Futebol

"Meirim era uma figura, estragou mais casamentos do que teve resultados..."

Correia Silva Miguel Pereira

Correia Silva, baluarte da vitória dos cravos, esteve ao lado de Salgueiro Maia na rendição de Marcello Caetano. Do dia mais feliz da vida ao orgulho gilista. De uma paixão de criança, Manuel intrometia-se entre adeptos para ver jogos do Gil Vicente com oito anos. Quando na tropa, alocado a Santarém, já respondia a apelos da equipa.

Há vidas com propósito que ultrapassam o nosso tempo em terra. A revolução de 1974 ainda nos enamora, guiada à eternidade, não dando a espaço a outras transcendências. Manuel Correia da Silva foi um homem que saiu do quartel de Santarém, um furriel íntimo do comando de Salgueiro Maia, com ligação estreita aos acontecimentos que transfiguraram Portugal e moralizaram uma população no gozo da liberdade de pensar e agir. Em Barcelos resiste este bastião da revolução, pertencente a uma safra de militares a quem se deve solene gratidão, não fosse inspirador exemplo de coragem para novas gerações e para tempos de inflamada tensão e clivagens com retrocessos em marcha. Nesta entrevista junta-se o espírito de Abril e também o indefetível devoto do Gil Vicente.

Viver o 25 de Abril, com a intimidade de ter sido operacional, segue com uma coroação do destino?
- Foi o dia mais feliz da minha vida, conseguimos a liberdade, ao fim de 48 anos de uma ditadura cruel. A democracia chegou e com ela deu-se o fim da guerra colonial e vieram muitas outras conquistas. Infelizmente postas em causa, hoje, num retrocesso que me leva a questionar muita coisa, vendo estes reacionários salazaristas de volta. Custa-me, nesta idade, com duas filhas e seis netos. Temo pelo futuro, vejo o país dominado por esta escalada.

Imagino que o 25 de Abril também tenha tido implicações numa vida diferente do seu Gil Vicente?
-A revolução fez mudar tudo. O Gil Vicente não tinha força tal como outros clubes do norte, antes de 1974, e os anos que se seguiram trouxeram outra realidade. A minha vida foi passada a acompanhar o Gil Vicente para todo o lado. Foi e é uma paixão. Lembro a primeira subida, um estádio a abarrotar. A tristeza maior veio com o caso Mateus. A partir desse dia, estive muito tempo sem ir ao estádio, desinteressei-me, considerei uma injustiça, vi a parte maligna do futebol, que passa pelos órgãos da FPF e da Liga.

No seu tempo de tropa, quando a revolução era o desejo secreto, o Gil era uma paixão mais descarada?
- Várias vezes não vinha a casa, aproveitava para ver jogos do Gil Vicente mais a sul. Como no Cova da Piedade. Houve uma invasão barcelense, porque era um jogo da Taça. Puxei por um colega do quartel que era da Madeira e foi comigo a Lisboa. Eu era gilista na tropa, respirava segundo um 'Deus, Pátria, Família e Futebol'. Também vi jogos do Benfica na Taça dos Campeões Europeus, por influência dos meus irmãos, nada comparável ao amor pelo Gil.

O que mais se cruza com a sua memória quando se fala do Gil Vicente?
-Jogadores como Capucho a Hugo Viana. O Paulinho ou o Carlitos. O Capucho acompanhei desde os juvenis, tinha corpo e altura, foi um avançado de que gostei sempre. Lembro um rapaz do Benfica, o Simões, que casou aqui. Foi dos melhores que vi no Gil Vicente. Ainda o Russo, que jogou na primeira equipa com 16 anos. Veio de Fão, era órfão. Direi que deve ser a figura mais emblemática do clube, um apaixonado a sério com 75 anos. Dessa geração do Sá Pereira, do José Albino. Não esqueço a era do Meirim, que trouxe muitos brasileiros, incluindo o Dejair e o Marconi.

Isso foi em 73/74 ao que sei. Mas não foi dos ciclos mais felizes do Meirim?
- Era para subir! Ele foi buscar atletas ao Brasil com o presidente João Trigueiros. Foi uma loucura a apresentação desse plantel no pavilhão, eram todos craques e o investimento era para chegar à 1.ª Divisão. Vim a Barcelos nesse fim-de-semana e o acontecimento foi notável num sábado à noite. Meirim era uma figura, colocava os jogadores a subir espigueiros. Mas não correu bem aqui, apresentou-se como um senhor, mas estragou mais casamentos do que teve resultados. Era um cavalheiro e as mulheres solteiras e casadas andavam atrás dele. Tudo fina flor, mas perdiam-se com estas figuras. Não acabou a época, deu para o torto, mas os jogadores que trouxe tiveram sucesso mais tarde.

Sacrifícios e peripécias como adepto, também se recorda?
- Comecei a acompanhar a equipa aos oito anos. Para entrar no estádio naquela altura, com um primo e algum amigo, metia-me entre os sócios, até que algum me deixasse entrar com eles, como sobrinho ou filho. Alguém aceitava meter-me no campo. Acompanhei o Gil Vicente para toda a parte durante anos. Aos 12 anos era sócio.

