Carlos Leonel: "Já imaginou a história que poderia contar aos meus filhos?"

Carlos Leonel: "Já imaginou a história que poderia contar aos meus filhos?"
Ana Proença

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A conversa decorreu por telefone. Carlos Leonel está em Macau, onde foi o melhor marcador em 2016 e campeão pelo Benfica de Macau. O avançado encontrou o amor na ex-colónia portuguesa, mas também a peça do puzzle que lhe faltava. "Estava dentro de mim"

Carlos Leonel tem mais golos marcados do que jogos, pelo menos desde que chegou ao Benfica de Macau, vai fazer dois anos em fevereiro. Um total de 38 golos, em 33 partidas. Para a Liga de Macau 2016, contribuiu com 24 golos para o tricampeonato da sua equipa. O ponta de lança, de 29 anos, foi o melhor marcador do campeonato.

Foi preciso ir para Macau para desatar a marcar golos?

Sempre tive facilidade em marcar golos. E marco de todas as maneiras possíveis. Já viu aquele, de bicicleta, que marquei na semana passada contra uma equipa chinesa? O vídeo está na minha página de Facebook. Não é para qualquer um aquele golo!

Já nasceu com esse talento?

Acho que sim, desde muito miúdo comecei a diferenciar-me dos outros jogadores na Madeira, onde nasci. Estreei-me como sénior no Pontassolense, emprestado pelo Nacional da Madeira. O treinador era o Lito Vidigal. Ele reconhecia o meu talento, mas eu era miúdo e não tinha muitas oportunidades de jogar. Na altura, queria tudo muito rápido. Então, achei por bem ir tirar um curso superior a Coimbra - Administração Público-Privada. Pensei que me ia dar segurança. Continuei a jogar futebol, fui para o Pampilhosa, mas o profissionalismo foi-se tornando cada vez mais uma miragem.

Terminou o curso?

Sim. No último ano, fui para uma universidade do Brasil fazer um intercâmbio de seis meses e foi a machadada final - pelo menos achava eu - na minha carreira futebolística. A certa altura, contudo, um amigo convidou-me para ir ajudá-lo a fazer subir uma equipa de futebol da segunda divisão de Macau. E já que estava com as malas de viagem na mão, resolvi ir.

E por Macau ficou...

Não. Estive cá seis meses, não recebia nada para jogar, fiquei em casa do meu amigo e foi um enorme choque cultural, ao contrário do que tinha sido no Brasil. Ao fim desse tempo, e como sou muito obcecado, decidi voltar a Portugal. Sentia que os elogios que recebia em Macau eram genuínos e isso foi o empurrãozinho que faltava. O meu plano era chegar a uma equipa de I Liga no espaço de dois a três anos.

Como correu o plano?

Não correu bem, mas estou muito feliz por ter decidido voltar a Macau. Estive no Fátima. Cheguei lá quando o clube estava a atravessar uma crise e eu fiz os golos de que precisavam. Depois, fui para o Tirsense, mas as coisas não correram tão bem. A pressão era enorme e o que recebia não era proporcional. Até que a minha namorada, que eu tinha conhecido em Macau, foi visitar-me e disse-me que ou eu ia para Macau ou ela vinha para Portugal. Achei bem e decidimos que o melhor era virmos os dois para Macau. E aqui tive as respostas de que precisava, abri a minha mente e os meus horizontes. Era um miúdo sem cabeça e hoje sou um jogador completamente diferente. No meu íntimo, ainda acredito que posso ir para um clube grande.

Mas ainda há pouco disse que estava feliz em Macau...

Sim, é verdade, mas já imaginou a história que poderia contar aos meus filhos? A minha ambição não é financeira, é desportiva.

Assim que chegou a Macau, foi oferecer-se ao Benfica local?

Não foi preciso. Já cá tinha estado e recebi logo várias propostas. Claro que aceitei ir para o campeão macaense, onde sou profissional. Apesar de a equipa ser semiprofissional, no meu caso, eu trabalho como se estivesse a treinar no Real Madrid. Tenho inclusive um "mental coach", o Nuno Matos, pois comecei a perceber que o futebol não é apenas talento, também passa pela capacidade mental, pela gestão de carreira... Comecei a ler muito sobre a questão da mente e foi como se tivesse encontrado a caixa de Pandora, mas dentro de mim.

Como é o trabalho que faz com o "mental coach"? Encontram-se regularmente para conversar?

Ele dá-me exercícios práticos para eu fazer e vamos falando pelo Skype.

Por falar em filhos, como foi cair de amores por uma macaense?

Conhecemo-nos na festa de aniversário de um colega meu. Na altura, eu mal sabia falar inglês, mas, mesmo assim, consegui estar a conversar com ela mais de meia hora [risos]. O que vale é que sempre fui um tipo desenrascado [mais risos]. Atualmente ela está a aprender português e eu estou a ter aulas de mandarim.

Em Macau, as temporadas de futebol não funcionam como na Europa e, nesta altura, Carlos Joel prepara-se para o arranque de mais uma pré-época. O campeonato começa em janeiro e, segundo o ponta de lança, o objetivo da equipa é conquistar o quarto título consecutivo e alcançar a fase de grupos da AFC Cup, o equivalente à nossa Liga Europa. "O campeonato macaense não tem o nível do chinês, digamos que estará ao nível de um Campeonato de Portugal ou de uma equipa de II Liga mediana. "Mas está a evoluir muito", acrescenta. O Benfica de Macau, atualmente liderado pelo português Henrique Nunes, conquistou o tricampeonato, este ano. Windsor Arch Ka I foi segundo e Sporting de Macau terceiro.