Futebol

"Se queremos mais tempo útil de jogo em Portugal, temos de ter menos tangas"

Debate em Leiria Liga Portugal

Arbitragem domina reflexão sobre plano da Liga para subir no ranking da UEFA

As questões de arbitragem dominaram esta quarta-feira o debate promovido pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) sobre o plano para levar Portugal à sexta posição do ranking da UEFA até 2028.

A estratégia, denominada "Meta 2028", visa melhorar globalmente o futebol profissional, tanto a qualidade de jogo, com mais tempo útil e menos faltas, mas também comercial e financeiramente, aumentando receitas de bilhética e com transferências internacionais.

No Estádio de Leiria, onde se realiza a final four da Taça da Liga, a reflexão sobre a estratégia "Meta 2028" abriu com o treinador José Couceiro a interrogar: "Em 2015, Portugal estava em 5.º lugar no ranking europeu. Hoje estamos piores [no 7.º], com uma agravante: não temos a Rússia [a concorrer], depois da invasão da Ucrânia. Há que refletir o que se passou".

Costinha, antigo internacional português e treinador, considerou "estranho" que Portugal ande sempre "neste vaivém [na UEFA]", quando tem "grandes jogadores e grandes treinadores nos melhores clubes do mundo e agentes reconhecidos".

Rui Patrício, guarda-redes agora retirado da competição, admitiu que o aumento da qualidade do futebol passa por "fazer os jogadores contentes por jogarem em Portugal".

O antigo guarda-redes do Sporting e da Seleção Nacional quer mais gente nos estádios, e lembrou a sua passagem pela Premier League, no Wolverhampton: "Em Inglaterra, todas as semanas havia ações em que os jogadores iam às escolas, para trazer essas crianças aos estádios, que estão cheios. Em Portugal é muito difícil ter os estádios cheios, tirando os três "grandes" e o [Vitória de] Guimarães".

José Couceiro defendeu a necessidade de "olhar para a qualidade dos recursos", mas também de mudar a mentalidade.

"Se queremos maior tempo útil de jogo, temos de ter menos tangas", afirmou o antigo diretor técnico nacional da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), pedindo "melhor atitude e educação".

Couceiro recorreu à ironia afirmando que "em vez de "Liga Talento" (...) às vezes o futebol português "tá lento"" e considerou que o bom futebol passa também pela arbitragem, referindo: "Se tivermos duas boas equipas e uma má equipa de arbitragem, o jogo pode ser mau", mas "se tivermos duas equipas menos boas, uma boa equipa de arbitragem pode melhorar o jogo".

O ex-árbitro e atual diretor técnico nacional de arbitragem da FPF, Duarte Gomes, concordou que o papel do árbitro "precisa de ser melhorado", aludindo à necessidade perder "maus vícios, como jogadores que continuam a dar cambalhotas após levarem um toque" ou "guarda-redes que caem no chão como mera estratégia".

Mais do que as faltas marcadas, Duarte Gomes elencou o que consome o tempo útil de jogo: "São as demoras no recomeço, nas assistências médicas, nos exames em campo e no transporte do lesionado, são as substituições, são os conflitos entre jogadores... Só depois aparecem as infrações e as idas ao VAR [videoárbitro]".

O responsável da FPF considerou que é necessária mais punição e menos pedagogia, e recordou uma conversa com Marco Silva, treinador do Fulham, de Inglaterra.

"Contou-me que na primeira vez que lá esteve, no final do jogo dirigiu-se a um árbitro, insatisfeito: "Você fez uma má arbitragem", disse-lhe. Foram 50 mil euros de multa. Nunca mais falou de arbitragem".

José Couceiro referiu ainda que para lá da arbitragem, o futebol português precisa de competição, considerando essencial a existência de mais equilíbrio.

"Em Portugal, há 93% dos adeptos a puxar por Benfica, Sporting e Porto. Mas o equilíbrio entre os competidores é o segredo do sucesso. Porque é que o NBA faz o "draft"? Para haver equilíbrio", afirmou.

Portugal ocupa o sétimo lugar no ranking de coeficiente de ligas da UEFA, liderado pela Inglaterra, seguida de Itália, Espanha, Alemanha, França e Países Baixos.

Lusa