"Entrar no balneário do FC Porto era ir a um santuário"

"Entrar no balneário do FC Porto era ir a um santuário"
Ana Proença

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Cândido Costa vai iniciar agora um novo desafio como técnico-adjunto de Secretário no FC Cesarense

As fotos foram tiradas quando era ainda o treinador da equipa feminina da Ovarense, função que muito prazer e orgulho lhe deram nas duas últimas épocas. Mas Cândido Costa vai iniciar agora um novo desafio como técnico-adjunto de Secretário no FC Cesarense e, ao mesmo tempo, treinador da equipa sénior feminina do clube de Oliveira de Azeméis.

É natural de São João da Madeira, tal como o Secretário. Conhece-o desde miúdo?

Lembro-me de que ele jogava no FC Porto e eu era apenas um puto a jogar na Sanjoanense. Mais tarde, cruzámo-nos no FC Porto e ele foi importante na minha integração. Naquele tempo, entrar no FC Porto com 18 anos não era fácil. O plantel tinha jogadores com muitos anos de FC Porto: Jorge Costa, Paulinho Santos, Folha, Aloísio, Domingos... O Secretário acolheu-me e explicou-me como me devia comportar numa equipa tão à Porto, tão forte.

E o que ele disse? Que tinha de dizer sim a tudo?

Sim [risos]. O FC Porto estava há uns oito ou nove anos sem lançar um jovem. Eu era a coqueluche para o bem e para o mal. O Secretário disse que eu devia ouvir e calar, para aprender com os mais velhos. Mais tarde, fiz o mesmo aos que chegaram [risos]. Foi bom ter tido aqueles ensinamentos, um bocadinho à moda antiga. Quando cheguei ao FC Porto, estava convencido de que a vida ia ser um conto de fadas, ali acalmei um bocado. Passavam a vida a dizer-me "oh miúdo, traz as bolas, traz as chuteiras, isto, aquilo [risos]... Mas eu estava ao pé dos meus ídolos, a primeira vez que fui ao balneário parecia que estava a entrar num santuário, fazia tudo com prazer.

Voltando ao presente, porque aceitou o convite do FC Cesarense?

Gostei mesmo muito de estar estes três anos na Ovarense, um como jogador e dois como treinador. Gosto da Ovarense e das suas gentes, só que o desafio do Cesarense é muito aliciante, pois tem a componente do futebol masculino e permite-me, ao mesmo tempo, continuar ligado ao feminino. Querem reativar o futebol sénior feminino do Cesarense e eu posso manter essa paixão viva. Gosto muito de treinar meninas, elas merecem.

O que mais o surpreendeu quando começou a treinar uma equipa feminina?

A mulher futebolista é muito genuína, é muito desprendida das tangas a que vinha habituado: do orgulho, do ego, das defesas pessoais... Elas vão lá para dentro e dão tudo. São mais elaboradas e minuciosas intelectualmente, se não gostam de alguma coisa são capazes de perpetuar esse estado durante muito tempo...

Tipo prendem o burro e assim ficam.

É mesmo isso. [riso] Mas têm o outro lado maravilhoso, a genuinidade delas foi o que mais me marcou.

O que lhe dá mais gozo ao treinar uma equipa feminina?

Não diferencio género, eu treino futebol. Olho para elas como se fossem rapazes e o oposto. A liderança tem é de ser diferente consoante a idade, não posso falar para uma jogadora de 14 anos como falo para uma de 30.

Mas as mulheres apresentam um futebol diferente...

É mais técnico, mais romântico, menos bruto. Mas também sabem ser duras. Uma coisa que as miúdas detestam é ver que não as levam a sério, que há facilitismo. Aí perdem a pica.

Para além de treinador, é comentador no Porto Canal.

É algo que gosto muito de fazer. No início, ficava muito nervoso e quase que compensava as saudades que tinha da adrenalina de jogar. Quando pendurei as chuteiras, passei por um período difícil, pois gostava do que tinha feito, mas não gostava do que via. Só tinha o 9.º ano de escolaridade, tinha uma bagagem de vida muito bonita, mas não chegava para me candidatar a nada. Fui tirar o 12.º ano no Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), já aparecia na televisão, não foi fácil, mas enriqueceu-me muito a todos os níveis.

Gosta de se ver na TV?

Vi só os primeiros, para ver se estava muito careca ou não [risos]. Acho sempre que podia estar e falar melhor, mais tranquilo. Basicamente, não gosto de me ver e deixei de o fazer.

E a família vê?

A esposa e os filhos são os meus maiores críticos. Sempre que dou uma calinada, eles riem-se e dizem-me assim que chego a casa. Continuo a ter uma palavra a dizer no futebol e sinto que eles têm muito orgulho em mim.