Opinião

O adepto, esse milagre logístico

O adepto moderno já não é apenas adepto. É consumidor, cliente, target e, em dias particularmente felizes, "ativo estratégico da marca"

Houve um tempo em que o adepto era parte essencial do futebol. Hoje continua a ser essencial, só que isso só se nota quando falha. É uma essencialidade discreta, quase tímida, daquelas que só se nota quando falha. Enquanto está lá, funciona como o Wi-Fi: assume-se que existe e reclama-se apenas quando desaparece. O adepto moderno paga bilhete, compra camisola oficial (com ou sem nome próprio, conforme a autoestima), assina canais premium, aceita horários impraticáveis e ainda agradece por poder entrar no estádio com uma garrafa de água sem tampa - uma conquista civilizacional que merece ser celebrada em silêncio. Tudo isto para, durante 90 minutos, ser tratado como um elemento decorativo com função sonora limitada: pode aplaudir, pode suspirar, pode indignar-se, mas com educação.

Antigamente, o adepto ia ao futebol para ver o jogo. Hoje vai para cumprir um compromisso emocional. Marca-se na agenda, planeia-se com antecedência, reorganiza-se a vida familiar e, no fim, assiste-se a um jogo às nove e meia da noite de uma segunda-feira, com frio, chuva e um futebol que também parece cansado de lá estar - como se fosse um castigo bíblico.

O adepto moderno já não é apenas adepto. É consumidor, cliente, target e, em dias particularmente felizes, "ativo estratégico da marca". O adepto aprendeu a sofrer em silêncio, o que é curioso, porque sempre foi particularmente talentoso a fazer barulho. Nos estádios novos senta-se melhor, vê-se melhor e grita-se menos. Há cadeiras mais confortáveis para um desporto, por vezes, desconfortável. Pede-se contenção, civilidade e, se possível, aplausos no momento certo. O futebol ficou mais educado. O adepto, coitado, nunca foi bom aluno. Continua a levantar-se fora de tempo e a reagir com emoção. O adepto sabe tudo. Sabe quanto custou o avançado, quanto ganha o treinador, quanto falta para o fecho do mercado e quem está "bem referenciado". O que já não sabe é quando foi a última vez que se divertiu verdadeiramente num jogo ou que viu a equipa a fazer um bom espetáculo. Mas continua a ir. Porque o adepto não desiste: adapta-se. E, se for preciso, habitua-se.

Quando o jogo é mau, o adepto ouve explicações técnicas. Fica a saber que o plano estava lá, que a ideia foi bem executada e que o resultado não reflete o jogo, apesar de o marcador, teimosamente, refletir exatamente isso. Quando o jogo é bom, o adepto não tem direito a uma alegria simples: recebe estatísticas, percentagens, mapas de calor e quilómetros percorridos. Quando ganha, pedem-lhe moderação. Quando perde, pedem-lhe paciência. E, ainda assim, lá está ele. Chega cedo, sai tarde, fica em filas de trânsito e sujeita-se a esperar para entrar no estádio. Depois sofre muito e celebra pouco, mas quando celebra, fá-lo como ninguém. Porque, no fundo, o adepto sabe uma coisa que o futebol moderno insiste em esquecer: sem ele, isto é só um jogo transmitido em alta definição. Com ele, é tudo o resto. O adepto continua a ser figurante, é verdade. Mas é o único figurante que paga para estar em cena. Merecendo todo o respeito. E isso, num desporto que vive de paixão, ainda devia significar alguma coisa.

Ricardo Nascimento