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Roberto Rivelino: "Guarda-redes tem a função de evitar a alegria do desporto"

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A 18 de dezembro de 2015 Rivelino lançou, através da plataforma "O Mundo dos Guarda-Redes", o Dia Nacional dos Guarda-Redes, um movimento que contou com a participação de cerca de meio milhar de donos de baliza, chegando a mais de dois milhões de pessoas, muito graças às redes sociais. A iniciativa repetiu-se e o mentor revelou o sonho de globalizar a ideia

Porquê um dia inteiramente dedicado aos guarda-redes?

Porque já havia o dia do "Arquero", no México, e o do "Goleiro", no Brasil. Achei que também devia haver em Portugal.

É um apaixonado por essa posição no campo?

Sempre foi a posição de que mais gostei. Esta paixão nasceu precisamente quando não consegui ser guarda-redes nos meus tempos de federado, até aos 14 anos. Não passou a frustração, nada disso, mas passei a acompanhar a posição com outros olhos e, como havia uma lacuna em Portugal, lembrei-me de criar a plataforma d""O Mundo dos Guarda-redes" e depois, em 2015, o Dia Nacional.

Como foi recebido há um ano?

Foi um sucesso. Foi tudo preparado como uma surpresa, até para os guarda-redes - nem eles sabiam. Preparei-o ao longo de quatro meses, pedi contactos a centenas de guarda-redes, não só em Portugal mas a nomes que já passaram por cá. De futebol, de futsal, futebol de praia, andebol, hóquei, masculino e feminino. Enviei 255 imagens personalizadas para cada um deles e divulgaram nas redes sociais. Tive relatos de, no treino do Benfica, quando chegou à parte da finalização, os jogadores terem dito: "Vamos matar estes pombinhos, que hoje é o dia deles."

Que nomes participaram?

Só para dizer alguns, o Beto, o Ricardo Pereira, o Moreira, o André Girão, o Mika...

Tornar este Dia um evento global é o próximo passo?

É a esperança, claro que sim. Ter um nome como o Casillas a divulgar o evento e o conceito seria um passo de gigante nesse sentido.

Porquê o dia 18 de dezembro?

Pensei em várias datas, incluindo as datas de nascimento do Manuel Bento, do Vítor Baía ou do Vítor Damas, mas nenhuma destas figuras é do agrado de todos; estão invariavelmente ligadas a um clube. Então pensei no primeiro guarda-redes que representou a Seleção Nacional, o Carlos Guimarães, que é a imagem de marca deste dia, da sua estreia no primeiro jogo de Portugal, a 18 de dezembro de 1921, há 95 anos.

Que efeito é que o Dia teve na ideia que se tem dos guarda-redes?

Acho que ajudou a que o guarda-redes aparecesse mais e fosse mais considerado. É uma posição muitas vezes esquecida e criticada, e é tão completa e essencial. É um dia destinado a todos os guardiões, de futebol, de hóquei, de andebol... Quem é guarda-redes, é de corpo inteiro, tem orgulho em sê-lo, tem um elo de ligação com a baliza, com as redes.

Muitos olham para o guarda-redes como o "anticlímax" do futebol...

Sim, ele tem a função de evitar o golo, aquilo que dá alegria ao futebol. Mas ao mesmo tempo quer que a sua equipa marque. É um paradoxo inexplicável.

Não conseguiu ser guarda-redes mas jogou futebol federado. Quando marcava um golo, não sentia estar a trair a classe?
Não... mas nessa altura tinha 13 ou 14 anos; queria era marcar golos. Nessa idade não se questiona nada. Mas há exemplos de guarda-redes profissionais a marcar golos: Rogério Ceni, René Higuita, Chilavert...

Rui Jorge Trombinhas