
Já ouviu falar em Futtoc? Provavelmente não. Pense em futebol e em pingue-pongue. Agora misture os dois! A modalidade começou a desenhar-se há dez anos em Barcelona, mas só há cerca de quatro se tornou oficial, com a criação da Associação Internacional de Futtoc. Portugal já tem uma mesa e uma bola. Hugo Leal foi testá-las.
Os primeiros toques datam de 2004 nos arredores do Estádio de Montjuic, originariamente construído para a Exposição Internacional de Barcelona de 1929 e reconstruído para os Jogos Olímpicos de 1992. Foi, pois, no decorrer destas últimas obras, e aproveitando uma das vedações existentes no local, que dois amigos, John Cano Bataller e Ildefonso Fernandez Laborda, começaram a divertir-se a tentar passar a bola de um lado para outro, recorrendo a qualquer membro do corpo, exceto as mãos. Repetiram o "passatempo" até ao dia em que a cerca desapareceu.
Apaixonados por futebol, John Cano Bataller e Toto rapidamente adaptaram o jogo que tinham inventado a uma mesa de pingue-pongue, com rede incorporada. "O Futtoc pode-se jogar com o pé, a cabeça, os ombro, os joelhos, com todas as partes do corpo menos com as mãos, que não podem tocar nem na bola nem na mesa. Se isso acontecer, o jogador perde o ponto. Há jogos de um para um ou de duplas" contou à J Roberto Diaz, empresário e representante da Associação Internacional de Futtoc em Portugal.
"As regras são praticamente iguais às do pingue-pongue. A pontuação é feita da mesma forma, são sete jogos de 11 pontos, dois serviços para cada jogador e a bola só pode tocar uma única vez na mesa. A única diferença é no serviço. A primeira vez que a bola toca na mesa é no meio campo contrário, enquanto no pingue-pongue a bola no serviço pica primeiro no nosso lado da mesa."
A bola tem características específicas, um peso a rondar as 360 gramas, portanto mais leve que as regulamentadas pela FIFA para a prática de futebol, com um peso entre 410 e 450 gramas. E a mesa original sofreu, entretanto, alterações e tem um formato oval, é mais resistente e mais baixa.
Opção de treino para o futebol profissional
Depois de uma primeira lição teórica, a exibição prática no I6 Clube Padel Cascais, na Abóbada. Hugo Leal não conhecia o jogo, precisou de alguns esclarecimentos e... tempo de adaptação. "A grande dificuldade foi a bola, totalmente diferente da de futebol. Os primeiros toques saem com alguma força. O mais complicado foi ter a noção do peso da bola e apurar distâncias", confessou o antigo jogador do Benfica e Atlético Madrid, entre outros. "É um jogo atrativo. E, jogando dois contra dois, pode ser ainda atrativo", comentou ainda com respiração ligeiramente acelerada e a camisola já bastante transpirada. "É exigente fisicamente e requer alguns dotes técnicos apurados."
São os dotes técnicos de um jogador de futebol, aliás, que mais podem beneficiar com a prática do Futtoc. "É divertido. Para os praticantes de futebol é uma alternativa interessante. Pode ajudar um futebolista a melhorar bastante a sua técnica, o domínio da bola no ar ou as receções", defendeu Hugo Leal, admitindo uma futura adoção desta nova modalidade pelas equipas profissionais de futebol. "Não me parece desadequado a introdução do Futtoc nos planos de treino de um plantel de futebol. Vemos muitos clubes a adaptar as suas infraestruturas para a criação de campos de futevólei. A colocação de uma mesa e uma bola destas será, eventualmente, mais um meio de evolução para um jogador."
Mas em que circunstâncias este jogo poderia ser introduzido num plano de treino de uma equipa profissional? "Substituindo, por exemplo, os jogos lúdicos que se fazem no relvado. Ou até mesmo em ginásio para trabalhar a recetividade, os apoios, as cargas, entre outras técnicas. Nestas situações, poderia ter o seu interesse", respondeu o jovem técnico, após perder o seu primeiro jogo de Futtoc com Bruno Fernandes, curiosamente um ex-jogador das camadas jovens do Sporting que abandonou precocemente os relvados por lesão.
"O Bruno disse-me que não tinha muita experiência, mas não me pareceu", comentou Hugo Leal, entre risos. "Ele estava melhor preparado, mas ainda fizemos uns jogos equilibrados." O jogo foi efetivamente renhido, suado e dinâmico. Os jogadores podem inclusive subir para cima da mesa para atacar.
Primeira mesa no I6 Clube Padel de Cascais
Apesar dos dez anos de história, só recentemente o Futtoc ganhou maior expressão e explosão. "A Câmara Municipal de Barcelona comprou um grande número de mesas e colocou-as em vários espaços públicos da cidade, como jardins, parques e outros. Ou seja, neste momento é gratuito jogar Futtoc, basta ter uma bola e encontrar uma mesa disponível na rua", contou Roberto Diaz, o responsável pela chegada da primeira mesa a Portugal. "Vai ficar no I6 Clube Padel de Cascais.
Estivemos a fazer uma apresentação da modalidade e a recetividade foi boa. No início, as pessoas acham difícil por terem de colocar a bola num espaço tão pequeno mas, ao fim de 15 a 20 minutos, apanham o jeito e conseguem adaptar-se às dimensões da mesa e ao peso da bola. Têm-se divertido", completa o empresário, reconhecendo fazer planos de expansão da atividade em território nacional.
Neymar e Xavi já experimentaram
Neymar e Xavi Hernández, jogadores do Barcelona, já conheceram a nova modalidade. Após o Mundial do Brasil, Neymar recebeu em casa uma mesa de Futtoc e fez o gosto ao pé. Tal como o internacional brasileiro, que gravou um vídeo a jogar com o pai, o médio espanhol também tem dado o seu contributo para a divulgação do Futtoc, segundo Roberto Diaz, empresário natural de Madrid.
Mesa de Futtoc
Medidas: 2830 x 1920 mm
Altura: 66 cm
Altura da rede: 15 cm
Formato: oval
Marcações: iguais às de um campo de futebol
(Artigo publicado na Revista J a 29 de março de 2015)
