Fábio Nunes: "Era a bola, as raparigas e o pingue-pongue"

Fábio Nunes: "Era a bola, as raparigas e o pingue-pongue"
Ana Proença

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Gostava de ser contratado por uma equipa de futsal da primeira liga, mas no imediato o objetivo é ganhar o europeu de futebol de rua. O guarda-redes da Seleção Nacional conta a sua história e o quanto se tem emocionado com as dos companheiros

Anda desde 2013 a disputar torneios de futebol de rua, ao abrigo de uma instituição de solidariedade social. Fábio Nunes tem 27 anos e é técnico de ar condicionado. Teve de pôr férias para poder integrar a Seleção Nacional que está a disputar esta semana o primeiro europeu da modalidade.

Nesta quarta-feira, a equipa defrontou a Holanda, Dinamarca e a Irlanda, tendo perdido o primeiro mas vencido os dois jogos seguintes.

Percebi que os treinos de futebol são apenas uma pequena parte do vosso estágio de preparação para este europeu.

Sim. O futebol ocupa-nos uma média de três horas por dia. Depois vamos passear, conhecemos outras pessoas, fazemos jogos que fortalecem a nossa autoestima, o espírito de grupo, isso é bom para nós.

O responsável do projeto disse-me que o uso do telemóvel durante o estágio tem regras...

Isso do telemóvel é um caso sério... é difícil! [risos] Eu por acaso só o uso para falar com os meus filhos, mulher e pais. O míster dá-nos o telefone durante uns 15 a 20 minutos a seguir ao pequeno-almoço, depois outra vez à tarde, a seguir ao almoço, e à noite. Tenho colegas que são malucos pelo Snapchat e pelo Instagram...

Entende esta regra que vos impuseram?

Sim, faz sentido, imagine que um colega meu estava aqui e em vez de estar a sociabilizar connosco, estava calado, agarrado ao telemóvel. É mau.

Como veio parar ao futebol de rua?

Um amigo convidou-me para jogar um torneio no Algarve, em 2013. Eu nem sabia o que era. Mas fui e achei aliciante, também fui campeão logo no primeiro ano [risos]. Associei-me à Associação Movimento Juvenil em Olhão (Moju) e passei a ser chamado para os torneios regionais e nacionais.

Já jogava futebol?

Jogo futsal nos Sonâmbulos Futsal, que está distrital. Treinamos quatro vezes por semana. Na temporada passada estive no Portimonense.

Em que trabalha?

Quando comecei no futebol de rua, estava desempregado, agora sou técnico de ar condicionado. A escola secundária de Olhão entrou em obras, eu fui lá pedir trabalho, colocaram-me a trabalhar na parte dos ares condicionados, tomei gosto por aquilo, tirei o curso de técnico de ar condicionado e hoje faço disso a minha vida. E gosto.

Completou estudos?

Não estudei. A bola, as raparigas e o pingue-pongue davam cabo de mim. Os meus pais tinham um restaurante e ajudava-os. Também joguei à bola, felizmente ganho algum dinheiro a jogar. Entretanto arranjei este trabalho e tive de tirar férias para poder estar aqui, com a Seleção Nacional.

E família?

Tenho a minha mulher, a Lena, uma menina com quatro anos, um rapaz com seis e a minha mulher tem ainda uma rapariga de onze anos. Ainda ontem a minha filha foi comprar o jornal para mostrar às amigas na escola. Eles ficam todos contentes de eu aparecer no jornal.

O futebol de rua tem regras diferentes do futsal ou do futebol de onze. Foi difícil a adaptação?

Um bocado, é muito diferente. No futebol normal dizemos que a nossa melhor amiga é a bola, aqui dizemos que é a tabela.

O que o futebol de rua trouxe à sua vida?

Neste momento, enriquece a minha vida, mas gostava que me ajudasse a subir a uma equipa de futsal da primeira liga, um Braga, Benfica ou Sporting... sinceramente tenho essa fisgada!

Tem encontrado muitas histórias diferentes da sua?

Sim. Ainda anteontem o Daniel contou-me algumas histórias da vida dele que me fizeram chorar, ele passou por dificuldades que eu nunca passei e custa-me saber que há quem passe por isso. Ouvir aquelas coisas bate cá dentro, pois temos um coração e não uma pedra. Pelo menos eu tenho.

Para além do prazer de jogar e da competição, que outros ensinamentos leva daqui?

Há uma coisa que acho que já vai ser diferente quando voltar para casa. No meu trabalho entro às oito da manhã e às oito estou a sair de casa. Na segunda-feira, quando começou o estágio, fui o último a chegar à carrinha para ir para o treino, mas na terça-feira já fui o penúltimo, ontem e hoje já fui o primeiro [risos]...

Saiba que

Quando contactei o departamento de comunicação da Seleção Nacional de Futebol de Rua para uma entrevista a um dos seus jogadores, foi-me apontado o Fábio Nunes, por ser o mais velho e um dos menos tímidos do grupo. Queria perceber de onde vêm estes rapazes, o que fizeram para chegar aqui e desmistificar a ideia de que são "sem-abrigo", como é referido na reportagem publicada nas páginas seguintes. Para as participações internacionais, os responsáveis pelo "Futebol de Rua" da CAIS escolhem sempre jogadores diferentes, de modo a possibilitar essa experiência ao maior número de pessoas possível. As vitórias são importantes, até porque atraem atenção mediática, mas não a razão do projeto.