Diogo Nobre: "Os finlandeses teriam dificuldade em lidar com malta espalhafatosa"

Diogo Nobre: "Os finlandeses teriam dificuldade em lidar com malta espalhafatosa"
Ana Proença

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Adora "Crime e Castigo" de Dostoievski e agora anda a ler os clássicos da literatura portuguesa. Na sua ideia, não pode ser um treinador de sucesso se não alargar horizontes. Diogo Nobre fez subir quatro vezes consecutivas de divisão um clube na Finlândia

Diogo Nobre estava a passear o cão no meio da neve quando lhe telefonei. Quinze graus negativos, disse-me. "Estou quase a morrer de frio", brincou. Liguei-lhe pouco depois das 21h00 em Portugal continental, mais duas horas em Sauvo, pequena aldeia do Sul da Finlândia onde trabalha, desde 2012, como treinador e coordenador do Peimari United, clube criado da junção de duas agremiações, de Sauvo e de Paimio, vila vizinha de 12 mil habitantes.

Depois de quatro subidas de divisão, qual é agora o desafio?

Subimos à segunda divisão finlandesa, o equivalente ao Campeonato de Portugal, e basicamente não estamos preparados para jogar num escalão que já é semiprofissional. Temos 16 miúdos que nos acompanham desde o início do projeto, a maioria estuda e mora em Turku, a 35 km daqui, e não temos dinheiro sequer para lhes pagar a gasolina para a viagem. É por isso que só treinamos três vezes por semana. Mas, claro, o objetivo é continuar a subir de divisão.

E agora, como vão fazer?

Investir num plano de marketing mais a sério. É fundamental. Tenho sido eu a angariar patrocínios e parcerias, mas, esta época, vamos ter um diretor de marketing. É jogador na equipa, mas também estudante de gestão.

O presidente do clube dá-lhe carta branca para tudo?

Sou o treinador e coordenador do clube e sinto total confiança por parte do presidente. Ele tem sido muito importante na construção das infraestruturas, pois mobiliza a comunidade de modo a garantir o financiamento. Temos uma arena de treino indoor, importante para os escalões de formação, um relvado sintético com aquecimento subterrâneo - e mesmo assim temos de calçar dois ou três pares de meias e vestir uns quatro casacos - e estão, neste momento, a ser construídas bancadas no estádio.

Disse numa outra entrevista que os adeptos ao início pareciam fantasmas...

Durante os jogos até os passarinhos se ouviam! Tivemos de os educar. Os finlandeses são muito calados e reservados. Não gostam que ninguém entre no seu espaço e têm medo de incomodar. Gritar para dentro de campo era visto como uma falta de educação. Na época passada, no jogo do título, conseguimos levar 100 dentro do autocarro connosco até ao campo do rival. Comprámos bandeiras, cachecóis e colocámos dois ex-jogadores nossos a puxar por eles. Aos poucos, temos passado a mensagem de que o futebol é paixão e emoção.

Os adeptos são sócios do clube e pagam quotas?

Nem pensar [gargalhada]. Os finlandeses, se pagam alguma coisa, querem ter logo um serviço em troca. São pessoas mais realistas e pragmáticas. As nossas fontes de receitas são os bilhetes dos jogos e a mensalidade dos jogadores até aos 19 anos.

Como justifica quatro subidas de divisão? Qual o segredo?

Há vários fatores: obviamente que tenho toda a fé no meu trabalho e dos meus adjuntos. Aqui não fazemos mais nada do que pensar no futebol. Passamos o dia a estudar e a fazer evoluir a equipa. Além disso, os nossos métodos são muito diferentes dos da Finlândia, que está muita atrasada a este nível. A maioria dos treinadores principais é finlandesa, antigos jogadores e muito maus. Eles não sabem o que é, por exemplo, a periodização tática. Depois, há também a questão da mobilização da comunidade, que temos conseguido, mantendo um grupo estável e coeso, com alguns miúdos que, embora não tenham muita qualidade, são importantes no conjunto. Integrámos no plantel três luso-africanos - Gerson, Adimar e Leonildo -, que são os únicos profissionais do grupo e foram escolhidos a dedo. São muito humildes, os finlandeses teriam dificuldade em lidar com malta espalhafatosa.

Como é o seu dia a dia?

Deito-me todos os dias às 24h e não me levanto depois das 9h. Tenho o meu próprio programa de autodesenvolvimento. De manhã estou com os jogadores profissionais, reúno-me com os meus adjuntos e faço a coordenação do clube, as tardes passo-as a ler. Desde 15 de janeiro já li quatro livros: dois do Miguel Torga, ando a ler os clássicos, e dois sobre coaching e dinâmicas de grupo. Quanto mais cultura geral tivermos, melhor conseguimos captar a realidade e passar a nossa mensagem.

É verdade que os finlandeses têm o pior café do mundo?

Confirma-se! O café das velhas é forte a comparar com este. Os meus país mandam-me café em grão e moo-o em casa.

Gosta de estar aí?

Já me habituei, mas não quer dizer que adore. Falta-me a convivência com as pessoas, aqui para se estar com um amigo, é preciso marcar na agenda, são muito formais e pouco espontâneos.