Quando todos são campeões no judo

Quando todos são campeões no judo
Paulo Nunes Teixeira

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Joana Ramos e João Pina, dois dos principais rostos do judo nacional, destacam a satisfação pelo crescimento do Instituto do Judo, projeto que visa essencialmente dar oportunidades a quem não tem meios para a prática desportiva

Rodeados por cerca de quatro centenas de crianças, o olhar de João Pina e Joana Ramos reflete orgulho e satisfação pelo crescimento de um projeto criado em 2012 e cuja vertente social visa possibilitar a prática do judo a jovens que não podem fazê-lo num clube ou escola. Falamos do Instituto do Judo, associação sem fins lucrativos que há duas semanas promoveu mais um torneio na Escola Secundária Seomara da Costa Primo, na Amadora. Com muitos pais a assistir, o antigo bicampeão europeu e a judoca olímpica, auxiliados por vários voluntários e outros dos fundadores do instituto, como o também olímpico Sergiu Oleinic, João Rodrigues e João Cardoso, organizaram a competição, mas aqui a presença no pódio é secundária. A génese do instituto é mesmo incutir valores e ajudar a formar cidadãos. "Decidimos que todas as medalhas fossem douradas, sem qualquer tipo de descrição de lugar, e dessa forma todos são campeões e, como todos deram o máximo, todos têm uma medalha de ouro", refere Joana Ramos.

Com diversos voluntários em ação, foi possível meter mãos à obra e reunir duas dezenas de clubes. A iniciar a caminhada para Tóquio"2020, aos 36 anos, a judoca do Sporting adora ensinar os mais novos. "Há uma altura da nossa vida de atletas em que abarcámos tantas experiências que a satisfação de ganhar mais uma medalha já não nos dá um prazer transbordante. No meu caso, do Pina e de outros atletas, precisamos de mais e isso passa por retribuir ensinando, passando valores, ajudando os miúdos no percurso competitivo. Para mim, é um gozo enorme vê-los gostar da competição e dar a volta por cima à derrota", sublinha Joana.

Em modo multifunções, de microfone em punho, João Pina vai chamando o nome dos mais pequenos e é numa pausa que se disponibiliza para falar com o O JOGO. "O que conta é a mensagem de formar cidadãos e dar oportunidade a quem não as tem. É bom proporcionar isso e depois ver resultados", diz o técnico do Sporting. Multimedalhado enquanto atleta de alta competição, o instituto é mais um pódio na vida de João Pina. "Temos cerca de 150 jovens, dos quatro aos 14 anos. O que eles pagam é irrisório, e alguns não pagam. Por exemplo, na Amadora, temos vários blocos de judo nas escolas. Nos três primeiros meses fazemos gratuitamente e damos a possibilidade, com uma mensalidade bastante reduzida, de continuarem a praticar. E além do torneio anual, já organizámos colónias de férias", diz Pina.

Algés em força

Após cinco anos e meio no Brasil, Pedro Dias regressou a Portugal em 2017. Ao lado de Pedro Jacinto, o antigo judoca olímpico integra a equipa técnica do Sport Algés e Dafundo e esteve presente pela primeira vez num torneio do Instituto do Judo. "Estava na hora de voltar a casa e quase todos os fins de semana estamos envolvidos numa série de atividades. Aqui, o importante é o convívio, a experiência em si e o facto das crianças se desafiarem, terem novas sensações e saberem lidar com a vitória e a derrota", diz. Também ciente da transmissão de valores nestas idades, Pedro Jacinto destaca as amizades criadas num ápice. "É engraçado ver que fazem amigos numa hora e, de ano para ano, quando estão no torneio, dizem isso quando se reencontram. Ganhar é o que menos importa. Nestas ações, importante é que os pais possam saber o que é o judo e ver o que os filhos têm aprendido ao longo do ano", sublinha Jacinto.

Do futebol para o judo: uma lufada de ar fresco

Aos 10 anos, João Mendes está a dar os primeiros passos no judo. Acabado de sair de um jogo do Belenenses, e mesmo com um toque no pé, correu para o torneio na companhia dos pais e da irmã, a tempo de pisar o tatami. Para trás ficou um jogo quentinho no relvado e o progenitor, João Cardoso, que assistiu pela primeira vez a um torneio de judo, destaca as diferenças para o futebol. "O judo é uma lufada de ar fresco. Isto, sim, é desporto e ainda estou a descobrir este mundo. Antes do torneio, o mestre Pedro Jacinto [treinador do filho no Algés] dizia que quando o atleta está em vantagem e aleija um adversário, deve abdicar em prol do bem-estar do rival. Expliquei isso ao meu filho e é isto que um pai de uma criança de 10 anos quer. No futebol é: caiu, aleijou-se, segue para golo", afirma um dos muitos pais presentes nas bancadas. No final, o João levou uma medalha para juntar ao cofre lá de casa, onde guarda as "conquistas". A irmã, que adora animais, quer ser cavaleira, mas depois do torneio, quem sabe se não terá ficado contagiada com o bichinho do judo.

Com núcleos na Amadora e em Chelas, o instituto prepara-se para alargar o raio de ação e na forja, para abril, está outro centro de judo, e não só, no Parque das Nações. "Estamos em conversações com a junta e com uma escola primária na zona. Há duas salas que precisam de ser aumentadas e reabilitadas para montarmos um tapete que seja polivalente, porque queremos fazer algo diferente e chegar à terceira idade. Não será com quimono, mas mais no âmbito da atividade física/treino funcional e preventivo de lesões. A parte social e convívio nestas idades também é importante, e estou convicto de que haverá boa aceitação", revela Pina.