Drulovic, puro esplendor

Manuel Correia Silva percorre alguns símbolos gilistas, somando histórias.

Foi contemporâneo de muitas figuras do Gil. Há aí também estima pelo presidente Fiúsa?
- Foi da minha turma na primária. Nasceu de uma família com poucos recursos, o pai era trolha, mas ele como operário na Barcelense foi subindo de afinador de máquinas de peúgas até criar a sua empresa. Lembro o pai dele como o senhor que fazia as marcações no campo do Gil Vicente, era uma espécie de roupeiro. Já a mãe lavava a roupa dos jogadores. O pai, mal saia da fábrica, ia ajudá-la no campo com as marcações em terra batida.

Como recorda a primeira subida à 1.ª pelas mãos de Vítor Oliveira?
-Recordo com carinho um grande treinador e bonitos anos. Eram autocarros que saiam para toda a parte, cerca de 20 ou 30. Eu vi esses jogos quase todos, até porque o meu tinha era uma figura típica e organizava excursões.

Junta algum acontecimento a esse tempo?
- Eram outros tempos e outra paixão. Quando o Gil foi à Póvoa de Varzim, 80% tinham vindo de Barcelos, porque a subida ficara garantida contra o Salgueiros. O Varzim estava a meio da tabela, o que interessava era a receita. Era como se fosse o Benfica ou FC Porto, o estádio pelas costuras. Foi o dia do casamento da minha sobrinha com comes e bebes num hotel. Como era dia de festa, bebi bem e já só apareci na Póvoa tinha o jogo acabado. Depois dá-se a grande comemoração em Barcelos.

Pouco depois chega a Barcelos o Drulovic. Foi um luxo ver o sérvio?
- Drulovic terá sido o melhor de todos em Barcelos. Veio para cá por intermédio de uma rapariga da cidade que vivia na Jugoslávia, casada com um jugoslavo. Dá-se a Guerra dos Balcãs e esse casal veio para cá. Chega com essa ligação e mais dois outros jogadores. Era um craque, um pé esquerdo de outro nível, que marca dois golos numa vitória sobre o Benfica. Como o Gil não tinha dinheiro, acabaram por ser três indivíduos, que eram empresários, a trazê-lo de Vigo para Barcelos e a arcar com a operação. O Gil ficou só com 20% do Drulovic, o resto pertencia aos industriais, que faziam parte da Direção. Por isso sai a mal, dando pouco ao clube. Um dos industriais era o Vinha, que tinha camarote no FC Porto. O presidente, de então, o Afonso Costa, que também era muito portista, nunca mais se deu com o Pinto da Costa. Insultaram-se do piorio num Gil-FC Porto, em Braga. Basicamente, os três com a maioria do passe, venderam-no ao FC Porto sem consultar a Direção. O Gil recebeu o equivalente a 20%, quando tinha proposta bem superior do Benfica. Esses três industriais acho que nunca mais vieram ver jogos do Gil, foram ostracizados, passaram de heróis a inimigos.

Outras figuras por mencionar?
- Tenho de falar do Dito. Um grande homem com coração de ouro. As suas irmãs, muito interventivas na sociedade, ainda me convidam hoje para dar palestras em escolas. Dito jogava muito, tinha pés de veludo. O pai era espanhol e veio do Celta. Depois casou cá, abriu um restaurante, fez vida aqui e nasceram os filhos que foram jogadores. O Dito sai ainda júnior do Gil para o Braga. Voltou no final da carreira. Infelizmente deixou-nos cedo.

Neto, genro e o 'Humberto'

A atualidade gilista não escapa do ponto de mira de Manuel Silva, havendo um afeto que contempla todo o agregado familiar

Que sensações lhe dá este Gil de César Peixoto?
- Estou bastante agradado com a equipa. Já tivemos grandes classificações com Álvaro Magalhães e Ricardo Soares, este levou-nos à Europa. Mas está muito bem, a jogar bom futebol, se igualasse um 5.º lugar era ótimo. O César Peixoto melhorou muito a defesa, tem jogadores possantes, aprecio muito o lateral-esquerdo [Konan] que centra à Coentrão. E depois há o Pablo. Não sei como o Famalicão o deixou vir para cá. Vai dar muito dinheiro ao Gil Vicente, só tem 21 anos. Já renovou e cresceu muito este ano. O treinador está a fazer um ótimo trabalho, criou uma boa equipa e tem ótimo meio-campo. O Esteves até me parece um mini Vitinha.

A nível familiar, há muitas ligações ao Gil, certo?
- Tenho um neto que joga, tem 14 anos e vai dar jogador, até já o puseram como capitão. Eu também joguei nas camadas jovens, depois fui para tropa e tive uma rotura de ligamentos. Acabei a jogar futebol de salão. O meu genro, Palheiras, jogou no Gil e ainda joga pelos veteranos, gosta dessa camaradagem e tainadas. É filho de um grande Palheiras, que acabou preso ao clube. Teve uma proposta do Benfica, mas não o deixaram sair. Era como o Humberto Coelho, punha a bola onde queria, começava nele a construção.

Pedro Cadima