Djô: "Tive a sorte de não ir por maus caminhos"

Djô: "Tive a sorte de não ir por maus caminhos"
Ana Proença

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Continua a frequentar a associação de moradores e o campo onde é agora o filho, de oito anos, a jogar à bola. Djó foi criado em bairros sociais, chegou a roubar em miúdo, mas a paixão pelo futsal deu-lhe uma carreira e uma vida diferente. A ele e à família

A Seleção Nacional de futsal deslocou-se na passada semana ao bairro do Casal da Mira, na Amadora, para defrontar a equipa local, vencedora do passatempo, promovido pela Federação Portuguesa de Futebol, "A Seleção no meu Bairro". Entre os craques, orientados pelo selecionador Jorge Braz, estava um filho da terra, outro Jorge, mais conhecido por Djô.

Já nasceu no bairro Casal da Mira, na Amadora?

Não. Os meus pais são cabo-verdianos e eu nasci no Bairro 6 de Maio, na Damaia, onde vivi até aos 12 anos com a minha mãe e os meus irmãos. Depois fomos para a Azinhaga dos Besouros, na Pontinha, e de lá fomos realojados no Casal da Mira.

É perigoso viver num bairro social como esses onde cresceu?

Quem vive nos bairros, não acha assim tão perigoso; nós habituamo-nos ao ambiente e acaba por ser normal para nós.

Parece-me que, apesar das dificuldades, são bairros onde ainda se veem miúdos a jogar à bola na rua. É mesmo assim?

Sim, todas as crianças querem andar na rua a jogar à bola, até o meu filho de 8 anos. Ele já nasceu no Casal da Mira.

E estava no evento da Federação?

Sim; com muita vergonha, mas estava [risos].

O Djô teve uma infância feliz?

Sim. Comecei a jogar muito cedo, ia sempre ver os rapazes mais velhos a jogar, até que fui jogar para os Metralhas da Damaia, ainda benjamim ou infantil. Depois, quando me mudei para a Azinhaga dos Besouros, fiquei um tempo sem jogar, até descobrir uma equipa, no Altinho. Fui às captações e fiquei. Sabe que, em bairros como estes, é difícil fugirmos de fazer coisas más.

Como assim?

Há mais pessoas que gostam de fazer as coisas erradas do que as certas, mas como sempre gostei tanto de jogar à bola e tive a sorte de encontrar uma equipa, não fui pelo caminho errado.

Fala de quê? Roubos?

Sim, essas coisas. É o caminho mais fácil. Existem dificuldades económicas e há muito incentivo dos amigos para seguir o mesmo caminho deles.

A sua família passou dificuldades?

A minha mãe foi mãe solteira e teve de sustentar e educar quatro filhos, tanto que a minha irmã teve de ir trabalhar muito cedo para a poder ajudar.

Ela deixava-o ir jogar para os clubes? Isso não implicava custos, ter pelo menos de comprar chuteiras?

Se fosse para comprar chuteiras, não teria ido, mas os clubes eram dentro do bairro e davam-nos tudo. Tive a oportunidade de ir jogar futebol de onze para o Estrela da Amadora e não fui porque isso implicava ter de pagar o bilhete de autocarro.

Com que idade começou a ganhar dinheiro com o futsal?

Aos 19 anos. E isso fez com que me sentisse cada vez mais motivado a trabalhar, para poder ajudar a minha mãe e irmãos.

Não receia que o seu filho possa ir por maus caminhos?

Mesmo estando num bairro social, eu falo muito com ele e explico-lhe as coisas. A minha mãe não tinha tempo para isso; agora, o Anderson já tem outras condições. Ele é bom aluno, tento transmitir-lhe as dificuldades que a família passou, que ele tem de fazer pela vida, que não é fácil.

Quem eram as suas referências no futebol quando era miúdo?

Eram os rapazes mais velhos do bairro, eu não conhecia muita coisa. Havia um de que eu gostava especialmente e, sempre que ele ia jogar, eu ia atrás. No bairro, havia tantos jogadores com qualidade, mas era difícil saírem dali. Eu, vendo isso, queria lutar para ser um jogador a sério.

Chegou a ir por maus caminhos?

Sim, com uns 12 anos, mas a minha mãe bateu-me tanto no dia em que fiz uma porcaria grande que jurei nunca mais chegar perto de nada mau.

Como foi estar no seu bairro como jogador da Seleção?

Foi muito bom, para eles poderem acreditar que também é possível para eles - é uma motivação enorme. Estou muitas vezes na associação do bairro e estão sempre a fazer-me perguntas, pois tudo o que acontece fora dali é novidade para eles.

Saiba que

Djô, há muitos anos ao serviço do Sporting, foi operado em dezembro de 2016 ao joelho direito e só agora está de regresso à competição. Foram longos meses de ausência, a recuperar da lesão, agora amenizados com um início de época muito feliz: "Voltei a jogar e logo na estreia do Pavilhão João Rocha. Foi espetacular! Já joguei na antiga casa do Sporting e sei o quanto vai ser importante podermos jogar no nosso campo", comentou. Foi também chamado à Seleção Nacional e, como se isso não bastasse, soube que ia jogar com as gentes do seu bairro na Amadora, onde o filho, Anderson, de 8 anos, passa os dias. "Tanta coisa de uma vez... foi um dos dias mais felizes da minha vida."