António José Silva: o homem que está a pôr "Portugal a Nadar"

António José Silva: o homem que está a pôr "Portugal a Nadar"
Ana Proença

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Não falámos de Tóquio"2020 nem das atuais esperanças portuguesas, mas falámos de como é possível, nos dias que correm, tornar a natação mais apelativa. E qual o perfil dos campeões. O presidente da federação quer 100 mil atletas em 2020

Soube-se, esta semana, que a Federação Portuguesa de Natação (FPN) é a que mais contribui atualmente para o Desenvolvimento da Prática Desportiva a nível nacional. O cálculo foi feito pelo Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ) com base no número de praticantes - a este nível, o futebol lidera e está noutra estratosfera, com quase 170 mil federados em 2016/17 -, combinado com outros fatores como a taxa de crescimento, a paridade do género, a implantação geográfica, o número de clubes e treinadores, entre outros.

Olhando apenas para o número de praticantes, vejo que a FPN tem atualmente 52 355 atletas. Em 2013, início do seu primeiro mandato, eram 11 651. É um crescimento brutal em apenas cinco anos.

Sim. Fizemos um estudo e verificámos existirem cerca de 650 mil praticantes sistemáticos em Portugal, pessoas que vão à piscina duas a três vezes por semana. Então sugerimos às autarquias, clubes e health clubs passar a trabalhar em conjunto: nós ajudamos a formar técnicos e garantimos a certificação de qualidade dessas escolas a todos os níveis. Em contrapartida, esses praticantes sistemáticos passaram a estar enquadrados na federação.

Sem precisar de competir?

Não. Tem de existir prática competitiva, mesmo que básica. Começámos a organizar encontros entre escolas.

Todo este projeto de crescimento de que me fala é o "Portugal a Nadar"?

Exato. Foi o nome que lhe demos em 2014, quando arrancou. No ano seguinte, o número de praticantes aumentou 98,6% - de 21 695 para 43 083. Neste momento temos 75 escolas certificadas e 130 em processo de certificação. O nosso objetivo é chegar aos 100 mil praticantes até 2020.

No que diz respeito a atletas em regime de Alto Rendimento, também cresceram muito: de 18 em 2013 para 40 em 2016. Como se convence um jovem, nos dias de hoje, a estar horas e mais horas a ver azulejos numa piscina? Parece extremamente monótono.

Não há dúvida, a natação é dos desportos mais completos, mas também mais complexos na prevenção do abandono. É preciso uma grande criatividade e o problema não é apenas nosso, mas de todas as modalidades tradicionais. A geração Millennial, nascida depois de 2000, altamente consumidora e ligada às tecnologias, sente-se mais atraída pelos desportos radicais. E depois há o problema da diminuição da taxa de natalidade. Temos vindo a alterar os regulamentos no sentido de tornar as competições jovens mais apelativas. Criámos estafetas mistas, por exemplo. É preciso que os miúdos vejam a natação como uma festa para se sentirem motivados. Tentamos aumentar a interação social, ter programas adequados à idade e com a possibilidade de progressão ao longo do tempo.

Está a falar de crianças em formação. Como se motiva depois na alta competição?

A partir de determinada idade, os nadadores têm de sentir que o seu esforço e dedicação se traduz na evolução dos seus resultados. Mas atenção: é preciso ter um perfil muito particular para se ser nadador.

Como é esse perfil?

Falo de pessoas altamente focadas e perfeccionistas, com uma vida muito sistematizada, para permitir estudar, treinar e ter alguma vida social. De outra forma não é possível. É natural que alguns desistam porque não têm esse perfil. Os que se conseguem manter são os que têm a combinação perfeita entre talento físico, condições de treino, espírito de dedicação e sacrifício.

Antigamente não havia ortopedista ou médico de família que não mandasse os doentes para a natação. Sente que ainda é assim?

[Risos] A natação terapêutica continua a ter um papel importante. Mas gostava de falar de outra vertente que lançámos agora para a agenda política. Queremos tornar a natação obrigatória no 1.º ciclo do ensino básico. Em vez de natação, vamos chamar competência aquática. Num país com 700 km de costa marítima, é uma questão de literacia motora, mas também económica, turística e social. Juntámo-nos com outras onze federações e vamos fazer chegar uma proposta de projeto de lei à Assembleia da República.

SAIBA QUE

António José Silva, de 47 anos, sabe o que é estar horas a fio a olhar para o fundo azul da piscina. Competiu em natação entre os 10 e os 19 anos. Agora, faz umas corridas e, este ano, cumpriu os 21 quilómetros da meia maratona de Lisboa. A sede da Federação Portuguesa de Natação situa-se no Complexo Desportivo do Jamor e a vida do seu presidente é grande parte passada na A1. António José Silva, homem do Norte, foi vice-reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro até novembro. No mês passado candidatou-se a reitor, mas não ganhou e no final deste ano vai retomar a atividade de investigação, bem como as aulas de treino desportivo e natação e a coordenação de doutoramentos.