Treinador português do Wolverhampton deu entrevista ao The Guardian
Vítor Pereira, treinador do Wolverhampton, concedeu uma entrevista ao The Guardian na qual recordou episódios da sua carreira, falou de motivações e do passado humilde que o moldou.
"O meu pai não tinha dinheiro e vivíamos numa cave. No inverno, o mar era muito forte e não havia barreiras. Todos os invernos, durante três meses, a água entrava lá dentro. Tivemos de reconstruir a casa. A água entrava sempre pelas paredes e havia um mau cheiro. Sentia-me envergonhado porque a minha roupa cheirava mal. Mas eu era um adolescente muito feliz. Quando olho para trás, esta força que sinto dentro de mim veio dessa altura. Desde o início que sabia que queria ser treinador. Depois disso, quero ser treinador na I Liga em Portugal. Depois disso, quero ganhar o campeonato em Portugal. E depois disso, quero ganhar o campeonato em Portugal. Depois disso, quero ganhar campeonatos fora do país", comentou, referindo-se também ao prazer que sente quando abraça um projeto: "Acho que se não fosse treinador, seria algo como um arquiteto. Gosto de criar. Sempre que vou para um clube, é como se pegasse num bebé nos braços. E começo a ajudá-los a crescer. É como se começasse uma nova pintura. Isto é futebol, deu-me a oportunidade de exprimir a minha criatividade. Se não fizesse isto, talvez fosse pintor... talvez devesse trabalhar em arte. Se eu estiver no sítio certo para me desafiar, posso fazer magia."
O técnico português desvalorizou a pressão de que se fala no futebol: "No Brasil, perguntaram-mese sentia a pressão. ' pressão, meu amigo. Vou falar-vos da pressão. A pressão foi quando o meu pai teve cancro, o meu irmão estava a morrer, a minha mãe estava a chorar. E quando lidamos com isso, futebol é futebol. Não sinto qualquer pressão. Nada. Zero. A pressão é a pressão que eu coloco em mim próprio. Porque quero ser melhor. Estou sempre a mudar de casa, de carro. A minha família começa a falar quando estamos a almoçar ou a jantar, e eu estou a pensar no futebol. Às vezes não consigo perceber a conversa. É como se tivesse começado a ver um filme... mas perco o filme até ao fim. Chego ao fim e não sei o que aconteceu. Nos últimos 15 anos, a minha mulher tem sido o pai e a mãe. Não vi nada. Nunca estive presente. Nunca. Não quero esta vida para os meus filhos. Temos muitos momentos em que sofremos muito. E sozinhos. Acho que estamos sempre numa pré-depressão."