José Massuça: "Comi hambúrgueres e pizza durante a prova"

José Massuça: "Comi hambúrgueres e pizza durante a prova"
Rui Jorge Trombinhas

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Foi no Havai que José Massuça, de 46 anos, entrou para a história. Foi o primeiro português a participar no Epic5, o triatlo oficial mais duro do mundo, com cinco provas de Ironman em cinco dias consecutivos. E venceu

Como se aceita um desafio que muitos consideram impossível de realizar?

Essa é a pergunta. Mas vivo num processo de superação em superação desde que fiz a primeira corrida de 10 quilómetros, há 10 anos. Mas há aqui algo muito pessoal, um desejo de conseguir fazer sempre melhor, ir um pouco mais além.

Nunca ninguém lhe disse que isto não era boa ideia?

Sim, muitas vezes. Que não fazia bem à saúde, que já não era novo, tudo isso. Tenho duas regras com a minha família: o treino encaixa na vida e não o contrário; e estou proibido de andar nos limites do meu corpo. Nunca posso sentir que estou a perder a capacidade de controlo.

É um salto muito grande, dos 10 quilómetros para o Epic5, com um total de 1130 quilómetros.

Queria fazer algo diferente, algo que ninguém tinha feito. Para entrar nesta prova, tem de ser por convite. Nunca tinham convidado um português. Sou um dos quatro portugueses que já completaram o Ultraman, em 2015, com 44 anos. E tenho Ironman abaixo das 10 horas. E neste último ano, a nível profissional, estive mais parado e optei por tirar um ano sabático e dedicar-me, de forma séria, à preparação para esta prova. Tive de mudar a regra e moldei a minha vida ao treino.

E como fez isso?

Trabalho muito em Angola e a corrida tornou-se no meu escape diário. Vivi lá quase quatro anos seguidos, estava sozinho, a família ficou sempre em Portugal, e fui evoluindo um pouco mais na corrida. Mas neste ano tornei-me, praticamente, num atleta profissional. Chegava a treinar 35 horas por semana com o meu treinador, o triatleta José Estrangeiro. Dediquei-me muito mais a sério ao desporto e isso permitiu-me ver como se preparam os profissionais para uma prova. Dedicam um ano inteiro para estar bem numa prova. A vida de desportista é muito dura.

Tudo para chegar à prova em condições.

Tinha de ser. Esta é considerada a prova de triatlo oficial mais dura, pois tem a certificação de Federação Americana de Triatlo. Há outras, mas não são oficiais. São cinco Ironman, de 3800 metros a nadar, 180 quilómetros de bicicleta e outros 42 a correr. Isto em cada dia, cinco dias consecutivos em cinco ilhas do Havai. Éramos nove inscritos, mas só apareceram sete na linha de partida. Terminámos quatro.

E venceu.

Verdade. No primeiro dia terminei em terceiro lugar; no dia seguinte subi ao segundo. No quarto dia, já acabei em primeiro, porque o espanhol que ia na frente desistiu, quando tinha duas horas de avanço para mim. Ele não estava bem, mais a nível mental do que físico. E assim, no último dia, acabei por ter de lutar pela manutenção do primeiro lugar.

O estado mental é tão ou mais importante do que o nível físico.

Sem dúvida. No terceiro dia, por exemplo, fizemos a maratona totalmente à noite, na ilha de Malokai. Corremos no meio do mato, com vários animais ao longo do caminho. E cada ilha era mais difícil do que a anterior, ao contrário do que nos tinham dito. E depois há o sono. Dormia pouco tempo, porque além da prova, de 13 ou 14 horas, ainda tínhamos de viajar de ilha para ilha. O meu receio era o de adormecer em cima da bicicleta, em que passamos muitas horas numa posição quase deitada. Dormia menos de três horas. Depois da prova, andei 15 dias para regular os sonos.

E a alimentação? Como se abastece um corpo que precisa de calorias, mas que pode rejeitar qualquer alimento?

Foi um equilíbrio muito complicado. Até ao segundo dia, ia com a alimentação de atleta, à base de barras e gel energético. Mas no terceiro dia, num abastecimento, a minha mulher estava a comer um cheeseburguer e eu comi um pouco. A partir daí, quis sempre comida a sério. Comia hambúrgueres, pizza, sandes de frango e massa durante a prova, nos abastecimentos.

Agora, à distância, sente que esteve perto desse tal limite que nunca quis ultrapassar?

Em termos físicos, tirando as dores nos pés do último dia, estava bem. No dia seguinte não me doía nada. Mas talvez tenha atingido o limite emocional. Fiz os últimos cinco quilómetros em lágrimas. Emocionalmente, libertei-me nessa altura. Senti que já ninguém me apanhava, senti que a prova estava acabada e já ganha. Fiz essa distância em êxtase emocional.