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Nuno Morais: "Com o anúncio do Trump ficámos sem saber se teríamos tempo"

Nuno Morais, à esquerda Instagram/Reprodução

Adjunto de Sá Pinto fala a O JOGO dos dias difíceis que viveu no Irão

Adjunto de Sá Pinto no Esteghlal, Nuno Morais deixou na quarta-feira o Irão, na companhia dos restantes elementos da equipa técnica e dos jogadores estrangeiros do plantel. Face aos momentos conturbados que se vivem no país - com um número de mortos ainda não oficializado, mas que pode ser da ordem dos dois ou três mil, segundo várias fontes - o antigo jogador de Chelsea e APOEL está agora mais aliviado, na tranquilidade própria de Castelo de Paiva, onde já se encontra com a família.

Já regressou a Portugal? Em que zona se encontra agora?
Sim, regressei ontem. Estou na zona de Castelo de Paiva. Eu sou de Penafiel, a minha esposa é de cá e temos aqui uma casa, onde estamos agora.

E que tal a sensação de estar em segurança, em contraste com o ambiente complicado que se vive agora em Teerão?
É verdade, foi uma situação complicada. Decidimos deixar o país, também porque não conseguíamos comunicar com as nossas famílias que estão cá em Portugal. Estava a ser difícil nesse aspeto, porque cinco dias antes de regressarmos tinham cortado a internet e as chamadas telefónicas. Portanto, não tínhamos forma de comunicar nem conseguíamos mostrar aos nossos familiares que estávamos bem

Essa dificuldade em falar com a família foi a principal razão para voltarem?
Sim, foi. O medo real existe, sem dúvida, apesar de nós, com o cuidado que tínhamos, não nos sentirmos em perigo. Íamos de casa para o treino e do treino voltávamos para casa e não nos iria acontecer nada. Agora, com a possibilidade real de uma mobilização militar por parte da América, já estamos a falar de contextos diferentes. De resto, só era perigoso se nós fôssemos para os locais onde decorrem as manifestações ou se tirássemos fotografias, por exemplo. Fazíamos a vida normal, de ir para o treino e para casa, e evitávamos essas zonas de manifestações nos horários em que eles avisavam. Não estávamos em perigo iminente, digamos assim, apesar de, por vezes, passarmos em zonas onde havia muita polícia, muitos militares. Também houve uma pequena manifestação perto do nosso prédio. Eram situações que nos deixavam um pouco apreensivos, mas não de perigo iminente.

Vocês não tinham noção das situações de repressão e das centenas ou milhares de manifestantes mortos? Ou seja, não tinham acesso às notícias que chegam a Portugal ou a outros países ocidentais...
Exatamente. Nós estávamos numa bolha onde a informação não chegava. Simplesmente cortaram tudo. Era difícil termos a informação.

Só quando foram à embaixada é que conseguiram ficar a par do que se estava a passar?
Sim, depois do primeiro dia em que ficámos sem comunicações fomos à embaixada e conseguimos através da embaixada falar com a família. E também estávamos sempre em contato direto com o Dr. André Oliveira, que é o responsável da embaixada.

Entretanto a embaixada fechou na quarta-feira à noite. Sabe porquê?
Quando eu falei com o Dr. André ele disse que estavam a aguardar instruções do Ministério, de Lisboa. Ele disse que se recebesse ordens para sair, teria que sair. Provavelmente foi o que aconteceu.

Existe o receio de uma guerra civil?
Guerra civil só aconteceria se o povo conseguir com que a polícia ou parte dos militares se aliem a eles. O povo sozinho não irá conseguir fazer uma guerra civil, creio. Enquanto o regime tiver os militares e a polícia do seu lado será quase impossível.

Os jogadores iranianos da vossa equipa conseguiam trabalhar normalmente ou percebia-se que estavam em grandes dificuldades?
Os mais preocupados eram os estrangeiros, porque para os iranianos é, de certa forma, uma questão normal. Eles próprios nos diziam que esta situação era uma questão de dias, de um ou dois dias e que depois volta tudo à normalidade. "Não se preocupem, vocês não têm que se preocupar, porque tudo vai passar", diziam-nos. Claro que houve jogadores que perderam pessoas queridas. De familiares não tive conhecimento, mas de amigos, sim, sem dúvida que alguns perderam amigos.

Como se processou o vosso regresso? Decorreu sob grande stress?
Foi um pouco stressante, até porque, quando o Donald Trump anuncia que vai ajudar o povo, acabámos por não saber se teríamos muito tempo ou não. A partir daí tentámos marcar as viagens, o Dr. André mais uma vez foi excelente e ajudou-nos nesse processo do transporte, também da nossa casa para o aeroporto e foi com alívio que saímos do país. Nem sabemos se irá acontecer alguma coisa ou não, mas o facto de estarmos fora e de estarmos com a nossa família é bem melhor.

Rodrigo Cortez