Aos 49 anos, o antigo jogador do Benfica e Braga é adjunto no futebol canadiano. Fica aqui a sua viagem de quem espreita aparecer como treinador principal a breve trecho, quiçá, em Portugal
Armando Sá é hoje adjunto na primeira liga canadiana, no Pacific, trabalho que o preenche há quatro temporadas, num país que o acolhera antes, desenvolvendo capacidades para também traçar o seu caminho mais líder. O antigo lateral-direito do Benfica, que também se notabilizou no Braga e Rio Ave, fazendo vários anos fora do país em Espanha, Inglaterra e Irão, vai saboreando os conhecimentos adquiridos ao lado do treinador James Merriman. Na última jornada, a equipa de Langford até bateu o York United, treinado por Mauro Eustáquio, irmão do médio do FC Porto.
"Estou no meu quarto ano no Pacific e tem sido uma experiência incrível. Vim para o Canadá com a mente aberta, e a adaptação foi muito positiva — a qualidade de vida, o respeito das pessoas, tudo isso ajudou muito. O clube acolheu-me bem desde o início, sinto-me valorizado, e tenho crescido bastante como treinador. Criei uma boa ligação com o treinador principal, trabalhamos em sintonia, e isso faz toda a diferença", descreve o antigo internacional moçambicano, de 49 anos, qualificando a atual etapa e as valências futuras. "Ser adjunto tem-me preparado bem para o passo seguinte. Tenho aprendido muito nestes anos, mas, o meu objetivo, é agarrar um projeto como treinador principal e, talvez, voltar a Portugal. É algo que considero bastante, para aplicar as minhas ideias, assumir um grupo e crescer com ele. Já me sinto preparado para isso e estou à espera da oportunidade certa", defende Armando Sá, taxativo na vontade e no processo de aprendizagem. O desenvolvimento interno também encoraja. "Nestes quatro anos tenho visto uma evolução grande no futebol canadiano. A liga está mais competitiva, os clubes estão a apostar mais na formação e na qualidade do jogo. Ainda há muito para crescer, mas o caminho está bem traçado. Nota-se que há cada vez mais interesse e investimento no futebol", sustenta, fugindo de qualquer colisão com os Estados Unidos, parceiro fundamental nesta imagem mais vistosa. "A relação com os Estados Unidos é boa, principalmente a nível desportivo. Existe uma rivalidade saudável, mas também muita cooperação. A parte política, como as visões do Trump, acaba por não entrar muito no nosso futebol. Aqui dentro, o respeito continua a ser grande entre os dois países", apressa-se a valorizar.
Armando Sá não perde contacto com a sua carreira de jogador, alcançando um interessante patamar de jogos pelos encarnados e ainda a conquista da Taça de Portugal. Mesmo longe de casa, os vínculos tornam certas atenções obrigatórias. "Tenho acompanhado bastante o futebol português, até porque é impossível desligar-me. Sigo o Benfica, claro, mas também o Braga e o Rio Ave, por tudo o que vivi nesses clubes. Gosto de ver a evolução, os treinadores com ideias novas, jogadores jovens a aparecer, e uma formação cada vez mais trabalhada. Nota-se bem o crescimento", destaca o antigo lateral, que de jogador do Vila Real e Bragança, conseguiu arrepiar caminho até voar como uma águia.
"Jogar no Bragança e no Vila Real e chegar ao Benfica parece quase uma história de filme! Não esperava que a carreira acelerasse tão depressa, mas fui sempre acreditando, passo a passo. Cada clube teve o seu papel, cada oportunidade foi aproveitada e, de repente, estava a jogar ao mais alto nível. Foi rápido, mas muito merecido", aclara, penetrando na transcendência que lhe tocou ao vestir a camisola encarnada. "Jogar no Benfica foi um sonho realizado. É um clube gigante e chegar lá foi motivo de muito orgulho. Conquistar uma Taça foi marcante, mas o mais importante foram mesmo as vivências, os colegas e o ambiente. Esse contrato foi um momento-chave na minha carreira, confirmou o meu trabalho e abriu muitas portas para o futuro", admite Armando Sá, homem que estava no campo quando se deu o colapso de Miki Féher, um transtorno duradouro, uma imagem terrível e um sorriso guardado no rosto do húngaro por súbita e excruciante fatalidade. "O momento da morte do Fehér foi o mais duro da minha carreira e, estar em campo naquele dia, foi devastador. O Miki era um colega fantástico, sempre bem-disposto, com um sorriso fácil. As memórias seguem muito vivas. Depois disso, o grupo uniu-se muito e, conquistar a Taça naquela época, foi também por ele. Nunca mais esquecemos", reflete o moçambicano.
