"Pato" Carvalho, português no UFC

"Pato" Carvalho, português no UFC
Rui Jorge Trombinhas

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O lutador luso-canadiano derrotou o brasileiro Rodrigo Damm, no evento 154 do Ultimate Fighting Championship, realizado no sábado.

Não nasceu em Portugal, mas tem o país de Camões no coração. Filho de pais emigrantes e residente no Canadá, é o único "luso" a combater no mediático campeonato do UFC, tendo realizado sábado, 17 de novembro, o terceiro combate no mais mediático campeonato de artes marciais mistas. Venceu o brasileiro Rogrido Damm através da decisão dos juízes, somando assim a segunda vitória consecutiva na competição, depois de, em julho, ter vencido, por KO, o norte-americano Daniel Pineda.

Um nome bem português

António "Pato" Carvalho luta com a bandeira do Canadá, país onde nasceu, mas o nome não deixa dúvidas. "Nasci em Sault Saint Marie, no sul do Canadá, na zona dos grandes lagos. O meu pai é de Viseu e a minha mãe de Coimbra. Eu e o meu irmão já nascemos cá", acrescenta o lutador num português perfeito, mas que não disfarça um sotaque típico de quem está fora há muitos anos. A língua aprendeu-a, naturalmente, em casa, mas também quando viveu em Portugal na infância. "Tinha uns 9 ou 10 anos quando fui para Portugal com os meus pais, para Viseu. Vivemos lá durante uns sete anos. Foi aí que cresci. Jogava futebol, a guarda-redes, no Sport Viseu e Benfica e até era bom. Aos 13 anos fui convidado a prestar provas no Sporting e acho que até me portei bem, mas acabei por não ficar porque não tinha um português perfeito. Assim continuei a jogar em Viseu."

O futebol manteve-se na vida de António Carvalho até aos 20 anos, quando já vivia de novo no Canadá. Foi na universidade, quando estudava para ser polícia, que trocou a bola pelas luvas. "Jogar futebol aqui era difícil e, sinceramente, ainda pensei em voltar para Portugal quando acabasse o curso para voltar a jogar. Mas depois conheci o meu melhor amigo, que é treinador, e convenceu-me a experimentar." O bichinho da luta, confessa, já tinha nascido antes, ainda em terras lusas. "Em Viseu tinha um grande amigo, que era campeão nacional de taekwondo, e ele sempre me disse que devia tentar um dia enveredar pela luta. Eu sempre gostei de artes marciais, mas só de ver, nunca tinha experimentado. Ele dizia-me 'se tentares vais ser muito bom', mas só depois, já aqui no Canadá, decidi estrear-me nos tapetes." A primeira sensação, lembra, foi reveladora. "Senti logo que era isso que queria fazer para o resto da vida. Não consigo explicar, mas foi assim."

Entre os melhores do mundo

O judo foi o princípio de tudo para António Carvalho. Foi nos tatamis que o luso-canadiano teve os primeiros contactos com a luta, mas depressa quis mais e passou para o jiu-jitsu, modalidade em que se especializou. Mas foi tentando de tudo um pouco, desde boxe ao wrestling passando, é claro, pela modalidade do amigo luso, o taekwondo. Depressa se tornou um atleta de MMA, artes marciais mistas, começando a participar em vários campeonatos. A intenção de seguir carreira nas forças policiais passou para segundo plano. "Acabei o curso, mas tornei-me logo profissional da luta. Vivo das artes marciais, foi algo que me ajudou a fortalecer, fisicamente e mentalmente. Sou uma pessoa honesta e gosto de pessoas honestas. As artes marciais são um desporto honesto e foi isso que me cativou mais."

Os primeiros resultados de "Pato" em competição foram animadores. O primeiro combate, em 2002, foi vitorioso e a esse triunfo seguiram-se outros sete que deram ao luso-canadiano um balanço de 8-0 em menos de três anos de competição. "Emigrou" para os Estados Unidos afim de competir no campeonato de Shooto, no qual quase chegou ao estatuto de líder. Perdeu no combate decisivo, mas o nome já era bem conhecido no mundo da luta e viajou depois para o Japão para disputar o título mundial de 65 quilos. Acabou por perder para um adversário que já antes tinha vencido, mas as derrotas não apagaram o passado de António. "Entre 2005 e 2007 estive em 2º lugar no ranking de melhores lutadores para o meu peso." A recompensa veio há poucos meses, aos 33 anos, quando foi promovido ao campeonato maior de MMA, o Ultimate Fighting Championship, UFC.

