Como funciona este Banco de Ajudas Técnicas Desportivas?

Existe um formulário disponível no site da Associação Salvador, onde as pessoas podem candidatar-se até 31 de março. Com o apoio do BPI, através do Prémio BPI Capacitar, vamos atribuir equipamentos desportivos num valor total de 30 mil euros.

Quem se poderá candidatar?

Todas as pessoas com deficiência que tenham ambição desportiva ou vontade de praticar um desporto. Depois, as candidaturas vão ser submetidas a um júri, que as avaliará de acordo com dois critérios: o grau de necessidade, ou seja, a situação socioeconómica do candidato, e o seu nível de motivação e empenho para a atividade. Paralelamente, decorre no site "preenchaestavida.com" uma angariação de fundos para os candidatos que, estando devidamente avaliados, nós já não consigamos ajudar no âmbito do programa. É uma forma de envolver também a sociedade civil. Nos outros anos, o incentivo à prática desportiva estava enquadrado no projeto Ação Qualidade de Vida - AQV, mas achámos que faria todo o sentido tornar independente a categoria "Desporto".

Porquê essa importância dada ao desporto?

Se para uma pessoa sem deficiência já é importante, para uma com deficiência é absolutamente fundamental. Posso falar por mim: o desporto faz-me sentir vivo e ativo, ajuda-me a libertar energia e a atenuar as limitações físicas. Aumenta a autoestima e tem também uma componente social muito importante, pois permite o convívio com outras pessoas na minha condição. São tantos os benefícios...

Que desporto faz o Salvador?

Antes de ter o acidente, jogava râguebi federado, jogava futebol, fazia jetski e hipismo. Depois do acidente, nunca mais parei de fazer reabilitação e fisioterapia. E ultimamente encontrei um desporto que consigo fazer, que é a vela adaptada, com a ajuda de um joystick, que me permite controlar o barco. Além disso, pratico ioga, com a ajuda de uma terapeuta, uma vez que só mexo o pescoço, ombros e, com algumas dificuldades, os braços. A minha rotina diária passa por fisioterapia, ioga ou vela durante a manhã e trabalho na parte da tarde.

Voltando aos Banco de Ajudas Técnicas Desportivas 2017, de que tipo de equipamentos desportivos estamos a falar?

Todos aqueles que permitam a prática de modalidades desportivas ou que melhorem o treino e a performance do atleta, como handbikes, cadeiras de rodas para basquetebol ou ténis, equipamento de boccia, entre outros. Há aqui um aspecto importante: é que serão equipamentos feitos à medida de quem os vai usar, o que faz muita diferença. Imagine o que era o Cristiano Ronaldo calçar o número 42 de sapatos e ter de jogar com umas chuteiras 38? Faz toda a diferença e infelizmente as estatísticas dizem que a maioria das pessoas com deficiência tem poucos recursos económicos e dificuldades em conseguir um emprego. É muito difícil ter-se uma vida ativa, os locais não estão preparados, o material é muito caro. O desporto é uma ferramenta fundamental de integração.

Quando falou dos critérios para a atribuição de equipamentos, fiquei com uma dúvida: é preciso que o destinatário queira fazer desporto de competição, uma coisa mais a sério?

Claro que não. Pode querer praticar desporto apenas por lazer. O que não queremos é material parado em casa, sem utilização. Por exemplo, uma bicicleta adaptada pode custar cerca cinco mil euros. Queremos que seja utilizada o mais possível. Quem tiver equipamento que já não se ajusta a si, porque engordou ou por outro motivo qualquer, ou caso tenha deixado de o o usar, então podemos entregá-lo a outra pessoa. Fazemos o acompanhamento das pessoas para irmos ajustando as suas necessidades.A Associação Salvador tem mais iniciativas na área do desporto?Sim. Disponibilizamos dez modalidades diferentes, em Lisboa, que as pessoas podem ir experimentar e praticar. E é praticamente gratuito.