Antes de chegar ao Benfica, Armando dá-se a conhecer de forma cabal no 1º Maio, animando a plateia do Braga. As exibições levaram-no para a Luz numa altura onde muitos guerreiros fizeram a mesma viagem, bastando recordar Quim, Ricardo Rocha ou Tiago. "O Braga foi um passo muito importante no meu percurso. O clube já mostrava qualidade e organização, A nossa equipa tinha muito talento e isso refletiu-se no interesse do Benfica. Eu, o Quim, o Ricardo Rocha, o Tiago… todos saímos dali. Era um plantel forte e bem trabalhado", recorda o adjunto do Pacific, não escondendo contentamento pelos progressos dos minhotos na hierarquia do futebol nacional. "Mesmo tendo passado pouco tempo lá, fico muito feliz ao ver o que o Braga tem conquistado. É um clube sólido, sempre na luta por competições europeias e com um projeto bem definido. Sinto orgulho por ter feito parte da história deles, mesmo que numa fase mais inicial", sustenta.
Com a luta pelo título a passar também por um Braga-Benfica, Armando Sá fixa-se na envolvência emotiva deste Campeonato. "Tem sido mesmo entusiasmante ver este despique entre Benfica e Sporting. Chegou tudo em aberto ao dérbi e a emoção segue para a última jornada. O Rui Borges montou um Sporting muito sólido e bem organizado, enquanto o Bruno Lage conseguiu dar ao Benfica um futebol mais ofensivo e com boa intensidade", defende, mais animado pela competição do que adepto. "São duas boas equipas, com ideias diferentes, mas ambas bem treinadas. Para quem gosta de futebol, está a ser um final de época de alto nível", atesta Armando Sá.
Do folar transmontano às tempestades de areia no Irão
Grato a Trás-os-Montes, escalando uma montanha por uma visão de um mundo encantando, o antigo lateral atravessa o caminho sofrido, pejado de árduas batalhas pela frente e de improváveis reviravoltas no destino. "Passei pelas camadas jovens do Belenenses e, como qualquer miúdo, sonhava chegar ao topo. Mas aos 19 anos, tive de sair de Lisboa e seguir para Trás-os-Montes — primeiro Bragança, depois Vila Real. Foi um choque, claro, mas também uma escola de vida. Longe dos grandes palcos, aprendi a lutar, a ser resiliente e a crescer no meio das dificuldades. Não foi o caminho mais direto, mas foi o mais verdadeiro", desabafa, mergulhando no pedaço mais satisfatório dessa odisseia.
"Tive de dar a volta ao mundo para conquistar o meu espaço e ter reconhecimento. E o mais marcante foi voltar a Lisboa, anos depois, pela porta grande: no Benfica e com tudo o que isso representa. Foi como fechar um ciclo, com a certeza de que cada passo valeu a pena", complementa, rindo-se ao lembrar dos prazeres transmontanos.
"Em Trás-os-Montes, além da neve e do frio, fui surpreendido pela comida. Os enchidos, o folar e a posta à mirandesa são apenas alguns exemplos da rica gastronomia da região, que tem uma tradição e sabor únicos", partilha Armando Sá, que também teria as suas provações por Espanha, Inglaterra e Irão.
"Cada país teve o seu sabor, mas Espanha foi especial. Joguei na La Liga, enfrentei e joguei com grandes craques, e ainda tive a felicidade de conquistar títulos — uma Taça Intertoto com o Villarreal, uma Taça do Rei e uma Taça da Catalunha com o Espanhol. E ajudar o Villarreal a qualificar-se pela primeira vez para a Liga dos Campeões foi histórico", revela o moçambicano, explorador também da realidade asiática, jogando no Sepahan. "Depois disso, o Leeds foi uma experiência intensa, com a paixão dos ingleses. E o Irão foi algo completamente diferente — uma cultura nova, desafios únicos, desde jogos interrompidos por tempestades de areia até estádios cheios com uma energia incrível. Aprendi imenso em todos esses momentos."