Profissional... em part-time

Apesar da vida de António Carvalho girar em torno da luta, a verdade é que em 10 anos de competição tem apenas 20 combates - registo de 15 vitórias e cinco derrotas - numa média de menos de dois combates por ano. Quando não está a lutar, "Pato" está a treinar... os outros! "São poucos os lutadores que conseguem viver exclusivamente dos combates. Quase todos têm de trabalhar e eu não sou exceção. Felizmente consigo trabalhar no meio da luta. Sou professor de artes marciais e é daí que vem a minha subsistência. Ganho algum dinheiro com os combates, é claro, mas não o suficiente para conseguir viver." É na academia de Justin Bruckmann, o amigo lutador que "desviou" o luso-canadiano da polícia, que António Carvalho dá aulas e que treina ao mesmo tempo. Os combates, propriamente ditos, chegam a conta-gotas, até porque as lesões e o corpo não dão para mais. "Gostava de ter quatro ou cinco combates por ano, mas se tiver sorte faço três... É muito fácil ter lesões neste desporto e tenho de ter cuidado, não só porque se estiver lesionado não combato bem e arrisco-me a perder, mas principalmente porque tudo isto também é entretenimento. As pessoas pagam para ver um bom espetáculo e se estiver a lutar lesionado posso não conseguir uma boa performance e perder o meu lugar. Já tive lesões em todo o corpo, mas principalmente nos joelhos. Às vezes nem sei que lesões tenho. Estou tão bem preparado que ignoro a dor e só depois dos combates me apercebo do meu estado. Também devo muito à minha namorada. É fisioterapeuta e foi por causa disso que a conheci. Estava muito mal e foi ela que colocou o meu corpo apto para lutar novamente. Agora acompanha-me para todo o lado."

Apesar de ser um lutador respeitado e, convenhamos, um homem com quem não se convém meter, António Carvalho tende a passar discreto entre a comunidade onde vive, em Oshawa, perto de Toronto. "Tenho uma vida normal. Vivo com a minha namorada e tenho um cão. A maior parte das pessoas não sabe o que faço. Não tenho a aparência comum dos lutadores. Não sou muito grande nem tenho tatuagens. Sou só um professor de artes marciais. Se me perguntarem se luto profissionalmente não vou mentir, mas não faço publicidade disso. Quero que me vejam pelo que sou e não pelo que faço. Sei o que as pessoas pensam dos lutadores."

Pato nasceu numa "ofensa"

É António Carvalho de nome, mas é por "Pato" que é conhecido no mundo da luta. A alcunha nasceu num diálogo aceso com um treinador. "Quando me estava a iniciar na luta treinava judo e jiu-jitsu e o meu treinador de judo não gostava disso. Um dia, quando ia para um treino de jiu-jitsu ele chamou-me e disse-me que estava a querer nadar com os patos em vez de voar com as águias, que eram, segundo ele, os judocas. Não gostei da observação e disse-lhe que se ele era uma águia então eu preferia ser um pato. Os meus colegas do jiu-jitsu ouviram e começaram a chamar-me 'Duck', que depois traduzi para 'Pato', em português."

Portugal no coração

O português falado de António roça a perfeição, algo natural pois fala a língua de Camões diariamente. "Tenho os meus pais comigo e há também muitos lutadores brasileiros aqui, com quem falo português. Mas há muito tempo que não vou a Portugal, por causa dos combates. Quero estar sempre disponível caso seja chamado para lutar e aqui tenho tudo o que preciso. Tenho família aí e quero voltar para matar saudades e, já agora, ver como está o nível da luta em Portugal. Tenho um primo que luta e diz que as coisas estão a evoluir. Há bons lutadores, mas a competição ainda está num nível mais baixo." No entanto como lutador Pato compete com a bandeira do Canadá, embora não deixe de lado a hipótese de defender as cores lusas. "Tenho dupla nacionalidade e já pensei nisso. Num dos meus últimos combates já se discutiu isso, por causa da minha ascendência. Talvez no futuro o UFC queira puxar por aí, até porque o mercado europeu de luta está a crescer. Seria algo que faria com muito orgulho, tenho sangue português e sou tão português como canadiano. Não esqueço de onde vim."

Adepto do FC Porto vibrou com Euro 2012

A comunidade portuguesa do Canadá uniu-se em redor da participação da seleção nacional no Europeu de futebol. António Carvalho não foi exceção. "Vibrámos muito com os jogos de Portugal. Foi muito triste aquele desfecho contra a Espanha. Merecíamos ter ganho. O Cristiano Ronaldo é um grande jogador." A nível de clubes o acompanhamento não é tão detalhado, confessa, mas ainda assim tenta saber o máximo de novidades sobre o clube do coração. "Gosto do FC Porto desde o famoso calcanhar de Madjer na final de Viena. Joguei no Benfica de Viseu e estive perto de assinar pelo Sporting, mas a minha paixão é o FC Porto..."

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