FC Porto

Primeiro português na Bundesliga ainda é lenda do Estugarda

Víctor Lopes foi colega de Buchwald e Klinsmann quando se estreou em 84/85 pelos vermelhos contra o Bochum. É sportinguista, mas tem filho portista, esperando duelo intenso e emocionante. Vão estar ambos na bancada

Há quem centre a memória em Sérgio Pinto, Roberto Pinto, ou até os mais conhecidos Meira e Domínguez. Mas foi outro o primeiro português a jogar a Bundesliga, partindo esse carimbo e gabarito de Estugarda, em 1984/85. É o caso de Víctor Lopes, antigo médio, que tinha 20 anos, quando foi lançado por Helmut Benthaus em jogos com o Bochum e Leverkusen. No mesmo campo, na sua equipa, lendas como Karl-Heinz Forster ou Allgower, ou ainda Buchwald e o icónico Klinsmann, dois campeões do mundo em 1990. Seguiria carreira no Ulm e Mainz, onde fez amizade com Klopp.

A deslocação do FC Porto ao reduto do atual detentor da Taça da Alemanha num jogo que abre a discussão de um posto nos quartos-de-final entusiasma Víctor, ainda hoje a residir na Alemanha, mas com presenças em Portugal frequentes até pelas concentrações de dois em dois anos da Seleção Portuguesa do Vinho. O antigo jogador, de 61 anos, desfia o seu passado no Estugarda.

"Foi uma escola difícil onde tive de ter muita determinção para jogar e realizar o meu sonho. Tornei-me profissional e joguei no estádio fazendo parte da equipa principal, repleta de grandes jogadores. Era uma equipa que tinha acabado de vencer a sua primeira liga alemã em 1984 com os seus pilares que eram os irmãos Forster, o excelente Siggurvinson e Allgöwer", afiança Víctor Lopes, conhecedor dos registos do Estugarda, do seu foco cimeiro. "Venceram campeonatos em 50 e 52, mas ainda não era a Bundesliga, só fundada em 1963. Esse campeonato que eu vi de perto foi muito especial e celebrado durante muito tempo. Houve influência dos jogadores que falei e já do Buchwald. O Klinsmann entrou comigo, conhecíamo-nos de jogos de juniores entre Estugarda e Stuttgart Kickers, e rapidamente se desenvolveu. Estamos a falar de verdadeiras lendas", relata, focando-se um pouco mais no bombardeiro como "um avançado descontraído", algo que se fez um "fator decisivo" para fazer o seu caminho.

Com último título conquistado em 2006/07, já depois de um período em que os vermelhos tinham reputação de futebol de alto quilate com a mestria de Balakov, Víctor Lopes percorre diferentes estados que assolaram o clube. "Após o nosso triângulo dourado com Balakov, Bobic e Elber muitas coisas foram ignoradas e a linha de sucesso quebrou na falta de reforços iguais. Mudaram treinadores e mudaram jogadores, vieram derrotas, crises diretivas, má gestão e fracasso com chegada à 2ª Divisão. Deixou-se de confiar tanto nos jovens do clube, gastando-se dinheiro em atletas que eram fáceis de encontrar na academia. Atualmente, o Estugarda está bem servido na liderança e no comando técnico, vejo pessoas competentes, sem desvios de rumo", defende.

"FC Porto age como equipa italiana"

Lopes cresceu na Alemanha, sem nunca negar raízes, carregando "um sentimento português. A carreira foi deixando ensinamentos. "O meu coração bate ao nosso ritmo. Tive expetativas muito elevadas, abdiquei de muitas coisas mas dependemos sempre de outros fatores. Podes ter vontade, ambição, talento, nunca desistir, mas há que contar com o treinador, que te pode ou não incentivar. Nem sempre tive essa sorte mas a ambição permaneceu intacta", garante. "Um técnico quis corrigir-me dizendo que eu jogava muito com o coração, eu respondi que sem paixão não podia ser futebolista. Não devia ter dito isso, mas disse por ser fanático com um tratamento justo. Fui mandado para o banco, mas não fui covarde. Fiz questáo de ser tratado de forma correta, talvez tenha ficado como um revolucionário", sustenta.

O português guarda para a vida a relação com o Estugarda, mesmo que curta a nível sénior. "Marcou-me porque deu-me a estreia na Bundesliga e já jogo há 26 anos nos veteranos, uma equipa que segue invicta deste então. Vou regularmente ao estádio ver os jogos e converso com o Cacau, os Forster, Hansi Muller ou Buchwald. Fico na mesa das lendas com eles. Também não digo que não a jogos de veteranos do Mainz, sempre à espera de mais um encontro com o meu amigo Klopp", conta Víctor Lopes, que emigrou com a família da zona de Lisboa com oito anos. Pese uma já longa vida em território alemão com afetos criados pelo Estugarda, o português, que estará presente na bancada, situa-se com espírito mais patriótico. "Até sou adepto do Sporting desde o meus 6 anos, mas isso não significa que não deseje que o FC Porto avance. Sinceramente também não sigo muito a liga portuguesa, porque cansam-me as discussões por nada!", vinca, deixando fugir uma curiosa apreciação "Vejo o FC Porto muito bem treinado que joga e age de forma mais defensiva, pelo seu treinador italiano. Marca um golo e segura logo a intensidade para gerir o jogo. Tem enfrentado problemas com lesões. O meu filho, sim, é portista, e conhece os pontos fortes todos. Quando estamos em Portugal obriga-me a ir ao Dragão", graceja, mesmo assim, capaz de identificar elos fortes da muralha portista. "Destaco o Diogo Costa, os dois centrais polacos, o Froholdt, o Mora e o Gul. Mas o Estugarda parece-me ter um plantel melhor e pode ser decisivo, embora o FC Porto seja muito forte em confrontos internacionais. Que seja um primeiro jogo emocionante e vença o melhor", dispara.

Privilégio do golo de Carlos Manuel

Víctor Lopes foi um feliz contemplado pelo golo de Carlos Manuel em Estugarda, passaporte para o México. Vivia na cidade. "Infelizmente não arranjei bilhete na altura, porque reagi tarde! Assisti ao jogo em casa, com calma e menos emoção do que ao vivo. Foi algo diferente, a minha mulher também assistiu e as emoções sãp sempre especiais quando joga Portugal. Foi um jogo brilhante e uma demonstração forte de todas as partes da equipa. Um exemplo de como jogar sempre, porque não são onze, são 20 que estão a trabalhar para um resultado. Foi uma noite fantástica coroada com um grande golo."

"Lembro-me da azáfama muito bem, até porque todos os vizinhos estavam muito confiantes na vitória da Alemanha, que não perdia em casa há 36 anos. Tentaram que visse o jogo com eles, era barulho por todos os cantos, parecia uma feira no prédio. Quando se dá o nosso golo, dei um grande berro, fui ao terraço mas parecia que estavas num cemitério, se caísse um prego no chão ouvias. Só quiseram falar do jogo uns dias depois", recupera Víctor Lopes.

Pedro Cadima