"Há muito abandono desportivo precoce devido a bullying"

"Há muito abandono desportivo precoce devido a bullying"

Miguel Nery, psicólogo clínico e investigador na Faculdade de Motricidade Humana, estudou o fenómeno durante cinco anos, junto de jovens entre os 12 e os 18 anos

O bullying no desporto em Portugal é transversal a todas as modalidades e está de forma igual espalhado pelo território. Miguel Nery, psicólogo clínico e investigador na Faculdade de Motricidade Humana, estudou o fenómeno durante cinco anos, junto de jovens entre os 12 e os 18 anos, e da sua tese de doutoramento resultou agora o projeto "Desporto Sem Bullying", financiado pelo Instituto Português do Desporto e Juventude. Há um site acabadinho de abrir onde atletas, pais, professores e dirigentes podem encontrar ajuda para identificar e lidar com o problema. Para breve está uma linha SOS, em parceria com a APAV.

É diferente o bullying na escola e no desporto?

Os miúdos não têm de fazer desporto, mas têm de ir à escola. O que concluímos é que há muito abandono desportivo precoce, principalmente por parte das crianças vitimizadas. No desporto, há comportamentos que não são reportados porque são considerados normais.

Porquê?

Por existir uma mentalidade de maior dureza, de domínio dos mais fortes sobre os mais fracos. Há ideias erradas. Os ambientes podem ser competitivos sem ser preciso existir bullying. Depois há muita gente que acredita que, para os miúdos atingirem resultados, é preciso que os treinadores sejam duros e tratem mal os atletas. Isso é mentira.

Dizer coisas como "não sejas maricas" é considerado normal, mas acentua essa divisão entre os fortes e os fracos.

Muitas vezes não passa pelo que se diz, antes pela relação que se estabelece entre os atletas e com o treinador. Há formas de agressividade subliminares que são muito piores do que os comportamentos abertos. Depois há treinadores de uma agressividade brutal.

O treinador torna-se o agressor no bullying?

Chamamos-lhes comportamentos de abuso dos treinadores. O bullying acontece dentro do mesmo grupo de treino e entre pares. São comportamentos intencionais e repetidos. O balneário é o local privilegiado para ocorrer, mas também durante os treinos, muitas vezes de forma dissimulada. Lembro-me do relato de um atleta que confessava picar um colega quando o treinador não estava a ver. "Ele às tantas passava-se e atirava a bola contra mim. O treinador via e punha-o a ele de castigo", dizia-me.

Quais as motivações dos agressores? Estatuto no grupo?

Também. Há muita coisa à mistura e pode-se traçar um perfil comportamental, ainda que com nuances, associado à vítima e ao agressor. As vítimas são, regra geral, miúdos mais passivos e tranquilos, os agressores mais confrontativos e exibicionistas. Há uma interação típica no balneário, a que chamamos "fogo cruzado", que são as bocas que os miúdos vão mandando, para aferir quem é quem ali, quem é que reage e de que maneira...

Para estabelecer uma hierarquia no grupo?

Sim. Aqui, a performance desportiva é muito valorizada no grupo, protege muito os miúdos. Se forem bons, ganham logo um estatuto diferente.

Isto é tudo muito primitivo...

A raiz do estudo do bullying vem do estudo do comportamento animal. São normais as questões de liderança dentro dos grupos. Aliás, hoje em dia toda a gente tem de ser líder e isso é uma coisa que não entendo. Qualquer dia não há ninguém para liderar! [risos] Podem existir miúdos que sobressaiam, mas não tem de haver o mau trato, a parte vexatória, que é muito de exclusão. No desporto de formação, tem de haver espaço para todos. Infelizmente encontrei muitos miúdos e treinadores que queriam ganhar a todo o custo. Houve técnicos que me disseram: "Eu gostava de fazer diferente, mas depois, se não ganho, os dirigentes e os pais caem-me em cima." É preciso mudar isto de raiz.

Os pais podem ser parte do problema, em vez de uma ajuda?

Vi pais aos gritos com os miúdos nas competições e até nos treinos. Mais no futebol, mas não só. Há uma certa tendência, com as devidas precauções, para os agressores virem de ambientes muito mais frios e de famílias tendencialmente mais desestruturadas. E as famílias das vítimas serem mais fechadas e rígidas.

O que se pode fazer para lutar contra o problema?

Primeiro de tudo, abordá-lo sem moralismos e sem achar que queremos anular a competitividade. Muitas vezes, as vítimas também são responsáveis. Queremos garantir a formação de treinadores e ter uma intervenção direta nos clubes.

Saiba que

Sempre existiu o que hoje em dia conhecemos por bullying, mas apenas nas décadas de 1960/70 é que o fenómeno começou a ser estudado e ganhou um nome. O sueco Dan Olweus foi pioneiro, a nível mundial, no estudo científico da questão, depois de alguns miúdos se terem suicidado na escola. Inicialmente, só se considerava bullying no género masculino e reportando a questões meramente físicas. "À medida que investigaram viram que as raparigas era igualmente agressivas, mas agem de maneira diferente, passando por angelicais, mas atacando as relações, espalharem boatos é muito típico", refere Miguel Nery, cujo estudo incidiu, contudo, apenas em atletas masculinos.