O sonho americano do outro João Moutinho

O sonho americano do outro João Moutinho
Rui Jorge Trombinhas

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Há um ano, jogava nos juniores do Sporting, mas esta semana estreou-se na MLS, na novíssima equipa de Los Angeles. João Moutinho já conquistou o lugar na história do clube

"Bom dia. Na primeira escolha do superdraft de 2018 da MLS, os Los Angeles FC escolhem, da Universidade de Akron, o defesa João Moutinho." Foi assim que o lateral-esquerdo português de 20 anos entrou para a história dos LAFC, o novo emblema da liga americana de futebol para esta época, tendo sido a primeira escolha do clube no draft, o sorteio anual dos jogadores graduados das equipas universitárias e que não integram a MLS. Até ao momento em que ouviu o nome, João não sabia para onde teria de se mudar. "Era um dos jogadores elegíveis e estava à espera que dissessem o meu nome, mas não sabia de nada. Só descobri que era primeira escolha quando o comissário Don Garber disse o meu nome. Os jogadores assinam contrato com a liga e não com os clubes. Eu assinei e estava elegível para o draft, mas não sabia para onde ia. Senti-me um pouco um símbolo dos Los Angeles FC, por ter sido a primeira escolha. Foi uma grande honra e foi muito bom depositarem esta confiança em mim", confessou João Moutinho em declarações a O JOGO.

Do frio para o calor

Até junho de 2017, João Moutinho era jogador do Sporting, dos juniores, mas decidiu trocar Alcochete pelos Estados Unidos no último verão. "Vim através da Next Level, que ajuda atletas a conseguirem bolsas universitárias nos Estados Unidos, enquanto jogam. Sair do Sporting foi uma decisão difícil, mas estava mentalizado de que era isto que queria. Seguir os estudos era importante para mim. Fiz o primeiro semestre em Akron, no estado de Ohio, e correu bem. Chegámos à meia-final do campeonato e depois surgiu esta oportunidade."

O português foi para os Estados Unidos estudar Gestão, mas agora colocou os livros na prateleira por uns tempos. A prioridade, para já, é instalar-se em Los Angeles, na Califórnia - ainda procura casa para viver - e depois beneficiará de um protocolo da MLS com uma universidade para continuar os estudos. "Estou a adorar os primeiros tempos aqui. A cidade é ótima, o clima é ótimo, está sol e calor. Em Akron fazia um frio de rachar. É impossível não gostar de Los Angeles", sublinha.

Quanto à equipa, dá os primeiros passos com um grupo de jogadores que estão às ordens de Bob Bradley, antigo selecionador norte-americano, há apenas algumas semanas. "Estamos a evoluir bem desde os primeiros dias em que ninguém se conhecia. É uma equipa nova, uma expansion team, por isso todos os jogadores são novos e estamos a criar rotinas. Ainda há muito a melhorar, o entrosamento não está a 100 por cento, claro."

Ainda assim, os resultados já estão a surgir. No jogo de abertura da MLS, os Los Angeles FC venceram os Seattle Sounders, vice-campeão em 2017, com João Moutinho a titular, ele que, dias antes, tinha marcado o primeiro golo da história da equipa, num particular em Sacramento. "Foi o primeiro jogo aberto ao público e marquei. Foi muito bom, qualquer jogador gosta é de marcar golos", sublinha. Na segunda partida, nova vitória, agora por 5-1 frente ao Real Salt Lake, e de novo com o português a comandar o lado esquerdo da defesa.

Começar do zero

O Los Angeles FC estabeleceu-se em 2014, mas só este ano chegou à competição na MLS. Até agora esteve a preparar as bases, incluindo a construção do Estádio Banco da Califórnia, vizinho de velhinho Coliseum, o estádio olímpico onde Carlos Lopes conquistou a primeira medalha de ouro olímpica para Portugal, em 1984.

Apesar da juventude do emblema, João Moutinho sublinha que tudo funciona sobre rodas, como se de um histórico se tratasse. "Não se nota nada. As pessoas são todas muito profissionais e trabalha-se a sério. Se não soubesse e me dissessem que o clube tinha 50 ou 60 anos, eu acreditava." Nas redes sociais o marketing do clube funciona. O LAFC já tem perto de 300 mil seguidores no Facebook e começa a construir uma boa base de adeptos à volta da equipa. "Sinceramente, não sei como isto aconteceu, como se reúnem adeptos assim à volta de um clube novo. O marketing trabalha bem e a MLS está com um crescimento rápido de ano para ano. Os estádios enchem e a média de assistência é de 22 mil espectadores por jogo, creio que até é superior aos jogos da liga portuguesa [n.d.r.: a média de assistências, por jogo, na primeira volta da I Liga foi de 13 mil espectadores]. Em Los Angeles, há uma grande comunidade mexicana e para eles o desporto-rei é o futebol. A criação de uma segunda equipa em Los Angeles agradou-lhes e temos muitos mexicanos entre os apoiantes, ainda para mais com a chegada do Carlos Vela."

Na cidade há também muitos portugueses, entre os quais João Pedro, do rival LA Galaxy. Moutinho ainda não teve oportunidade de o conhecer e também não viu bandeiras portuguesas nos jogos, por isso deixa um pedido. "Espero também ver a comunidade portuguesa nos meus jogos." O próximo é a 31 de março e logo o dérbi da cidade, frente aos Galaxy. Jogo grande.

À semelhança do que acontece nos outros desportos nos Estados Unidos, como a NFL ou a NBA, o draft da liga de futebol também é um espetáculo por si só, com as equipas reunidas numa sala, os jogadores à espera e os adeptos presentes. Tudo como se vê na televisão. "O ambiente é parecido ao que acontece na NBA, por exemplo. Claro que não há tanta exposição, porque futebol não tem o mesmo protagonismo, mas é um espetáculo e gostei muito da experiência. Moutinho revela que chegar à MLS foi boa e uma consequência do bom trabalho no futebol universitário. "Não me sentia observado nesses jogos, não tinha essa perceção, mas também preocupava-me mais em jogar e dar o melhor para a equipa. Sabia que se me focasse nisso, as outras coisas aconteciam naturalmente."