Carla Rocha: "Vou ensinar os atletas a criar uma narrativa mais apelativa"

Carla Rocha: "Vou ensinar os atletas a criar uma narrativa mais apelativa"
Ana Proença

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No seu livro "Fale menos, comunique mais", Carla Rocha conta o desastre que foi a sua estreia na rádio: "Petrifiquei, queria falar e a língua enrolava-se." É a mesma pessoa que a partir de fevereiro vai ensinar os atletas olímpicos a melhor comunicarem em público

Há uma semana, Carla Rocha foi passar o fim de semana a Guimarães e acabou o dia de sábado nas bancadas do Estádio D. Afonso Henriques, a assistir ao V. Guimarães-Benfica. Não foi essa a razão por que a contactei, mas acabámos por trocar também impressões sobre futebol. A locutora, atualmente nas manhãs da Rádio Renascença, prepara-se para, pelo segundo ano, ensinar um lote de atletas olímpicos a melhor comunicarem em público. É a segunda edição do "Atletas Speakers", do Comité Olímpico de Portugal.

Qual o objetivo da formação que vai dar aos atletas olímpicos em fevereiro?

O objetivo é dar-lhes formação e o apoio necessário para que possam desenvolver uma atividade como "keynote speakers" ou palestrantes motivacionais.

Que lhes sirva como alternativa profissional?

Também. Por um lado, dar-lhes capacidade para poderem criar uma fonte de rendimento alternativa - muitas das suas práticas podem aplicar-se e ser úteis em contexto empresarial. Por outro lado, eles merecem que a sociedade conheça melhor as suas histórias inspiradoras. O ano passado fiquei com a sensação de que eles têm uma força sobre-humana. A maioria das pessoas não tem noção do que faz um atleta de alta competição para se preparar. O meu objetivo é dar-lhe técnicas de apresentação em público e ajudá-los a criar uma narrativa mais apelativa.

Os atletas são tímidos? Têm dificuldade em falar em público?

A ideia com que fiquei, no geral, da experiência do ano passado, é de que a maioria se limita a contar a sua história cronologicamente. Eu tento que eles façam da sua história um filme para quem os está a ouvir; é algo que se treina. Além disso, ajudo cada atleta a encontrar o seu tópico.

Como assim?

A formação começa com uma sessão geral, aberta a todos, sobre técnicas de apresentação. Depois há sessões individuais, em que tentamos identificar o tema que mais tem a ver com a experiência do atleta em si.

Pode exemplificar?

A Naide Gomes foi uma das atletas que acompanhei no ano passado. A carreira dela foi pautada pela dor, pois teve muitas lesões. Então faz sentido que a resiliência seja o tema a abordar: como conseguir ultrapassar os momentos de dor e ficar mais forte. Por exemplo, no caso da judoca Telma Monteiro, o tópico que identificámos foi a importância da concorrência, enquanto no triatleta João Silva foi a gestão do tempo, se não estou em erro. Cada atleta tem uma experiência específica que pode partilhar e ser útil aos outros.

Mas basta saberem partilhar essas experiências? Ainda que sejam histórias inspiradoras, nem sempre é fácil aplicá-las às vidas comuns ou fazer uma transposição de contexto.

Ah... mas eles não se limitam a contar as suas histórias! Eu obrigo-os a estudar muito sobre os temas, são levados ao limite da investigação. Para além da parte emocional, que é a história deles, é importante existir um fundamento mais teórico. A ideia é que a informação transmitida possa ser útil aos outros. Acredito genuinamente na capacidade de comunicação de toda a gente.

Começou por ser locutora de rádio, agora é também autora e especialista em comunicação, com a academia "Fale menos, comunique mais". Qual a sua opinião sobre a comunicação no futebol?

Do que vou lendo e ouvindo, é má. Vejo grandes aberrações em termos comunicacionais no futebol - estou na dúvida se por falta de educação e bom senso, se por má técnica. É um assunto complexo, mas fico chocada com o discurso agressivo e de apelo à violência que altos responsáveis adotam.

Isso faz com que não goste de futebol?

Nada disso. Até gosto bastante, na medida em que tem a capacidade de juntar pessoas e unir uma sociedade. Vejo sempre futebol como uma criança na feira pela primeira vez. Uma das minhas resoluções de ano novo foi visitar uma cidade portuguesa todos os meses. No fim de semana passado fui a Guimarães e assisti ao V. Guimarães-Benfica. E fiquei surpreendida pela forma como as pessoas da cidade vibram com o futebol; saí de lá arrepiada. O meu marido tem lugar cativo na Luz, eu simpatizo com o Benfica, mas ali estava a torcer pelo Vitória [risos].

SAIBA QUE

A 1.ª edição do programa "Atletas Speakers", promovido em 2016 pela Comissão de Atletas Olímpicos do Comité Olímpico de Portugal, contou com a participação de: Telma Monteiro, Nuno Barreto, Álvaro Marinho, Célio Dias, David Rosa, Filipa Cavalleri, Jéssica Augusto, Joana Pratas, João Silva, Joaquim Videira, José Costa, Marisa Barros, Naide Gomes, Sara Carmo, Sílvia Saiote e Susana Feitor. A 2.ª edição arranca a 1 de fevereiro com uma formação em técnicas de apresentação aberta a todos os atletas olímpicos. Depois arrancam as sessões individuais, para as quais os atletas são selecionados mediante candidatura, que inclui o envio de um vídeo.